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Cotidiano

Crônica: Samba e bênção

Porque assim como o samba, que até pode ser polido na poesia, mas é denso demais no coração, é a cadência da vida

Publicado em 04 de Setembro de 2022 às 07:00

Publicado em 

04 set 2022 às 07:00
Maria Sanz

Colunista

Maria Sanz

Samba, pagode, roda de samba, chocalho
Porque assim como o samba, que até pode ser polido na poesia, mas é denso demais no coração, é a cadência da vida Crédito: Shutterstock
É melhor ser alegre que ser triste, diz o poeta na canção.
Mas, não sem fazer uma importante ressalva: é preciso também de um bocado de tristeza, senão não se faz um samba não.
Senão e daí? – ele diz.
Vai passar a vida no rasinho? Gostando do que seja só bonito?
Mergulhar requer qualquer coisa além da beleza, companheiro. É preciso qualquer coisa que venha da tristeza. Talvez da tristeza de não saber... Ou de se saber limitado.
Consciente de que o Mistério "é" – somente. E curvando-se diante dessa monumental impotência, usar a dor para honrar a esperança de, cantando, escrevendo, dançando, se reinventar, renascer.
Perceba, se a fé renova é porque somos seres criativos – diria até, míticos – com o dom de conceber pensamentos extraordinários, de contar histórias, de batizar deuses e inventar mitos; de produzir canções irreparáveis, palavras perfeitas, filhos. Somos capazes de co-criar. Aceitando o Mistério sem deixar de interferir no que podemos ser um dia.
Assim diz Vinícius: "porque o samba é a tristeza que balança/ e a tristeza tem sempre uma esperança/ de um dia não ser mais triste não". Esclarecendo ao mundo inteiro que a tristeza que escreve, que murmura e que balança, é a própria mãe da arte, da amizade e do samba.
Ora – ele insiste – "o bom samba é uma forma de oração". Um querer em busca de alcance. Como pintar, se enfeitar, cozinhar, orar, dançar, cantar, e tudo mais que venha do fundo da alma querendo encontrar luz – florescer e percorrer o trajeto do escuro para o claro. Até o ponto de lampejo. Brilho, faísca, sentido, recomeço.
Depois, novo mergulho – porque a volta é certa: do claro para o escuro. Ciclo.
Donde se conclui que a vida gera a morte e morte gera a vida. (Pessoalmente, acho isso lindo. E mesmo sob o risco de não ser compreendida, ousarei falar sobre isso – me escorando em Vinícius).
Porque assim como o samba, que até pode ser polido na poesia, mas é denso demais no coração, é a cadência da vida. No sentido que, é na medida em que a realidade se apresenta, que mergulhamos mais profundamente em nós mesmos, trazendo à tona novas saídas, luzes. Vida, mesmo.
Falando claro, imagine como alguém que experimentou a pior tristeza, como alguém que perdeu um filho, um irmão, um amor, uma chance, um amigo, vai tocar em frente sem criar uma ponte? Sem construir um novo caminho? Sem propor um novo ritmo? Sem co-criar um novo ciclo?
Os céticos que me perdoem, mas evoluir é ir além das aparências. Porque a realidade, como se sabe, é uma dimensão limitada, pobrezinha. De modo que para tocar em frente é preciso alma: vínculo com o inefável e fé no invisível.
Enfim, esse assunto é complexo demais para uma coluna de domingo, eu sei. Mas se insisto é porque estou falando exatamente disso: do nosso poder co-criativo. Essa dádiva magnífica que nos permite transbordar, enxergar além e transformar a dor em esperança (de um dia não ser mais triste não).
Há poder na intenção, não duvide.
Criemos (propósito) com a benção, então!

Maria Sanz

É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

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