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Cotidiano

Crônica: Pra trocar ideia

Vamos precisar fazer luto dessa fantasia de salvamento e ampliar o repertório para enriquecer a invenção da vida e a composição entre nós (humanos – seres mais complexos da natureza), enquanto sujeitos

Publicado em 09 de Outubro de 2022 às 02:02

Publicado em 

09 out 2022 às 02:02
Maria Sanz

Colunista

Maria Sanz

Mãe e filhos
Desejo para os meus filhos: novos sujeitos capazes de gerar e lidar com novos conceitos. Crédito: Olena Kondrashova - Freepik
Ontem, no caminho pra escola, meu filho de 7 anos me pediu para abaixar o som do rádio porque queria me fazer uma pergunta. Gelei, imaginando que viria uma bomba, mas diminuí o volume encorajando minha criança: pode falar, filho, estou ouvindo.
Ele queria saber porque eu elegi a escola em que ele e seu irmão estudam. Respirei aliviada e engatei a segunda (ficou fácil pra mim), estufei o peito e comecei a explicar minhas razões.
Quando me dei conta, já estava filosofando sobre a vida ser uma grande invenção da gente mesmo... “Por isso, filho, escolhi uma escola que valoriza a linguagem como ferramenta fundamental para lapidação e construção do sujeito.”
Ele me deu um sorriso e pediu pra ensinar a ele uma palavra nova (adorei!).
Conviver bem com a alteridade, ou seja, ser um sujeito capaz de ouvir o outro na dignidade de sujeito também, e assim aprender a dividir o espaço, sem impor a própria perspectiva como única verdade, é pra mim uma valiosa qualidade.
Desejo isso para os meus filhos: novos sujeitos capazes de gerar e lidar com novos conceitos.
Ora, a contemporaneidade jura que ama “o novo”, que deseja “a novidade”, mas é mentira. Ainda somos apegados ao aconchego do conhecido, do antigo, do parecido (com a gente mesmo). Porque não raro quando o novo surge (A-parece), nossa psique narcísica, julga, ataca, ou no mínimo, sente medo.
Esquecemos que a natureza é em si uma espécie de república, “coisa de todos” – como uma floresta é tanto da formiga, quanto da Samaúma. Mas, diferente dos animais e das plantas, que se adaptam naturalmente ao ecossistema em que surgem, nós humanos, precisamos nos adaptar uns aos outros.
Aliás, dependemos de partida, do outro.
No instante em que nascemos passamos a ser alienados pela voz, pelo olhar, pelo colo e pelos cuidados do outro. De modo que crescemos e aprendemos dia-a-dia sobre nossos limites e possibilidades a partir desse grande-outro. Esse que nos doutrina com seu amor simbiótico, mas também nos “poda”, para ensinar a função do autocontrole.
Acontece que desde a modernidade, esse grande-outro, que é também uma espécie de herói, caiu. Sumiu. Escafedeu. Com ele, velhos conceitos e pré-conceitos também caíram. Agora estamos todos com a chance de reinventar a vida, e isso é maravilhoso. Mas para que dê certo, precisaremos suportar também a reinvenção do outro.
Eis uma aprendizagem...
Houve um tempo em que o humano foi regido por deuses e ideias transcendentes, depois por ideologias radicais, religiões, fanatismos e preconceitos de toda sorte, que por fim geraram guerras e mais guerras.
Evoluímos para a famosa modernidade, quando o estado e a religião se separaram, e assim, nasceram as leis, os órgãos e controle e, finalmente, a democracia. Ironicamente, contudo, agora, na contemporaneidade, seguimos narcisicamente afetados por ideologias alienantes sobre a existência de grandes heróis salvadores da pátria. Como se quiséssemos voltar no tempo e retomar a simbiose com o grande-outro-semideus, gigante.
Mas não tem jeito! Vamos precisar dialogar. Trocar ideia. Respeitar o outro, compor mesmo.
Vamos precisar fazer luto dessa fantasia de salvamento e ampliar o repertório para enriquecer a invenção da vida e a composição entre nós (humanos – seres mais complexos da natureza), enquanto sujeitos.
Vamos além.

Maria Sanz

É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

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