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Cotidiano

Crônica: Cigana cotidiana

Troco sorrisos por carinho, mas se gritar comigo, eu revido. Arrepio, se me mexer nos cabelos e abraço apertado, de olhos fechados, quando tenho medo. Choro se você vai embora.

Publicado em 16 de Outubro de 2022 às 02:00

Publicado em 

16 out 2022 às 02:00
Maria Sanz

Colunista

Maria Sanz

Você João, eu Maria. De salto alto, na beira do fogão, coberta de guizos e bijuterias. Fazendo comida – e feitiçaria
Você João, eu Maria. De salto alto, na beira do fogão, coberta de guizos e bijuterias. Fazendo comida – e feitiçaria Crédito: Shutterstock
De vestido comprido, flor no cabelo, batom nos lábios e colo perfumado, te preparo um caldo. É de marisco, vinho branco, (segredo) e azeite. Faz parte do feitiço: com uma mão mexo o caldeirão e com a outra bebo da taça de boca larga. Remexo o quadril ao som da música que toca e viro os olhos para o relógio que, do alto da parede, espreme a hora – falta pouco, você não demora.
(Discretíssimas são minhas feitiçarias).
Troco sorrisos por carinho, mas se gritar comigo, eu revido. Arrepio, se me mexer nos cabelos e abraço apertado, de olhos fechados, quando tenho medo. Choro se você vai embora. Mas, finjo que não ligo. Tsc, minto só quando preciso. E se te contrário, é porque não resisto.
Me faço de louca pra te ver perder a cabeça, porque acho que a inquietude assenta com a sua beleza. Olho curiosa para a gaiola onde você guarda seus segredos. Mas compreendo que cada um tem seu próprio viveiro.
De repente te beijo, mordo, assopro, adoro, odeio. Fico nervosa e amarro para o alto o cabelo. Depois digo que te amo, descalço o sapato apertado e me esqueço completamente do calo. Faço silêncio. Ouço uma estrela caindo e uma flor se abrindo. Sinto uma poesia preguiçosa passear pela minha cabeça. Adormeço.
Se em seu lugar, é o despertador quem me acorda, desobedeço. E faço vinte minutos de hora mesmo tendo que acordar cedo. Tomo café preto e tudo folheio. O jornal e o que mais alcançarem meus dedos - Hilda Hilst, Jorge Amado, Rosa Monteiro. Sublinho toda palavra que em mim cause efeito. Bebo outro café, te telefono, me visto, passo água de cheiro. Saio de casa, me acho e me perco. Pressinto que se eu parar por um segundo pode acontecer alguma coisa terrível. Por isso agito, invento prazos, recrio desejos e, a mim mesma, me submeto.
Minha sina é procurar respostas e dependendo do atravessado da hora, cuspo também perguntas de sobra – (por onde você andou; por que deixou a faca suja de manteiga; por que você não fecha a boca e me beija?). Mas também sei contar história. E sempre que posso, te dou a mão e refaço a trilha das migalhas secas do meu dia.
Você João, eu Maria. De salto alto, na beira do fogão, coberta de guizos e bijuterias. Fazendo comida – e feitiçaria. Ponho a mesa e a cama, metade mulher, a outra dama. Te chamo para dançar, te faço um poema, te encanto. Depois escondo as chaves, reinvento os planos, zombo da lei dos homens, te deixo tonto. Você pede sossego, zanga.
Aí fico metida e subo na cadeira para dizer que não sei viver na calmaria; que não gosto de canja, nem de novela, nem camisola branca. Que não sou sensata, nem muito menos santa.
(Irremediável: dentro de mim mora uma cigana).
Bola de cristal pendurada no céu negro; cravo vermelho fincado no decote entre os seios; cordão de ouro; pé de coelho; carta de amor debaixo do travesseiro e uma lágrima de saudade misturada no caldo – (que é o segredo). Mandinga minha, de mulher-menina, expulsa do paraíso.
(Adorável e perigosíssima).

Maria Sanz

É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

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