Marcos Ramos*
“A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana.” Foi a frase do Nelson Rodrigues que me abriu os olhos para a compreensão do futebol como um fenômeno complexo e necessário na aventura de entender o Brasil. Fui flamenguista desde o momento em que botei o nariz para fora da barriga da minha mãe, mas me desquitei do clube e do futebol, de modo irrestrito, na adolescência por pura fantasia: em algum momento, pensei (e não estava sozinho) que o futebol fosse inconciliável com uma ideologia de esquerda. A partir de uma leitura reducionista e até vulgar do país, do futebol e do marxismo, enunciávamos aos quatro cantos que, no Brasil, o futebol é o ópio do povo, ingrediente fundamental na manutenção dos privilégios de classe. Ledo engano. Vivo atualmente um reencontro com o futebol mediado pelas crônicas de Tostão, pelos comentários do Juca Kfouri e pelos ensaios de Zé Miguel Wisnik, entre outros, que têm me conduzido a outras conclusões.
O futebol é político no sentido mais criativo e potente. E é a possibilidade de elaborar as diferenças (nacionais, religiosas, raciais, etc), em termos de pacto civilizatório, como competição simbólica, o dado mais emancipatório desse esporte. Em outras palavras, ainda que vivamos em diversos aspectos retrocessos morais que beiram a barbárie, o esporte mais popular do mundo elabora simbolicamente rivalidades (totêmicas, tribais, nacionais) reiterando pactos de convivência sistematizados em regras que pressupõem igualdade. Nesse sentido, como já avaliou o sociólogo Norbert Elias, o futebol é a garantia civilizatória ou, pelo menos, uma espécie de termômetro do pacto civilizatório que se opõe veementemente ao fascismo.
Ainda que a Família Tradicional Brasileira tenha ao longo dessa década raptado a bandeira e a camisa da Seleção para pousar nas ruas e nas sacadas de panela na mão, pedir intervenção militar, bons costumes (?) e outros micos, a gente sabe que quem ganhou a Copa de 70 não foi o General Médici, foram Pelé e companhia, e hoje quem entrará em campo não será o governo de Michel Temer, nem o “Brazil” que não conhece o Brasil, mas a garotada que fez desse esporte uma possibilidade de furar o destino da aniquilação, do extermínio, da desigualdade social, transformando a festa em fresta. Bill Shankly, treinador do Liverpool na década de 70, enunciou uma das muitas frases catalogáveis sobre futebol. Fiquemos com esta: “Evidentemente o futebol não é uma questão de vida ou morte, é muito mais”. Bom jogo.
* O autor é professor e escritor