A partida entre Marrocos e Portugal, pelas quartas de final da Copa do Mundo, estava prestes a começar, no último sábado (10). Naquele momento, uma multidão de homens chegava ao estádio de críquete situado em Asia Town, periferia de Doha. Localizado em um bairro habitado por migrantes, esse espaço é bem diferente e tem menos recursos de entretenimento que as chamadas "fan zones" instaladas pela Fifa no deslumbrante centro da capital do Catar.
O que eu vejo são milhares de homens das mais diversas etnias acomodados nas arquibancadas ou sentados no chão vidrados no telão onde uma seleção africana de matriz árabe enfrenta a equipe do "superstar" Cristiano Ronaldo. Os torcedores estão divididos. Majoritariamente são oriundos de países asiáticos, como Bangladesh, Índia e Nepal. Há também uma significativa parcela de cidadãos vindos do leste africano: sudaneses, somalis e etíopes. Embora de bandeiras diferentes, vieram para o Oriente Médio pelo mesmo motivo: a busca por trabalho.
Foram responsáveis por erguer a infraestrutura do país, inclusive os luxuosos estádios da Copa do Mundo. Quanto a isso, há uma polêmica sendo debatida em meio à competição. Entidades de direitos humanos internacionais questionam as normas trabalhistas adotadas pelo Catar, que, além de oferecer condições precárias e baixos salários, resultaram em centenas de mortes de operários na construção dos estádios.
Após o fim da partida, vencida por Marrocos por 1 a 0, ao olhar cada um daqueles rostos enquanto ia embora, só consegui me lembrar dos versos da música "Cidadão", composta por Lúcio Barbosa e interpretada por de Zé Geraldo: "Tá vendo aquele edifício moço? / Ajudei a levantar / Foi um tempo de aflição / Eram quatro condução / Duas pra ir, duas pra voltar / Hoje depois dele pronto / olho pra cima e fico tonto / Mas me chega um cidadão / e me diz desconfiado, / tu tá aí admirado / ou tá querendo roubar?"