Esperávamos ter chegado até aqui com uma quadro econômico um pouco menos hostil do que temos hoje. Não que alguém acreditasse que em 2018 os problemas seriam resolvidos, mas havia uma confiança de que os indicadores ruins iriam ceder em uma velocidade maior do que a que estamos acompanhando. São muitos os dados frustrados, mas hoje quero chamar a atenção para os números do endividamento, que no Espírito Santo atinge quase 683 mil pessoas e no país alcança mais de 61 milhões.
As contas atrasadas já fazem parte da realidade de cerca de 40% da população e, em algumas regiões, como no Norte, metade dos consumidores está no vermelho. O convívio das famílias com a inadimplência não é de hoje, mas ele vem explodindo nos últimos anos e até mesmo mudando de perfil.
Não é só o descontrole com o uso do cartão de crédito, do cheque especial ou com algum empréstimo que está sujando o nome dos consumidores. A situação do orçamento doméstico no país é tão dramática que a falta de pagamento de contas essenciais passou a levar mais gente para os órgãos de proteção ao crédito do que os atrasos com os tradicionais vilões.
A inadimplência com contas de água, luz, gás e telefone já ultrapassa a com instituições bancárias e cartões de crédito, conforme levantamento da Serasa. Enquanto em agosto de 2017 os débitos com bancos representavam 30,1% de tudo o que estava em atraso, as contas com serviços do dia a dia respondiam por 28,7%. Já no mesmo mês deste ano, as dívidas com tarifas essenciais somaram 31,2% e os atrasos bancários representaram 28,5% do total.
Ou seja, a renda dos brasileiros está tão fragilizada que nem sequer está sobrando um trocado para garantir os serviços básicos do lar. O que vemos são famílias fazendo malabarismos com as contas. Há quem não quite o boleto de luz até o momento em que a energia pode vir a ser cortada, e quando isso acontece, dá um jeito de pagar e atrasa outra fatura. E assim vai levando até se embolar nas duas piores dívidas: a do cartão de crédito e a do cheque especial, em que os juros estão na casa dos 300% ao ano.
E o pior: junto com a bola de neve das taxas indecentes cobradas no Brasil vem o estigma de caloteiro. Por isso, é preciso deixar claro que não se trata de calote, de irresponsabilidade, mas de pessoas que estão sofrendo os reflexos de políticas econômicas adotadas equivocadamente nos últimos 10 anos. Estamos falando de profissionais que sofrem com um mercado de trabalho que ainda agoniza e abarca 13 milhões de desempregados. Então, enquanto não houver reação da economia, criação de vagas, volta do consumo e da confiança, crescimento do PIB e equilíbrio das contas públicas, não há o que se falar em caloteiro.
Outro ponto que deve ser tratado com menos desprezo é a dificuldade que o brasileiro tem de poupar. É comum ouvirmos pessoas criticarem a falta de capacidade de algumas famílias de fazerem um pé de meia. Realmente, pouquíssimas têm algum dinheiro guardado debaixo do colchão, na poupança ou investidos. Em parte, a culpa é da nossa baixa ou quase nenhuma educação financeira. Lidar com dinheiro não é algo que está arraigado no aprendizado nacional. Mas muito mais do que a falta desse conhecimento, esbarramos na profunda desigualdade social do país. Falar em ensinar as pessoas a pouparem soa até arrogante quando temos metade da população brasileira vivendo com menos de um salário mínimo.
SEM GÁS
O projeto de lei que cria a estatal ES Gás foi enviado pelo governo do Estado à Assembleia Legislativa há cerca de 20 dias, mas até agora continua na gaveta da presidência. O tema por si só já é complexo e exige uma análise cuidadosa, e considerando ainda que há uma eleição em curso, tão cedo o PL não deve ser analisado pelos deputados. Nesse ritmo, é capaz da formação da estatal ficar só para o próximo ano.
TRILHOS INCERTOS
O governo federal até tem tentado acelerar as discussões sobre a renovação antecipada do contrato de concessão da Estrada de Ferro Vitória-Minas. Mas a estratégia parece que não está dando tão certo. A Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT) precisou prolongar os debates e prorrogou por mais 30 dias o prazo para o envio de contribuições para a consulta pública. O processo para dar à Vale o direito de explorar a ferrovia por mais 30 anos tem suscitado paixões e revoltas. O Espírito Santo esperava que a partir dessa renovação ganharia uma nova ferrovia para vencer gargalos logísticos históricos. Porém, o governo federal preferiu levar o investimento para o Centro-Oeste. Hoje, aliás, o ministro dos Transportes, Valter Casimiro Silveira, estará em Vitória. Será a oportunidade dele dar satisfação ao povo capixaba sobre o motivo da União ter preterido o Estado.