Com nove andares, é um prédio como outro qualquer. As imediações são apertadas, estacionar por perto é problema. Na vizinhança há botecos, antíteses do requinte. O desenho arquitetônico também não faz brilhar os olhos. A estrutura, envelhecida, não abriga nenhum detentor de poder hereditário, muito menos divino.
Por incrível que pareça, dessa maneira é possível descrever um palácio. Ele era da Escelsa até 2005, quando foi comprado pelo Estado para abrigar repartições. Para não virar, no vocabulário popular, a "antiga sede da Escelsa", foi batizado de Palácio da Fonte Grande, uma referência à região na qual está situado.
Esse é só um dos "palácios" do cotidiano capixaba. O Anchieta é outro. A Prefeitura de Vitória funciona no Palácio Jerônimo Monteiro. A Assembleia, no Palácio Domingos Martins. O Tribunal de Justiça, na verdade, é o Palácio da Justiça Desembargador Renato de Mattos.
Obviamente, o Espírito Santo não é ilha. Há palácios para Poderes por todo o país: Palácio do Planalto, da Alvorada, dos Bandeirantes, Guanabara e Piratini são alguns das dezenas que poderiam ser citados.
O que, aparentemente, é só um jeito distinto de identificar sedes administrativas de Poderes, diz muito sobre o que era e o que é a república democrática brasileira.
Afinal, por que a sociedade brasileira é comandada por quem trabalha em palácios? Historiadores ouvidos pela reportagem veem aí resquícios do Império e da tradição patrimonialista da política brasileira. É algo que mantém, ao menos simbolicamente, o hiato entre representantes e representados.
GASTANDO LATIM
A origem da palavra evidencia o aspecto de nobreza. "Palácio" vem do latim, "palatium". Diz respeito à colina Palatino, onde foram construídas casas dos césares e dos imperadores na Roma antiga.
"Há uma tradição de distinção, não tenha dúvida. Há essa postura aristocrática, de Estado patrimonialista. O fato de nossos representados viverem com privilégios também tem a ver com a nossa tradição patrimonialista", ponderou o historiador Estilaque Ferreira.
Mestre em História e professor da UVV, Rafael Simões também considera que só usar a palavra "palácio" para designar prédios públicos simboliza uma pompa que destoa daquilo que hoje em dia se espera dos representantes políticos.
"Me parece uma herança de nobreza, muito influenciada pelo iberismo, acondicionada por uma perene visão brasileira, que não conseguimos desconstruir nem com a República. Quando você entra em um palácio, está entrando na casa do rei. E nós já vencemos há muito a ideia de monarcas e súditos. Somos cidadãos. É a História? Sim, mas ela não pode ser usada para justificar tudo", comentou.
APROPRIAÇÃO
Professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Ufes, Clara Luiza Miranda remonta à afirmação da burguesia na Europa, nos séculos XVIII e XIX para refletir sobre a disseminação do termo "palácio". Os burgueses buscaram uma nova "linguagem de arquitetura" para expressar o novo status, ela explica. Chegaram ao ecletismo, também conhecido como historicismo. Os arquitetos ganharam a liberdade de adotar estilos de períodos históricos e regiões distintos. Buscavam uma "monumentalidade".
"Uma possível explicação para a disseminação arbitrária e pretensiosa da designação 'palácio' tem a ver, inicialmente, com atitude eclética e contraditória, que acompanha a afirmação da burguesia como classe social", disse a especialista.
No Brasil, quando colônia, havia, no máximo "casas" e "câmaras". As suntuosidades eram reservadas a Portugal. Quando Dom João VI transferiu a Corte, era necessário dar algum requinte ao poder Real. A sede administrativa do Reino Unido do Brasil, Portugal e Algarves passou a funcionar no Paço Real, no Rio de Janeiro. Na Língua Portuguesa, "paço" tem o mesmo significado que palácio.
"No Brasil, (os palácios) têm a ver também com o desejo de se desvencilhar da fisionomia da arquitetura e das cidades coloniais e com a continuidade da linguagem ou expressão arquitetônica do império, avalizada pela Academia de Belas Artes, fundada no período em que aqui viveu a família Real portuguesa, só emulada muito no fim da Velha República. Tem a ver com a recorrência, com o desejo aristocrático presente na oligarquia hegemônica", diz a professora.
Nas Américas, povo é governador por "Casas"
Em que pesa o tamanho, a elegância e o luxo, a mais importante sede de um governo no mundo não funciona em um “palácio. As decisões que mudam o equilíbrio do planeta vêm da Casa Branca, nos Estados Unidos. E o fato de os norte-americanos serem governados de uma "house" (casa), segundo alguns historiadores, têm relação com a maneira como o país foi constituído.
"Os EUA nunca respeitaram esse conceito de nobreza. O Brasil se manteve vinculado a Portugal como colônia até o século XIX. Até a Inglaterra, que tem uma rainha, pavimentou-se pela democracia. Aqui, a tradição monárquica é forte", frisou o historiador Estilaque Ferreira.
De fato, nem os "lordes" ingleses trabalham em palácio. A mais alta casa Legislativa dos britânicos, equivalente ao Senado brasileiro, é a Câmara dos Lordes. O equivalente à nossa Câmara dos Deputados é chamada de Casa dos Comuns.
Pela América do Sul, os "palácios" não são regra. Os colombianos são governados pela Casa Nariño. Na Argentina, o presidente despacha da Casa Rosada.
Na Bolívia, as ordens presidenciais vêm da Grande Casa do Povo – não serve de referência, porém. A sede é nova e sua construção foi eivada de polêmicas. É um prédio moderno e faraônico, com direito a até suíte com jacuzzi. Substituiu o histórico Palácio Queimado.
"O Brasil foi a única monarquia da América. Éramos uma monarquia entre repúblicas", destaca Estilaque.
Não se pode dizer, porém, que a definição da sede dos governos sempre segue ou não uma tradição monárquica. No Chile, a sede do governo funciona no Palácio da Moeda.
E, como lembra o historiador Fernando Achiamé, "capitólio" também tem origem em uma das sete colinas da Roma antiga, assim como a que deu origem a "palatium" e, mais tarde, a "palácio".
"Em muitos países, também são feitas referências à Roma antiga para sede do Poder Legislativo. A palavra 'Capitólio' remete a outra colina romana. O de Washington é o mais famoso", frisou.