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CRIME NA SERRA

Três policiais viram réus por assassinato durante greve da PM

PMs são acusados de assassinar um rapaz de 23 anos durante o período de greve da Polícia Militar, em Carapina Grande, na Serra. Eles foram denunciados pelo Ministério Público

Publicado em 11 de Junho de 2019 às 21:52

Publicado em

11 jun 2019 às 21:52
Três policiais militares são réus acusados de assassinar um rapaz de 23 anos durante o período de greve da Polícia Militar, em Carapina Grande, na Serra. Vitor Moreira Gomes foi morto com oito tiros na rua São Judas Tadeu, próximo à praça do bairro, na tarde do dia 6 de fevereiro de 2017.
O inquérito da Polícia Civil que investigava o caso foi concluído em abril deste ano. Depois de dois anos de apurações da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) Serra, foram reunidos laudos periciais, depoimento, imagens e outros elementos informativos que levou o delegado chefe da DHPP Serra, Rodrigo Sandi Mori, a indiciar os soldados Alexandre Rezende Ribeiro e Danilo Lopes da Silva e o cabo Wagner Guimarães Rocha pelo crime de homicídio qualificado por impossibilidade de defesa da vítima.
Na época dos fatos, os três militares eram lotados no 6º Batalhão da Polícia Militar - que atende o município da Serra - e não estavam de serviço e nem aquartelados. Segundo as investigações, os três estavam em um carro particular, não usavam uniforme e portavam as armas da corporação.
Os policiais teriam encontrado com o jovem, Vitor, e um amigo, momento em que ambos correram. Vitor estava armado e não teria feito nenhum disparo, segundo as investigações. Pelo menos um dos tiros foi dado quando o rapaz já havia caído no chão e ferido.
QUEM ERA VITOR?
Vitor tinha 23 anos e era sócio de uma oficina, em São Pedro, Vitória, havia seis meses, após sair do emprego de motorista de caminhão de gás. Ele cresceu em Carapina Grande, na Serra. Em setembro de 2015, Vitor, os irmãos e a mãe mudaram-se do bairro após o jovem ser testemunha de um duplo assassinato.
Vitor Moreira Gomes, morto no dia 6 de fevereiro de 2017. Crédito: Divulgação
“Uma das vítimas era meu padrasto. Meu irmão viu o crime e passou a receber ameaças, por isso comprou uma arma, uma pistola calibre 380 cromada. Ele não tinha porte de arma, por isso mesmo mantínhamos R$ 4 mil guardados para que pudéssemos pagar a fiança, caso ele fosse preso por andar com a pistola. Nosso pai era policial civil e nos ensinou a atirar, por isso mesmo afirmo que meu irmão não atirou contra os policiais em nenhum momento. Se meu irmão tivesse reagido, teria acertado algum deles ”, relatou  Tiago Moreira Gomes, 27 anos, irmão de Vitor.
Ele reforçou a índole do irmão. “Não tinha envolvimento com tráfico, não tinha nada de errado e não era vagabundo. Ao contrário, fomos criados por um pai policial e convivíamos com policiais amigos do meu pai. Meu irmão andava armado por uma situação anterior. Mas ele sempre trabalhou e estava para ser pai, morava no mesmo prédio que a gente”, afirmou o irmão.
No dia do assassinato, Vitor foi ao bairro participar de um churrasco, pois o lava jato dele estava fechado por conta da insegurança provocada pela paralisação da Polícia Militar. “Eu e meu irmão somos nascidos e criados em Carapina Grande. Todos nossos amigos são de lá. No dia, cheguei a vê-lo saindo de casa, era por volta das 15 horas, pois eu retornava do trabalho. Ele disse que voltaria logo. Minutos depois, recebi uma ligação com a notícia da morte dele”, contou Tiago Moreira Gomes, 27 anos, irmão de Vitor.
DIA DO CRIME
Segundo os autos do processo que a reportagem teve acesso, três militares - que atuavam no mesmo batalhão dos réus - estavam em um Corolla, de cor branca, e foram ao bairro Carapina Grande comprar lanches. Houve troca de tiros com suspeitos armados no local. A ocorrência foi registrada como tentativa de assalto e o Corolla chegou a ser atingido pelos disparos. 
Após o fato, o soldado Rezende, o soldado Danilo e o cabo Guimarães saíram da frente do 6º Batalhão, em Carapina, para acompanhar os colegas até a Delegacia Regional de Serra, onde registraram a ocorrência. 
De lá, o soldado Alexandre, o soldado Danilo e o cabo Guimarães foram para Carapina Grande. Em depoimento, eles disseram que o objetivo da ida ao bairro era para verificar se alguma pessoa havia sido baleada. Eles foram para o local em um Celta, de cor preta, que pertencia ao cabo Guimarães.
TESTEMUNHAS
As testemunhas que prestaram depoimento à Polícia Civil disseram que Vitor e um amigo estavam na rua quando ouviram um carro cantando pneu na rua Maria Ortiz. Quando o veículo se aproximou, uma pessoa atirou de dentro do carro, o que fez Vitor e o amigo correrem. O jovem caiu ferido enquanto o amigo continuou correndo. Foram ouvidos outros tiros. Não há registro de que Vitor tenha conseguido sacar a arma.
Crédito: Arabson
ABORDAGEM
Nos depoimentos prestados à Polícia Civil, após serem identificados, as  três versões dos militares, por vezes, encontram pontos divergentes, como o próprio delegado exemplificou no relatório final da investigação.
Na ocorrência registrada pelos acusados - no dia do crime -, os militares  descrevem que “ao chegarem ao local, foram surpreendidos por cerca de 6 a 8 indivíduos que saíram de um beco e tentaram abordar o veículo”.
Já em depoimento à Polícia Civil, em outubro de 2017, o soldado Danilo afirmou que quando chegaram em Carapina Grande, “se depararam com dois indivíduos armados que pararam na frente do veículo”. Ele afirmou que um dos indivíduos estava com uma pistola cromada e que ao se identificarem como policiais, os suspeitos correram.
O cabo Guimarães  afirmou que se tratava de um grupo, de seis ou sete indivíduos, que saíram desse mesmo beco, aparentemente armados, e afirmou “não se recordar se nesse momento o indivíduo (que seria Vitor) efetuou disparos em direção ao veículo”.
O terceiro militar, soldado Rezende, alegou que foram surpreendidos por dois indivíduos que saíram de atrás de um carro, “sendo que um estava com arma em punho e entrou na frente do veículo deles e disse ‘perdeu, perdeu’”.
Rezende ainda descreveu que ele e os seus colegas também estavam com arma em punho e que teriam se identificado como policiais - já que não usavam uniforme ou viatura caracterizada, "sendo que dois indivíduos correram e um deles efetuou disparos em sua direção e na de seus colegas. A fim de repelir injusta agressão também efetuaram disparos nos dois indivíduos”.
Depois, sobre o mesmo fato, o soldado Rezende diz que os indivíduos correram e logo em frente se depararam com outros seis suspeitos e novamente os PMs se aproximaram e, novamente, atiraram contra os PMs. Ele afirmou que não se lembra quem teria atirado contra os militares.
Crédito: Arabson
DISPAROS
Na ocorrência registrada no dia da morte de Vitor, os militares afirmam que foram os primeiros a atirar. “Ao chegarmos ao local, fomos surpreendidos por cerca de seis a oito suspeitos que saíram de um beco e tentaram abordar o veículo em que estávamos. Nesse momento, desembarcamos e nos identificamos como Policiais Militares e demos voz de prisão aos suspeitos, que se abrigaram atrás de veículos estacionados e efetuaram disparos contra nós, que foram revidados. Após isso os suspeitos se evadiram correndo pela rua, embarcamos novamente no veículo e seguimos atrás dos suspeitos que continuaram efetuando disparos, mesmo correndo.”
ARMA DE VITOR
Ainda no boletim de ocorrência, porém, os militares descreveram que o suspeito - que seria Vitor - parou e apontou a arma em direção dos policiais que revidaram, “momento que o suspeito caiu sentado ainda com a arma em punho e tentando efetuar disparos contra os policiais, havendo revide por parte dos militares, tendo então o suspeito largado a arma, momento em que cessou a ação policial”, pontuaram.
Já no depoimento à Polícia Civil, o soldado Alexandre Rezende disse que ele e seus colegas desembarcaram do veículo e ficaram de frente para o indivíduo que estava de arma em punho. O militar disse que deram ordem para ele largar a arma e se rendesse, porém, na versão dada pelos policiais, Vitor não obedeceu.
“O indivíduo estava em pé e em condições de efetuar disparos nos policiais; Informa que o indivíduo, neste momento, não efetuou nenhum disparo de arma de fogo, porém, como não largou a arma e com receio de que viesse a atirar, eu, o soldado Danilo e o cabo Guimarães, atiramos”, disse em depoimento.
TIROS APÓS QUEDA
O soldado Danilo diz que durante a perseguição entre os suspeitos que correram estava Vitor e ele portava uma arma. O militar alega que teria sido dada ordem para largar arma e que Vitor não largou. "Com receio de serem alvejados, efetuaram disparos no indivíduo”, contou o PM, explicando os disparos. Ele afirma que realizou seis disparos e que todos os disparos teriam sido feitos de dentro do carro.
O soldado ainda negou ter atirado em Vitor após ele cair no chão e que os disparos teriam sido feitos a uma distância de 8 metros. Já o soldado Rezende também afirmou que não houve disparos próximo ao corpo e que teriam sido dados a sete metros de distância.
Crédito: Arabson
DE FOLGA
Depois da morte de Vitor, os militares deixaram o local do crime alegando em ocorrência de que foram avisados que cerca de 10 pessoas estavam circulando armadas no bairro. Não demorou muito e realmente o local foi tomado por homens armados, mas todos militares à paisana, fato que foi comprovado pela Polícia Civil com depoimento e fotos.
VÍTIMA TENTOU SE PROTEGER
O resultado do laudo complementar, realizado pela perícia criminal da Polícia Civil, aponta que Vitor tentou se proteger dos disparos. “É possível considerar que as lesões produzidas por projétil propelido (projetado) por arma de fogo, constadas no antebraço e polegar esquerdos da vítima em tentar proteger regiões nobres como a cabeça, portanto, posicionando as mãos à frente desta. Trata-se de uma forma instintiva de proteção, na ocasião em que surpreendida pelo autor”, diz o laudo.
Para a polícia, o resultado do laudo pericial serviu para concluir que não houve disparo por parte de Vitor e que ele teria tentado se proteger com as mãos.
Tal fato comprova que a vítima tentou se defender e nem mesmo conseguiu efetuar qualquer disparo de arma de fogo, ratifico que, não foi encontrado no local do crime nenhuma cápsula de calibre 380
Relatório do delegado Rodrigo Sandi Mori
No local, foram recolhidas pelos peritos cinco cápsulas calibres . 40, que comprovadamente apontou que pertenciam às armas dos militares.
Delegado Rodrigo Sandi Mori Crédito: Fernando Madeira | GZ
A DENÚNCIA
O caso foi encaminhado para a Justiça no dia 17 de abril de 2019, após o delegado Rodrigo Sandi Mori reunir os laudos, testemunhas e depoimentos. Os militares foram indiciados pelo crime de homicídio qualificado por impossibilidade de defesa da vítima.
No dia 17 de maio, o caso chegou à 3ª Vara Criminal da Serra, onde foi dada vistas ao Ministério Público, que decidiu por oferecer denúncia contra os três policiais militares. A Justiça recebeu a denúncia no dia 3 de junho deste ano, tornando os PMs réus pela morte Vitor Moreira Gomes.
OUTRO LADO
Ao serem procurados pela reportagem, os militares preferiram não se manifestar. O soldado Danilo disse que desconhecia o processo. Informou que iria retornar após se inteirar sobre fatos, porém, não entrou mais em contato.
O soldado Alexandre informou, também via telefone, que não tinha interesse em se pronunciar.
Já o telefone que se encontra nos autos do processo como sendo do cabo Guimarães é apontando como número inexistente.
CORPORAÇÃO
Os três militares denunciados continuam exercendo as suas funções normalmente. A informação foi repassada pela assessoria de imprensa da PM, após a reportagem solicitar entrevista com o corregedor.
Apesar de dois anos dos fatos, nenhum processo administrativo foi aberto para que fosse avaliada a conduta dos militares. A corporação informou que “encontra-se em análise a documentação para avaliação quanto à instauração de processo administrativo.”
O Inquérito Policial Militar (IPM) aberto para apurar indícios de crime foi encaminhado à Auditoria de Justiça Militar Estadual, mas foi encerrado após a autoridade militar declarar não ter competência para julgar a situação. O processo foi encaminhado para a 3ª Vara Criminal – Tribunal do Júri – da Serra.
 
 

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