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Ciclistas fazem protesto após assassinato de colega na Cinco Pontes, em Vitória Ricardo Medeiros | GZ
sonhos interrompidos

Como era a vida do ciclista assassinado em assalto na Cinco Pontes

Assassinado durante um assalto na Cinco Pontes, Carlos Renato Souza era dedicado à família, apaixonado por esportes e sonhava em abrir o próprio negócio

Elis Carvalho

Repórter de Cotidiano

Publicado em 18 de Maio de 2019 às 02:19

Publicado em

18 mai 2019 às 02:19
O futebol marcado com os amigos não aconteceu. O brinquedo aguardado para dar ao filho teve que ser entregue por outro familiar. A meta de montar uma empresa ficou apenas nos cadernos. Planos e sonhos do analista de sistemas Carlos Renato Souza, 45 anos, foram interrompidos na tarde da última terça-feira, após ele ser morto durante um assalto na Cinco Pontes, em Ilha do Príncipe, Vitória. Desde então, familiares e amigos vivem dias de tristeza, saudade e medo.
Terceiro filho de seis irmãos, Renato - como os familiares o chamam - mostrou o amor pelos esportes ainda criança. Vascaíno, ele revezava o lazer entre o futebol e os passeios de bicicleta em Rio Marinho, Vila Velha, onde cresceu com a família.
 “Não há nenhum esportista em nossa família. Mas nosso pai era um verdadeiro torcedor vascaíno. Acho que daí veio a paixão do Renato pelo futebol, tanto que ele pensou em ser jogador na juventude. Ainda criança, cuidava da bicicleta com muito carinho e eu lembro de chorar porque ele não deixava ninguém encostar na bike (risos). Meu irmão teve carro desde novo, mas a paixão dele era pedalar”, lembra um dos irmãos, de 41 anos, que prefere não se identificar.
 Renato também participava de corridas, triatlo e atletismo. No dia do crime, ele tinha um plano: sair do trabalho pedalando até em casa – como fazia todos os dia – e buscar para um grupo de ciclistas as camisas de uma pedalada combinada para acontecer hoje. Depois, seguiria para um jogo de futebol com os amigos da igreja. “Ele não era atleta de fim de semana. Ele tinha isso como um estilo de vida. Estou aqui olhando as roupas dele e a maioria é roupa de eventos esportivos que ele participava. Além de amar esportes, ele era muito simples”, conta o irmão.
Carlos Renato Souza, morto em assalto na Cinco Pontes Crédito: Facebook
 
FAMÍLIA
Casado há 15 anos, ter filhos e construir uma família sempre foi um sonho para Renato. Esse sonho foi realizado há 11 anos, após a esposa passar por um tratamento e conseguir engravidar da filha. Já o segundo filho, veio há cinco anos de forma inesperada. O ciclista, que trabalhava para conseguir pagar escola particular para as crianças, desejava ver os filhos formados um dia. Esse sonho não pôde ser realizado.
“Os filhos eram tudo para o Renato. Tanto que ele queria sair do apartamento e comprar uma casa, mas não queria tirar o colégio particular das crianças. Ele mudou provisoriamente para a casa de um dos nossos irmãos. E no último domingo fomos todos para a casa nova do Renato comemorar a mudança e o Dia das Mães. Foi um dia tão feliz. O Renato, mesmo tímido, dançando com as crianças. Era como se ele soubesse que era uma despedida”, contou emocionada Luíza Ferreira de Souza, de 48 anos, irmã da vítima.
No último domingo em família Renato improvisou uma pista de corrida feita com papelão para o filho. Sabendo que menino de cinco anos queria muito um beyblade - uma espécie de pião tradicional japonês, o ciclista fez a encomenda por internet. Enquanto isso, no último domingo ele deu um peão feito a mão.
“No dia da morte do Renato o brinquedo chegou pelos Correios. Meu irmão estava louco para entregar ao filho e não pôde. Fomos nós que entregamos. Foi um momento muito triste. A gente contou tudo ao meu sobrinho, mas ele é muito pequeno e não entende. Vez ou outra ele pergunta: “Que horas meu pai vai chegar?”. Já a filha dele, chorou muito ao saber da morte. Depois ela se fechou no mundinho dela. Só fica no computador, não fala nada sobre o assunto. O Renato era o único na casa dele que trabalhava fora. A mulher dele cuidava da casa e das crianças. Agora ela está perdida”, lamenta Luíza.
Carlos Renato Souza Crédito: Facebook
MÚSICA
Evangélico desde criança, foi o comprometimento com a igreja que fez Renato interessar-se pela música. Sabendo que o local estava precisando de instrumentista, ele comprou uma guitarra e passou a estudar sozinho pela Internet. “No último domingo que estivemos juntos, o Renato falou que tinha o projeto de fazer um estúdio de música na nova casa que pretendia comprar. Ele nunca teve tanta afinidade com a música como agora. Mas assim que a igreja precisou, ele passou a se envolver. Ele estava muito feliz na igreja, com a música, ele estava realizado”, conta Luíza.
TRABALHO
Entre as paixões de Renato, uma delas ele escolheu para ofício: a informática. Mesmo sem experiência, ele conseguiu o primeiro emprego como técnico em 1995. De lá pra cá, buscou qualificações, fez cursos e formou-se como analista de sistemas. Quem conviveu com o ciclista no ambiente de trabalho, afirma que ele era ótimo profissional e amigo.
“Ele trabalhou comigo de 1995 à 2008. Passamos por diversas empresas. Sempre que eu conseguia um emprego melhor, dava um jeito de levá-lo comigo porque ele era muito inteligente, tinha disposição para o trabalho, dedicado, paciente… Ele era o tipo de pessoa que sempre queria aprender. De colega de trabalho, ele passou a ser meu amigo pessoal. Me ajudava em serviços extras e era uma pessoa muito boa. Todos da área estão arrasados. Desde sua morte, sempre que vejo a imagem dele ainda dói muito o coração”, conta o administrador de empresas Luiz André, de 50 anos.
Entre os planos de trabalho, Renato sonhava em ter o próprio negócio. Ele estava inciando uma sociedade com um amigo para um projeto de energia solar.
“Ele estava estudando o projeto, um amigo mostrou recentemente a empresa e chamou o Renato. Meu irmão estava cheio de planos, com essa ideia de energia solar. Era um projeto de futuro que infelizmente não teve tempo para sair do papel”, lamenta o irmão.
Ciclistas fazem protesto após assassinato de colega na Cinco Pontes, em Vitória Crédito: Ricardo Medeiros | GZ
 
ROTINA INTERROMPIDA
Pedalar fazia parte do dia a dia de Renato. Passar pela Cinco pontes era um trajeto diário. Com a mesma bicicleta há 20 anos, ele teve a rotina interrompida ao cruzar o caminho de Emerson Moura Marinho, o Cocão, de 20 anos, e Daniel Braga da Cruz, de 19, às 17 horas da última terça-feira.
Os criminosos exigiram a bicicleta da vítima, que, segundo testemunhas, reagiu. Teria sido nesse momento que os criminosos deram o primeiro disparo. O ciclista entregou o veículo, mas mesmo assim os assaltantes deram o segundo e fatal disparo. Baleado no pescoço, Renato ainda teve a mochila roubada e morreu no local.
“A gente não estava lá para ver. Mas é difícil acreditar que ele reagiu. Ele era apaixonado demais pela família para reagir por conta de uma bicicleta velha. Ele era muito humilde. Só tinha roupas de esportes, que ganhava em corridas, ia para igreja com camisa de futebol... Se ele reagiu, achamos que foi pelo susto, foi para se defender, e não pelo bem material. Tanto que ele sempre orientava à família a nunca reagir. Ele falava com meu filho, que agora está indo estudar pedalando, para sempre entregar a bike em caso de assalto. Ele era pacato, desde criança nunca foi de reagir. Por isso, para nós, é uma surpresa tão grande”, disse Luíza.
Ela lembra, ainda, como foi receber a notícia da morte do irmão. Os dois haviam combinado de ir juntos buscar as camisas do grupo que faria uma pedala hoje. Antes de sair do trabalho, ele falou coma irmã por telefone: “Quando eu chegar em casa te ligo”. Mas Renato nunca chegou.
“Cheguei em casa e ele ainda não tinha chegado do serviço. Quando passou de 17h30 a minha cunhada começou a me ligar preocupada porque o Renato ainda não tinha chegado em casa. Depois ela me ligou chorando dizendo que ficou sabendo de um ciclista morto na ponte. Fui para o DML (Departamento Médico Legal), meu irmão mais novo disse que recebeu um vídeo e ele reconheceu a roupa dele. Quando eu cheguei no DML, o corpo ainda não tinha chegado, mas fui informada que o ciclista tinha uma aliança com o mesmo nome da minha cunhada. Senti uma dor profunda no meu coração”, lembra.
Bicicleta de Carlos Renato foi recuperada nesta quarta-feira (15) Crédito: Divulgação | Polícia Civil
SAUDADE
Agora, a família Souza, uma das primeiras a chegar em Rio Marinho, conta com o apoio de dezenas de pessoas, inclusive desconhecidas. Gente que se colocou no lugar do analista de sistemas e se solidarizou com o caso. Na última quinta-feira, cerca de 600 ciclistas protestaram em uma pedalada que foi da Cinco Pontes até o Convento da Penha, em Vila Velha.
“Há 20 anos eu passo pelo mesmo local que o Renato morreu. Minha filha falou: 'Pai, poderia ter sido com você'. Não tem como não se colocar no lugar dessa família. Fiquei completamente consternado, chorei. A cidade está hostil. O número de usuários de drogas só aumenta. Bens como bicicleta e celular passaram a ser objeto de desejo de criminosos. A gente não pode ter mais nada. Mas não é armando todo mundo que a violência irá acabar. E por falta de efetivo, é impossível ter um policial a cada esquina. É preciso ocupar os locais públicos, transformar as cidades, recuperando espaços que se perderam”, acredita o professor e ciclista Fernando Braga, de 59 anos.
Para a família, ficam as lembranças de Renato, definido como um homem aparentemente tímido - mas brincalhão quando estava entre os familiares, carinhoso com a mãe, dedicado à mulher e apaixonado pelos filhos. Em homenagem à ele, uma placa com o nome e foto da vítima foi colocada por ciclistas na Cinco Pontes.
“A família continua triste, arrasada pelo ocorrido. Mas a homenagem vem para trazer um pouco de alento. Não vai trazer o Renato de volta, mas mostra um pouco o que ele era: Um cara discreto, mas alegre, super família, trabalhador, o mais responsável dos irmãos, comprometido com tudo que pegava para fazer. Queremos justiça. Queremos pena máxima para os envolvidos. Agora a nossa preocupação é com esses criminosos, pois sabemos amanhã ou depois esses caras podem sair da cadeia”, teme o irmão.
Ciclistas fazem protesto após assassinato de colega na Cinco Pontes, em Vitória Crédito: Ricardo Medeiros | GZ

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