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Tráfico de armas

Como armas de guerra chegam às mãos de criminosos capixabas?

Para especialistas, esse armamento pode chegar pelas fronteiras terrestres e até pelo porto da Capital

Elis Carvalho

Repórter de Cotidiano

Publicado em 03 de Abril de 2019 às 01:16

Publicado em

03 abr 2019 às 01:16
Após a polícia apreender dois fuzis calibre 762 no Morro do Macaco, em Tabuazeiro, no último dia 30, uma pergunta pairou sobre os capixabas: afinal, como armas que são usadas até em guerras estão nas mãos de criminosos em morros de Vitória? Para especialistas, esse armamento pode chegar pelas fronteiras terrestres, em aviões e até pelo porto da Capital.
O fuzil calibre 762 da marca Romar Cugir Romania, de invenção soviética, também é conhecido como AK-47 e considerado o armamento mais letal e produzido da história. De acordo com o despachante de armas Marlos Borges, um disparo do AK-47 atinge a uma velocidade de 2.500 quilômetros por hora e tem um alcance efetivo a 300 metros de distância. Ele completa que no comércio ilegal, um fuzil desse modelo pode alcançar o preço de R$ 30 mil.
Já o fuzil calibre 762, marca Juggernaut Tactical, modelo JT-10, também apreendido, é conhecido como AR-10. De fabricação americana, o armamento pode ser utilizado para o lançamento de granadas. "O AK-47 é um armamento russo com alto poder de destruição, podendo atravessar um carro blindado, por exemplo. Esse fuzil é muito poderoso, geralmente é usado em regiões de guerra. O AR-10 só pode ser adquirido por meio de uma autorização do Exército. Geralmente, é item para competidor”, comentou.
Fuzis e munições apreendidos em Tabuazeiro Crédito: Vitor Jubini | GZ | Arquivo
O delegado Fabrício Dutra, do Departamento Especializado em Narcóticos (Denarc), afirmou que a situação dos fuzis encontrados com criminosos é preocupante pelo poder letal do armamento. Ele afirmou, ainda, que o fato das armas estarem em um morro de Vitória demonstra uma falha na fiscalização das fronteiras. Porém, garantiu que as polícias estão trabalhando para inibir essas ações.
"Vemos que ao decorrer dos anos o calibre dessas armas nas mãos dos bandidos tem aumentado. O tráfico de armas sempre vem associado a outros crimes como tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Essas armas são vendidas no mercado por R$ 40 mil ou mais. Os fuzis, por exemplo, são armas de guerra".
O 762 tem longo e se for disparado em Vitória, por exemplo, pode atingir alguém em Vila Velha. Ela tem poder de 700 tiros por minuto. Quando essas armas chegam ao Espírito Santo, significa que houve falha na prevenção, porque o Estado não tem fábricas de armas. Ou seja, há uma falha nas nossas fronteiras
PORTO DE VITÓRIA
Para Marlos Borges, as armas podem chegar pelo Porto de Vitória, já que não há fiscalização e efetivo policial suficiente que impeça o tráfico de armas. 
"As entregas feitas no Porto de Vitória são despachadas e algumas caixas passam por inspeção e outras não. O traficante pode até pegar um barco de pescador, emparelhar no navio e aguardar as caixas sendo jogadas. É um problema difícil de resolver e controlar, já que o estado não tem policiais suficiente pra isso".
Quem concorda com a possibilidade das armas chegarem por mar é o comandante do 1° Batalhão da Polícia Militar de Vitória, tenente-coronel Geovanio Silva Ribeiro. 
"Vitória é uma cidade portuária, com grande movimentação de cargas de importação e exportação. Há um acesso fácil por essa via marítima e a gente sabe que em alguns casos pessoas fracionam essas armas para montar depois. Mas é uma suposição. A rota exata é o que estamos tentando descobrir através investigações. Na história do Espírito Santo, não há muita apreensão de fuzis", disse. 
Para o tenente-coronel a apreensão causou preocupação porque aumenta risco atividade policial. Por isso, segundo ele, o policial deve ter cuidado redobrado em operações.  "O policial trabalha com fuzil calibre 556 e algumas unidades usam o 762. É evidente que preocupa uma arma desse nível ser apreendida porque aumenta o risco para os policiais. Por isso temos que ter redobrados cuidados ao fazer incursões e ter um nível técnico elevado para não ser surpreendido. Vamos cada vez mais aumentar o treinamento e capacidade operacional dos militares", afirmou.
FRONTEIRAS TERRESTRES 
O delegado-geral da Polícia Civil, José Darcy Arruda, contou que a Polícia Civil está focada em trabalhos de investigação para diagnosticar como os fuzis chegam nos morros capixabas. A polícia quer entender, ainda, se as armas chegam inteiras ou desmontadas, a origem dos fuzis, onde foram fabricados, para onde são vendidos, e quem faz a negociação. Embora ainda não haja respostas certas, Arruda acredita que o armamento pode chegar pelas fronteiras terrestres. 
Em 27 anos como delegado, minha experiência mostra que a rota do tráfico de armas não é diferente da rota do tráfico de drogas, que acontece pelas fronteiras secas, em carros, caminhões... Mas também não descarto a hipótese de chegarem por mar. Temos que investigar isso. Não é uma pessoa qualquer que tem condição de fazer tráfico de armas. Para ser um senhor das armas, é preciso ter influência e conhecimento
NOVA DELEGACIA  
Arruda completou que a Polícia Civil está finalizando a criação da Delegacia Especializada em Armas, Munições e Explosivos (Desarme), que pretende rastrear o caminho das armas no Estado, para facilitar a identificação e desarticulação desse tipo de quadrilha. 
 "No final de abril a Desarme tem que estar funcionando. Vamos usar todos os meios tecnológicos, começando pelo estudo de como essas armas estão chegando em Vitória. Nossa investigação vai até mesmo consultar empresas e provedores de internet fora do país. Com parceria da Polícia Federal, já estamos avançados em investigações até mesmo em redes não rastreáveis. Estaremos atentos em toda forma de comunicação para compra de armas para não permitir que elas entrem no Espírito Santo", garantiu. 
Delegado José Darcy Arruda Crédito: Ricardo Medeiros | GZ
Para o delegado, apesar de apenas um fuzil ter sido apreendido em todo ano de 2018, a presença desse tipo de arma em morros de Vitória não causa surpresa. 
"Não causa surpresa porque a gente sabe que o mundo do crime está em evolução. O que nos tranquiliza é que essas armas não estão sendo usadas para enfrentamento policial, mas sim entre os criminosos, para tomar territórios ou defender o próprio espaço de tráfico. Tanto que na apreensão do dia 30 os dois fuzis foram localizados abandonados pelos bandidos após um confronto", afirmou.
ARMAS EM AVIÃO 
Arruda também não descarta a hipótese de armas chegarem por aviões. "Esse armamento ilegal pode chegar também por pistas clandestinas de avião, pela região Norte do país, na Amazônia, por exemplo, ou por outros pontos do país", afirmou. 
Em janeiro deste ano, um empresário capixaba que mora nos Estados Unidos começou a ser investigado por enviar peças de fuzis do país norte-americano para abastecer o tráfico de drogas no Espírito Santo. As peças chegavam no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, e eram remetidas para o Aeroporto de Vitória escondidas em andadores, churrasqueiras e barracas de camping. As investigações fazem parte da Operação Desmonte,de combate ao tráfico internacional de armas de fogo. 
Operação Desmonte: peças de armas estavam escondidas em barracas de camping Crédito: Polícia Federal | Divulgação
Na ocasião, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão em Cariacica, na casa de suspeitos de serem integrantes de uma facção criminosa que receberia esse material. Foram apreendidos documentos, celulares e comprovantes bancários que vão ajudar nas investigações. Não houve prisões.Um dos próximos passos da operação, com a ajuda da polícia americana de imigração (ICE), é chegar ao empresário capixaba e colher provas contra ele. 
A Polícia desconfia que pelo menos 14 remessas de peças de armas foram enviadas ilegalmente pelo empresário, que não teve a sua identidade revelada - os agentes já conseguiram identificar pelo menos duas delas.Segundo o delegado Lorenzo Espósito, da Polícia Federal, as peças e acessórios são de armas perigosas e de uso restrito. "São as armas que os grupos táticos das Forças Armadas e das forças policiais usam e são as armas que as facções criminosas ficam procurando", comentou. 
O material era escondido nos produtos para não ser pego pela fiscalização por raio-x dos aeroportos. "Uma barraca de camping, uma churrasqueira, um andador têm peça de metal e vêm desmontados. Essa peça do fuzil vinha amarrada junto com a outra (peça). Em volume grande de importação, se você olhar rápido, pode confundir a pessoa que está fiscalizando na hora", explicou o delegado. 
A Operação Desmonte teve início em 2016, depois que a Receita Federal identificou o material ilegal escondido no aeroporto em Campinas. Depois de alertada, a Polícia Federal conseguiu flagrar e prender em flagrante um dos suspeitos recebendo uma outra remessa enviada naquele mesmo ano. Ele acabou solto depois por decisão da Justiça. Um relatório da Receita Federal mostrou ainda que outras 12 remessas suspeitas chegaram dos Estados Unidos.
ENTENDA COMO FOI A APREENSÃO DE VITÓRIA 
 Os militares informaram que realizavam patrulhamento às 23h50 do dia 30 quando fizeram um cerco na escadaria Elisio Gonçalves.De acordo com a polícia, a região é conhecida como ponto de comércio de drogas. Ao avistarem os policiais, os bandidos tentaram fugir e atiraram contra os militares. Os PMs revidaram com 47 disparos, segundo consta no boletim de ocorrência.
A polícia acredita que eram sete o número de suspeitos que estavam na região. Um deles, reconhecido pelos policiais, têm mandado em aberto por homicídio. Segundo tenente-coronel da PM Geovânio Silva Ribeiro, os militares já esperavam encontrar os suspeitos no local, mas não com o tipo de armamento apreendido. “Nós já tínhamos informações de que suspeitos estariam lá. Tivemos acesso à rua e horário que eles costumam circular, fazendo uma espécie de ‘patrulhamento’. Só não esperávamos esse tipo de arma. Esta é a primeira vez que minha equipe apreende dois fuzis de vez”, disse.
Tenente-coronel da PM Geovânio Silva Ribeiro Crédito: Fernando Madeira | GZ
Na fuga, os criminosos abandonaram um fuzil calibre 762, da marca Romarm Cugir Romania, WARS-10, dois carregadores e 48 munições; um fuzil calibre 762, marca Juggernaut Tactical, modelo JT-10, dois carregadores e 44 munições. Também foram encontrados 21 pinos de cocaína, um celular e uma balança de precisão.
COMO FUNCIONAM AS ARMAS
AK-47
Histórico: O AK-47 ou AK, também é conhecido como Kalashnikov, é um fuzil criado em 1947 por Mikhail Kalashnikov e produzido na União Soviética pela indústria estatal IZH. Pode ser usado dentro lama, debaixo d'água e não enferruja na água do mar. O AK-47 mata, na média, cerca de 250 mil por ano. É a arma mais letal e mais produzida da história, usada por mais de 50 exércitos nacionais, guerrilheiros e terroristas. O livro dos recordes estima que haja 100 milhões no mundo: uma para cada 70 pessoas.
Peso: 3,8 kg
Comprimento: 870 mm
Velocidade de saída: 715 m/s
Alcance efetivo: 300
Mira: Mira de ferro com alça regulável e ponto de mira
AR-10
Histórico: O AR-10 surgiu em 1955 e início de 1956 nos Estados Unidos. Naquele período, o exército dos Estados Unidos realizava testes vários rifles para substituir outro armamento já considerado ultrapassado.
Peso: 3,29 kg
Comprimento: 1050 mm
Velocidade de saída: 820 m/s
Alcance efetivo: 630 m
Mira: Mira traseira com abertura ajustável, mira frontal fixa
ARMAS VINDAS DO PARAGUAI
Em fevereiro deste ano a reportagem denunciou com exclusividade que a polícia desconhece paradeiro de 40 mil armas no Espírito Santo. Segundo pesquisas, as armas que abastecem a criminalidade no Espírito Santo possuem duas origens: a maior parte delas são nacionais, de uso permitido que foram compradas legalmente e, de alguma forma pararam na ilegalidade. No entanto, também há armas de contrabando que, em sua maioria, tem alto grau de letalidade, são uso restrito e mais valiosas, que abastecem organizações criminosas. Geralmente, elas chegam pelas rodovias e vêm principalmente do Paraguai. 
A origem das armas adquiridas pelo mercado ilegal é conhecida pelas autoridades, mas isso não impede que elas entrem ou circulem no Espírito Santo. Tanto que parte delas passam por rodovias estaduais e federais, segundo informações das polícias Civil e Rodoviária Federal. 
“Cerca de 90% das armas que vêm de fora chegam ao Estado pelas rodovias, mas todas as vias são possíveis para o tráfico de armas. As armas importadas vêm do Paraguai, passando por diversos Estados antes de chegarem ao Espírito Santo, como Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro”, afirmou, na época, o delegado titular da Delegacia de Armas, Munições e Explosivos (Dame), Diego Yamashita, que acrescenta que geralmente esse armamento chega acompanhado de um carregamento de drogas. 
 O superintendente da Polícia Rodoviária Federal no Espírito Santo, Wylis Lyra, confirmou, na ocasião, que as armas chegam pelas rodovias. Inclusive, há registro de batedores (motoristas que se posicionam na frente do veículo transportador das armas, para verificar a presença da polícia), que orientam o condutor a tomar o caminho menos vulnerável. Os objetos de maior valor geralmente são transportados em carros roubados e com placas clonadas. No entanto, a polícia não tem conhecimento se as armas são divididas em diversos carros como acontece com o tráfico de drogas. 
“Bandidos buscam rodovias com menor fiscalização. Já conseguimos fazer apreensões em todas as rodovias federais, como as BRs 101, 262 e 259, mas a presença maior nas duas primeiras tem gerado migração da atividade criminal para as menores rodovias e para vias estaduais. Algumas das armas apreendidas são porque a pessoa não tinha o porte, mas a maioria delas seriam destinadas a esse mercado ilegal, muitas de uso restrito”, apontou, na época.  
Em janeiro deste ano o Ministério Público Federal (MPF) no Espírito Santo obteve a condenação de dois irmãos pelo crime de tráfico internacional de armas. Luciano Junio Ferraz de Souza, de 33 anos, e Danilo Ferraz Levino, 37, atuaram em parceria com outros dois homens que já foram condenados pela Justiça pelo mesmo esquema. 
 O episódio que levou à condenação dos irmãos foi o envio do Paraguai para o Espírito Santo de oito pistolas ponto 380 da marca CZ, sete pistolas ponto 40 da marca Glock, além de munições e carregadores. O material foi apreendido em 28 de fevereiro do ano passado. 
 MERCADO LEGAL 
 As armas encontradas no mercado paralelo têm diversas características: sem registro, algumas têm numeração raspada e outras vieram da legalidade, ou seja, em algum momento esse arsenal foi comprado legalmente em lojas e depois desviado para o mercado ilegal por falta de controle e fiscalização. 
 Somente em 2017, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostrou que das armas apreendidas pela Secretaria de Segurança Pública (Sesp), 200 foram furtadas, roubadas, extraviadas ou perdidas e pararam na ilegalidade. Segundo o anuário foram 3.341 armas apreendidas naquele ano enquanto a Sesp trabalha com 3.113 apreensões. 
 Segundo o coordenador de projetos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, David Marques, a arma é um artigo valioso no mercado paralelo e, por isso, está sujeita a ser roubada ou furtada. “Os proprietários devem adotar cuidados maiores. Além disso, se não houver um sistema de controle bem montado, a possibilidade de existir desvios dos agente do próprio Estado ou do cidadão é muito grande”, disse. 
 O gerente de sistemas de Justiça e Segurança Pública do Instituto Sou da Paz, Bruno Langeani, acrescenta que a flexibilização da posse de arma de fogo realizada pelo presidente Jair Bolsonaro, em janeiro deste ano, aumentará a circulação de armas no país e, consequentemente, aumentará a oferta para os criminosos, que as adquirem pelo mercado ilegal – já que não podem registrá-las caso tenham antecedentes criminais. 
 “Pesquisas realizadas pelo Instituto apontam que a maior parte das armas de fogo utilizadas em ocorrências criminosas são de fabricação nacional, de menor poder de fogo e calibres permitidos e em algum momento foram comercializadas de forma legítima a cidadãos autorizados. No entanto, tiveram a arma desviada, passando ao mercado ilegal”, concluiu. 
PESQUISA 
Crédito: Gazeta Online
Das 4.190 armas apreendidas no Espírito Santo em 2014, 56% foram fabricadas no Brasil, estando presentes as marcas Taurus, CBC, Imbel, INA e Boito. A pesquisa do Sou da Paz também indicou que os Estados Unidos é o segundo país de origem das armas apreendidas, com 3,4%, seguido pela Itália com 0,5% e 2% foram de outras nacionalidade. No entanto, em 31% não foi informada a marca.
Ele explica que o revólver em 2014 era a arma mais apreendida e continua em 2018 porque por várias décadas foi o tipo de arma mais vendida do comércio brasileiro, usada pela polícia, segurança privada e famílias que queriam garantir a própria segurança. “São armas que não há muita procura no mercado legal, mas há estoque dela no Estado e como está mais disponível, passou a ir para o mercado ilegal através de furtos e roubos, por exemplo”, comenta Bruno Langeani.

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