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Vitor Jubini
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Após crimes, sonhos: a vida das detentas em penitenciária no ES

A reportagem de A Gazeta passou um dia na penitenciária feminina ouvindo histórias das detentas. Elas falam sobre o arrependimento, o sofrimento, a saudade dos familiares e, principalmente, sobre os sonhos - agora aprisionados - que querem realizar na vida além das grades

Iara Diniz

Repórter

Publicado em 24 de Dezembro de 2019 às 13:43

Publicado em

24 dez 2019 às 13:43
Em novembro deste ano, 1.159 mulheres estavam presas no Centro Prisional Feminino de Cariacica Crédito: Vitor Jubini
"Todo dia eu olho para o céu e penso: será que é hoje que eu saio daqui?"
Cassiely Aparecida Camilo - Presa por tráfico de drogas
A pergunta se repete há um ano e cinco meses na cabeça de Cassiely Camilo, 25 anos, desde quando a vendedora ambulante, com oito meses de gestação, entrou no Centro Prisional Feminino de Cariacica, na Região Metropolitana de Vitória, Espírito Santo. Ela é uma das 1.159 mulheres presas no Estado, de acordo com dados divulgados pela Secretaria da Justiça (Sejus).
A reportagem de A Gazeta passou um dia na penitenciária feminina ouvindo histórias das detentas. Além de Cassiely Camilo, Marjorye do Nascimento, Marcela Rodrigues da Silva e Ramone Souza Lima falam sobre o arrependimento, o sofrimento, a saudade dos familiares e, principalmente, sobre os sonhos — agora aprisionados —  que querem realizar na vida além das grades.
Cassiely Camilo foi presa em julho de 2018 por tráfico de drogas. O marido já tinha sido pego pela polícia dois meses antes, pelo mesmo crime.  "Eu tinha acabado de fazer o chá de fraldas do meu filho, o quarto estava pronto. Eu sabia que tinha um mandado de prisão contra mim e que, em algum momento, eu seria presa, mas não imaginava que na fase mais feliz da minha vida, na minha gravidez, isso fosse acontecer", relembrou.
Foi no presídio que Cassiely virou mãe e passou com o filho o primeiro ano da vida dele. Há aproximadamente quatro meses, o menino foi entregue para a família dela. Desde então, são os familiares de Cassiely que cuidam da criança até que ela seja solta. Esse dia, porém, é um mistério na vida da jovem, que ainda aguarda ser julgada pela Justiça.
"Não sei quantos anos vou pegar, mas tenho fé que não fico por muito tempo. Enquanto isso, vou aproveitar para concluir meus estudos aqui dentro e trabalhar. Quando sair, sonho em montar meu restaurante e dar um futuro para o meu filho", disse.
Presa há um ano e cinco meses, Cassiely Camilo trabalha na cozinha do administrativo da Penitenciária de Cariacica Crédito: Vitor Jubini | A Gazeta
Enquanto Cassiely aguarda o julgamento, Ramone Lima, 28 anos,  já tem uma sentença: 12 anos de prisão, dos quais ela já cumpriu três anos e sete meses. A cabeleireira também foi presa por tráfico de drogas. Este, inclusive, é o crime que mais levou mulheres para atrás das grades no Espírito Santo. Das 1.159 detentas, 567 — quase a metade — cumprem pena por envolvimento no tráfico de entorpecentes.
"Eu me envolvi com um homem que era traficante. Eu não traficava, mas usufruía, gostava do que ele me dava com o dinheiro que vinha do tráfico"
Ramone Lima - Presa por tráfico de drogas
Ramone foi presa em 2011, quando a polícia deteve também o companheiro dela. Depois de um mês, a cabeleireira foi solta, mas voltou ao presídio seis anos depois devido a um mandado de prisão. "Eu já estava com a minha vida estabilizada, tinha minhas filhas, meu salão. Era casada com outra pessoa. Eu não esperava ser presa de novo. Para mim, aquilo tinha ficado no passado", contou.
Ramone foi condenada a 12 anos de prisão por tráfico de drogas. Destes, ela já cumpriu 3 anos e sete meses Crédito: Vitor Jubini | A Gazeta
Enquanto Ramone cumpre pena, atrás das grades, não vê as três filhas crescendo. Para tentar recuperar o tempo perdido, elas se encontram durante as visitas no presídio, que são feitas de 15 em 15 dias. Esta é a única forma de contato que a cabeleireira tem com a família, já que, enquanto cumpre regime fechado, não tem direito a saídas temporárias.
Pela lei, somente detentos do regime semiaberto têm direito às famosas "saidinhas", que são concedidas pela Justiça no período de Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das Crianças e Natal/Ano Novo.
"Já é o quarto Natal que eu vou passar longe das minhas filhas. Hoje, eu me arrependo muito e vejo que nem tudo é dinheiro. Não tem nada pior do que querer estar com a família e não poder nem dar um abraço. O dinheiro não compra liberdade"
Ramone Lima - Condenada a 12 anos de prisão por tráfico de drogas
Foi o dinheiro também que atraiu Marjorye do Nascimento, 24 anos, para o crime. Em 2015, ela foi presa por tráfico de drogas pela primeira vez. Cumpriu pena por quase dois anos e foi solta. Mas em 2018 ela voltou ao presídio pelo mesmo crime. "Eu até tentei levar uma vida normal, honesta, mas o tráfico chama a gente, é muito dinheiro. É difícil se adaptar com pouco quando você leva uma vida na ostentação", desabafou.
Marjorye do Nascimento cumpre pena pela segunda vez no presídio. Quando sair, ela quer montar um espaço de estética Crédito: Vitor Jubini | A Gazeta
Para fazer parte do crime, Marjorye largou tudo: estudos, família, trabalho. Na cadeia, porém, ela  teve a chance de voltar a estudar e fazer cursos profissionalizantes. E foi preciso perder familiares para o tráfico de drogas para que Marjorye repensasse, de verdade, a vida que queria ter. 
"Tem uma semana que eu perdi minha tia. Mataram ela. Pra pra mim já chega. Muita gente não acredita que eu mudei, mas eu sei da minha capacidade. Quero sair daqui, montar um negócio e seguir em frente. Essa vida do crime não presta"
Marjorye do Nascimento - Cumpre pena por tráfico de drogas
Sentada na poltrona, em uma sala repleta de cores, no alojamento materno da Penitenciária de Cariacica, Marcela Rodrigues da Silva, 27 anos, amamenta a filha de quatro meses. Isabelle não é a única filha da jovem, mas é a primeira de uma gestação que se deu dentro do presídio. 
"Eu jamais me imaginava grávida aqui dentro. Tanto que, quando a polícia me pegou, eu fiquei desesperada! Tinha muito medo do que poderia acontecer. Hoje, eu sei o que é ter um filho fora da cadeia e o que é ter um aqui dentro"
Marcela da Silva - Presa por tráfico de drogas
Marcela foi presa em 2013 por tráfico de drogas. Porém, em 2018, quando já cumpria pena em regime semiaberto, ela saiu da prisão para trabalhar e não voltou mais. "Fiquei sabendo que meu filho estava internado, com uma doença grave, hanseníase. Entrei em desespero e fugi para ficar com ele. Hoje eu me arrependo porque acabei regredindo a pena", contou.
Marcela Rodrigues da Silva foi presa quando estava com um mês de gravidez. Ela se dedica a cuidar da filha dentro da penitenciária  Crédito: Vitor Jubini | A Gazeta
No período que ficou foragida, Marcela engravidou. Um mês depois, ela foi capturada e passou todo o período de gestação dentro da penitenciária. Hoje, quatro meses depois do nascimento de Isabelle, a vida de Marcela no presídio se resume a cuidar da criança, que deve ser entregue à família. Apesar de não gostar de pensar no futuro, ela planeja uma vida bem diferente ao lado dos dois filhos.
"Disseram para mim que a vida que eu levava não valia a pena, mas eu não ouvi, achava que não ia ser presa. Me arrependo muito de tudo isso. Cadeia não é bom, mas é também lugar de ressocialização. Eu aprendi muito aqui. E a vida que eu tinha, não quero para mim mais. Penso em sair,  fazer uma faculdade de enfermagem e cuidar dos meus filhos. Não quero que eles façam o que eu fiz  porque não vale a pena", finalizou.

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