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Jurema produz artesanato a partir da fibra da bananeira
Jurema produz artesanato a partir da fibra da bananeira. Crédito: Rafael Zambe

Jurema Gonçalves: uma mulher de fibra no Norte do ES

Artesã é liderança comunitária e inspiração de um grupo de mulheres que faz da fibra da banana, dignidade e símbolo de empoderamento feminino em comunidade quilombola de Conceição da Barra

Publicado em 19/04/2020 às 18h49

Com dedos ágeis, em movimentos quase que sincronizados, as quilombolas vão trançando a fibra de banana enquanto entoam cantigas ao redor de uma mangueira enorme e centenária. O trabalho vira um ritual. Elas nem percebem de tão natural que é, mas presenciar essa cena é como revisitar a ancestralidade dessas mulheres de fibra.

As mãos, já tão calejadas pela vida, vão dando forma a cestas, porta-retratos, bolsas e inúmeros acessórios em busca de renda. “Comida é sagrada. E aqui essa comida, além de ser sustento, é criatividade, é economia, é o que nos mantém juntas”, compartilha Jurema da Conceição Gonçalves, liderança ativa na comunidade quilombola Negro Rugério, em Santana, Conceição da Barra, no Norte do Estado.

Jurema é comedida, cautelosa nas palavras, nos movimentos, tem um olhar responsável sobre a vida e sobre quem a cerca. Já trabalhou como professora, vendedora e catadora de mariscos. “Já fiz de tudo nessa vida”, brinca.

Liderança comunitária, Jurema é artesã e tem 60 anos
Liderança comunitária, Jurema é artesã e tem 60 anos. Crédito: Rafael Zambe

Hoje, é artesã e coordenadora do projeto Mulheres de Fibra. Tem 60 anos, dois filhos criados, três netas por perto, mas sua família é todo um quilombo. Um não, vários. Quilombo do Linharinho, do Córrego Grande, de Itaúnas, Roda D’água, Coxi… São quilombos que lutam pelo reconhecimento, e uma guerreira fundamental nesse processo é ela, Jurema.

Artesanato produzido com fibra de bananeira
Artesanato produzido com fibra de bananeira. Crédito: Rafael Zambe

“Hoje, o que faz meu coração bater mais forte é quando eu vejo os alimentos chegando dos quilombos para montar as cestas que enviamos para as 115 famílias cadastradas de 15 em 15 dias. São famílias que precisam muito, então isso é o coletivo pelo bem comum. Isso me traz paz”, compartilha Jurema, já esclarecendo sua forte relação com os alimentos.

ALIMENTO QUE UNE

Negro Rugério, que dá nome ao quilombo onde Jurema nasceu, foi um grande produtor de farinha. “Ele vendia principalmente para Rita Cunha, uma mulher nobre da região, que comprava a farinha para dar proteção ao quilombo. Ele construiu a casa de raspa, que existe até hoje. O lugar era pra juntar vários negros que raspavam mandioca. Ele usava a comida pra manter o povo negro junto“, explica.

Filha de agricultor, Jurema sempre teve o pé e as mãos no chão. “A minha infância foi muito livre, bem de roça mesmo. Eu brinquei muito na terra, mas também ajudava muito meu pai panhando lenha, puxando o cavalo, o jegue, colhendo...”, conta. “Sempre ouvi o meu pai dizer que quando se tem banana e mandioca, se tem tudo e não se passa fome.”

MULHERES DE FIBRA

A lembrança de seu pai foi decisiva no projeto que mudou sua vida. Mulheres de Fibra surgiu da necessidade de recuperar o Córrego da Angélica que abastecia o quilombo, já que as nascentes ficavam dentro de plantações de eucalipto de propriedades vizinhas.

“Lembrei que meu pai não cortava o tronco das bananeiras. Ele dizia que isso mantinha a água no solo. Então sugeri que plantássemos banana pra recuperar o córrego.”

Jurema (segunda à esq.) entre as integrantes do projeto Mulheres de Fibra
Jurema (segunda à esq.) entre as integrantes do projeto Mulheres de Fibra. Crédito: Rafael Zambe

A partir de então, iniciou-se um ciclo de trabalho com a banana. Quase todos têm bananas em seus quintais. Inicialmente, houve o grupo BAFAMEL Viveiro (banana, farinha e mel), mulheres que faziam doces e diversos pratos com o fruto. Mas Jurema foi além e percebeu a fibra de bananeira como matéria-prima para artesanato, com uma capacitação inspirada nos princípios da economia criativa e solidária.

O projeto se oficializou em 2019, sendo contemplado no Edital de Culturas Populares e Tradicionais Quilombolas pela Secretaria de Cultura do Estado. Hoje, ele reúne 11 mulheres que utilizam a fibra da bananeira para produzir artesanato, itens de decoração e acessórios como reaproveitamento e renda extra.

Artesanato produzido com fibra de bananeira
Artesanato produzido com fibra de bananeira. Crédito: Rafael Zambe

“O meu coração e a minha alma estão neste grupo”, declara. São mulheres que vão dando forma a um novo significado para a banana e para elas mesmas."

* Reportagem escrita antes das medidas de distanciamento social para conter o avanço do contágio do coronavírus.

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