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Réia Sílvia Gonçalves Pereira
"O ungido vai ser ouvido pelo traficante e pelo funkeiro"
Jornalista e pesquisadora estuda a figura dos líderes das pequenas igrejas no cotidiano das periferias do Estado e identificou o surgimento de uma nova força: os ungidos

Vilmara Fernandes

Repórter

Publicado em 12 de Janeiro de 2020 às 13:13

Publicado em

12 jan 2020 às 13:13

O que te levou a pesquisar as camadas populares, as periferias?

Quando fui trabalhar em um projeto na Serra, comecei a perceber as meninas do funk, que andavam sempre juntas ou em dupla. Despertou a minha curiosidade o que elas falavam, a forma de se comportarem, de se vestirem e, foi com este projeto, que entrei para o mestrado da Ufes, em Ciências Sociais, em 2013. Naquele momento meu objetivo era pesquisar as meninas do funk e o que motivava tantas mulheres a gostarem de um ritmo que, a princípio, era machista, misógino. Os relatos de algumas funkeiras acabaram me surpreendendo, uma vez que elas transitavam entre o funk e igrejas pentecostais. Como? Decidi lançar mão de uma forma de trabalho na Antropologia, a chamada Etnografia, em que você tem que se inserir no contexto para realizar a pesquisa, e fui morar no bairro São Pedro, em Vitória. Foi uma experiência enriquecedora onde percebi que duas manifestações que achava serem antagônicas, opostas, estavam em constante diálogo.

Quais manifestações?

O funk e as igrejas pentecostais. No início pensei que encontraria nas periferias as grandes igrejas evangélicas, mas foi justamente o contrário. Eram pequenas igrejas, com poucos integrantes, com cultos ruidosos, com manifestações que eles nem gostam de falar, como o reteté (também denominado sapatinho de fogo, canela de fogo). Quando cheguei em São Pedro havia centenas destas pequenas igrejinhas. Fui entendendo que tinha algo mais complexo acontecendo nas periferias, com jovens que conseguiam fazer uma transição, uma negociação, entre funk e pentecostalismo.

Como?

A conclusão que cheguei é que eles negociam com o prazer e a fruição relacionada à juventude, com a possibilidade do sagrado, oferecida por essas igrejinhas. São jovens que vivem na fronteira entre dois domínios e que sabem os códigos dos dois lados. São espertos e os manejam muito inteligentemente, frequentando os dois espaços ao mesmo tempo, até se batizarem, o momento da escolha. Quando isso ocorre, passam a ser da igreja. É o ritual que delimita que aquela pessoa não fica mais no meio-termo. E eles adiam ao máximo o batismo. Vão vivendo às duas situações enquanto podem. O funk acaba ligado à juventude e os valores pentecostais à vida adulta, embora tenham muitos jovens no pentecostalismo. Por outro lado, o fato de se batizar não quer dizer que vão ficar na igreja para sempre. Tem um movimento de saída e entrada muito grande. Tem uma frase célebre de uma funkeira ao explicar o que é juventude: “Para mim, juventude é curtição. O problema é se Jesus voltar, aí estou fodida”. Convivem com o medo de Jesus voltar até durante o baile.

O sentimento de culpa cristã.

Sim. O medo do inferno é estimuladíssimo nessas igrejas. Nos permite entender a extensão da negociação realizada por esses jovens entre duas forças grandes. De um lado, o sentido para eles de juventude, de prazer, de aproveitar o momento, do outro o medo do inferno que é dito a todo momento, que se não se arrependerem, vão para lá. São jovens que negociam a todo momento. É corajoso. No doutorado, continuo a pesquisa com as pequenas igrejas e vendo como elas se relacionam com outras instâncias: o funk e o narcotráfico. O que identifiquei é uma relação entre as três instâncias, mas que não pode ser vista como uma relação maniqueísta.

Como são essas pequenas igrejas?

São lideradas e formadas por pessoas muito pobres, que não vivem da religião. São diaristas, trabalhadores domésticos, porteiros, empregos considerados menores. Não existe a figura do pastor rico. É ainda um ambiente em que as mulheres compartilham suas dores, onde é permitido se falar sobre elas, a partir dos rituais, das orações. No pentecostalismo as mulheres são guardiãs da família. São elas que dizem: “Minha família só esta de pé porque oro no chão.” “Vou tirar meu filho das drogas, ele vai sair deste mundo.” E se pensarmos que somos um Estado que mais mata jovens negros e pobres, são as mães desses jovens que vão sofrer pelo ex-bandido, encontrar humanidade e chorar por ele, sofrer o luto pela perda do filho. Sentimentos, muitas vezes, vivenciados dentro da igreja, com outras irmãs que conhecem a mesma dor.

Por que tantas igrejas nas periferias?

É a pergunta que tento responder. Uma das questões que estou avaliando são as relações de proximidade e solidariedade dentro das igrejas. Existem, se ajudam, se conhecem, mas também há o conflito, a disputa de poder. O Espírito Santo (vindo de Deus) é uma forma de legitimação do poder muito grande. Um pastor que não for reconhecido como ungido, um vaso trabalhado pelo Espírito Santo, vai ter menos legitimidade do que uma obreira que é reconhecida por seus pares como uma profeta, como ungida. Um motivo suficiente para tensionar as relações de poder em uma igreja. Há ainda as relações de gênero: o pastor é homem, a obreira é mulher. Racham e montam uma nova igreja. Esta é uma das minhas teses, que aponta que existem relações de solidariedade, mas também relações conflituosas e de poder.

São espaços com um mínimo de fiéis?

Começam em garagens, sempre muito arrumadas, com um instrumento que, às vezes, é o único, o pandeiro. A música tem um papel muito importante no ritual e vai estar em todas as igrejas. Algumas têm violão, guitarra, bateria. É preciso fazer barulho. O êxtase é causado pelo barulho, ele é necessário para o estado do êxtase, assim como as orações altas. Neste mundo difícil, gritar é uma possibilidade forte. O grito tem a sua vez no ritual. Gritam para Deus e para eles. “Senhor, tá difícil”, desabafam. Não é desespero, mas há lugar para gritar quando dói, machuca. Entre eles existe a palavra refrigério, que buscam em todo ritual, uma sensação de alívio para o sofrimento.

Os pastores possuem formação?

Alguns, ligados às igrejas maiores que dão alguma formação teológica, outros não possuem. Um valor importante para eles é a capacidade de entendimento da Bíblia. Não estou dizendo que o valor racional dos estudos não seja importante, nas periferias um outro valor tem peso maior, que é a capacidade de entendimento da Bíblia, de conseguir conversar com Deus, a sua unção com o Espírito Santo. Outro ponto é que eles têm uma ideia de que estão no mundo, mas não são do mundo. O detalhe é que eles precisam do mundo, até para mostrar sua barreira, do que é ou não mundo. Então constantemente vão às bocas fazer correntes de oração para as prostitutas da comunidade, oram para os doente. Então, existe uma dinâmica, uma política destes ungidos sendo realizada.

Que tipo de política?

São igrejas que possibilitam um alívio para a privação, sofrimento, o que é uma forma de exercício de poder dos que estão mais abaixo da hierarquia social. Elas conseguiram um idioma próprio, uma gramática própria para a periferia, e de uma forma que a mim parece mais associada a vida das periferias do que a das igrejas tradicionais. Dialogam melhor com os dramas, com a realidade deles. Não quero romantizar os problemas, mas estão muito mais próximas. Fazem campanha de oração para conseguir emprego, para sair da prostituição, sair da vida, do funk, para pagar as contas do mês, para o marido voltar e deixar a cachaça, para o filho sair da cadeia ou do tráfico, para ungir a carteira dos desempregados. Tudo é orado diariamente, os rituais falam disto. Em um ritual de exaltação ao Espírito Santo (o reteté, o canelinha de fogo), usam muito o “Corinho de fogo”, música para batalha espiritual. A vida é uma batalha que eles vivem e estão lá adquirindo mecanismos de luta, porque é com Deus, por meio do Espírito Santo, que fala com eles.

Um trabalho dos ungidos.

Sim, é o poder dos ungidos, aqueles que têm contato com o Espírito Santo (vindo de Deus), e que assim é reconhecido pela comunidade. E não são somente os líderes das pequenas igrejas, pode ser uma profeta ou um obreiro que vai ter a atuação reconhecida na comunidade. É o surgimento de uma nova instância de poder, detentora de um poder do Espírito Santo, mediando as relações. Quem tem o domínio da gramática pentecostal tem mais um artefato nas relações cotidianas. O cara que é ungido, de fato, vai ser ouvido pelo funkeiro e pelo traficante. São respeitados. Os traficantes mandam, se sobrepõem porque têm armas, mas as igrejas negociam a partir da unção, da seriedade, do respeito adquirido, não para obter bens, mas para garantir o poder da sobrevivência cotidiana, e serem respeitados pela comunidade. Por crerem e praticarem, legitimam a possibilidade de negociação. Os traficantes morrem de medo.

Temem os ungidos?

Sim. Afinal, quem vai dar a eles o livramento? Eles contam as situações em que conseguirem se livrar de uma situação difícil. Muitos também cresceram naquele meio, os pais são evangélicos, pedem “a paz de Cristo”. E como querem o livramento, precisam negociar. Uma vez, chegando a uma favela do Rio de Janeiro onde estava realizando a pesquisa, fui parada numa barricada. Eles queriam saber para onde estava indo. Como explicar que era da universidade? Tinha nas mãos um caderno e uma Bíblia e disse que estava indo a uma igreja. Um deles falou: “Ela é bíblia, deixa passar”. Então, por ser bíblia podia passar, mas como pesquisadora não. Para eles, o poder do conhecimento poderia ser até o contrário, me transformar em uma dedo-duro, mas a igreja eles respeitam.

Há problemas?

Um deles é um exclusivismo absurdo, de que só a minha igreja vai salvar, além de um preconceito até bélico contra as religiões afros. E é curioso porque são comunidades prioritariamente negras.

E a relação com o tráfico?

Ela acontece, até porque os pastores conhecem os traficantes, convidam para uma mudança de vida, muitos se convertem, mas depois retomam as atividades antigas. Os próprios traficantes consideram sua vida transitória - ou vão preso ou morrem -, e a igreja dá a possibilidade de uma vida mais perene, e com isto existem as conversões até sinceras. Muitos jurados de morte estão nesta situação e até escapam da morte. Tem todo um jogo de perceber a sinceridade do cara. Às vezes nem a igreja salva, em outras percebem que mudou, e teve o livramento. Quanto ao financiamento das igrejas, o que percebi é uma relação de favores. Uma pastora relatou que não pede favores para não ficar devendo, mas, para fazer qualquer coisa na favela é preciso pedir autorização do tráfico. Então, mesmo que não ela aceite nada deles, e de fato não aceita regalias e favores, precisa conversar para realizar um show na praça. Então, a relação é mais de negociação cotidiana do que de ganhos e lucros.

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