“É triste ter que viver de ajuda dos outros”. O desabafo é da pescadora Jocélia de Sena Clarim do Rosário, 43 anos, que aprendeu a pescar ainda na infância, mas foi aos 13 anos que conseguiu o registro profissional. Ela mora em Barra Nova, em São Mateus, Norte do Estado, e teve a atividade interrompida após a barragem de rejeitos de minério, em Mariana (MG) atingir o Rio Doce, em novembro de 2015.
O sofrimento pela perda da atividade econômica e social para ela foi inevitável. No entanto, o que mais a tem feito perder noites de sono é a falta de dinheiro para manter a família. Após três anos do rompimento da barragem, ainda precisa lutar para receber o auxílio financeiro e a indenização da Fundação Renova, responsável por gerir os programas de reparação dos impactadas do rompimento da barragem.
“Todas as vezes que eu ligo, a resposta é sempre a mesma: o cadastro está sob análise. Isso porque ele foi feito há mais de dois anos. Eu tinha um carro e precisei vender para sobreviver, precisei interromper o tratamento de garganta do meu filho. Meu marido e eu conseguíamos sustentar a família antes da tragédia”, disse.
Enquanto isso, sem o benefício, a pescadora, o marido Rogério Pessanha do Rosário, 40, que também é pescador e tenta o auxílio, os três filhos e uma neta vivem em condições precárias e sobrevivem com a ajuda do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) de São Mateus, além do Bolsa-Família de R$ 130 ao mês.
O desabafo de Jocélia veio à tona após a Polícia Federal investigar esquema que beneficiou cerca de 100 pessoas que se passaram por pescadores para receber indenizações que somam R$ 7 milhões. “A vila tem conhecimento de pessoas que recebem indenização e auxílio ao se passarem por pescadores. Enquanto isso, nós que realmente exercemos a atividade estamos passando necessidade”, desabafa.
A pescadora Ludimar da Silva Ferreira, 45, também relata que não recebeu a indenização e o auxílio da Renova. Ela disse que a aposentadoria do marido é que tem socorrido a família.
“Se não fosse a aposentadoria do meu marido, a gente estaria pedindo ajuda. O salário dá para comprar remédio e comida. No entanto, estou com dívidas porque fiz um empréstimo de R$ 15 mil para tentar manter as despesas. É muito triste eu ter de lutar por um direito”, disse a pescadora, que mora em Barra Nova Norte, em São Mateus.
Mas não é apenas em São Mateus que o problema tem ocorrido. Os relatos de pessoas que ainda não receberam indenização ou auxílio é constante em diversos município atingidos pela lama. A presidente da Associação de Pescadores Nova Vida de Colatina, Andressa Karla Sacht, disse que muitos pescadores têm passado necessidade.
Ela acrescenta que o Rio Doce faz parte da vida social e econômica das tradicionais vilas de pescadores. Nesses locais, a falta da atividade trouxe impacto na saúde mental das pessoas. Algumas refugiaram-se na bebida e acabaram se tornando alcoólatras, outras entraram em depressão. Alguns decidiram buscar outra profissão.
“Muitos apontam o pescador como preguiçoso, mas a pesca é o que sabemos fazer e muitos não conseguem realizar outra atividade”, lamenta.
RENOVA ENVIA DENÚNCIAS PARA ÓRGÃOS RESPONSÁVEIS
Apontada pela Polícia Federal como uma das principais prejudicadas pelas possíveis fraudes, a Fundação Renova afirma que apoia as investigações e se coloca à disposição para esclarecimentos. A organização informou que as denúncias de fraudes ou atos ilícitos recebidas pela Ouvidoria da Fundação Renova são analisadas e devidamente encaminhadas aos órgãos competentes para adoção das medidas cabíveis.
Em relação as indenizações, a Renova informou que as pessoas que fizeram o cadastro e foram ou venham a ser consideradas diretamente atingidas terão seus processos analisados e, se forem elegíveis aos Programas de Indenização Mediada (PIM) ou Auxílio Financeiro Emergencial (AFE), serão chamadas para atendimento, à medida que as políticas de indenização para cada grupo de atingidos forem sendo definidas.
“A maior dificuldade enfrentada em relação às indenizações é a informalidade encontrada no território impactado, já que parte dos atingidos não possui comprovação dos danos que declara ter sofrido, especialmente em relação às suas atividades econômicas. Como solução, a Fundação Renova busca construir, coletivamente, com atingidos e técnicos especialistas em cada área, as políticas indenizatórias”, disse em nota.
A instituição acrescentou que, até o momento, foram pagos R$ 1,4 bilhão em indenizações e auxílios financeiros emergenciais. No Espírito Santo, foram desembolsados R$ 543 milhões entre indenizações e auxílios financeiros.