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Trio As Bahias e a Cozinha Mineira lança terceiro disco, "Tarântula"

Trabalho tem tom de crítica social com base na vivência dos integrantes

Publicado em 03/06/2019 às 17h16

Em fevereiro de 1987, a Polícia Civil de São Paulo deflagrou, por conta própria, uma operação que legalizou a prisão arbitrária de travestis na capital paulista. Denominada operação Tarântula, a ação perseguiu cerca de 300 travestis e mulheres trans sob a justificativa problemática de "combater a Aids". Menos de um mês depois, graças à atuação de grupos de defesa dos direitos LGBT, a iniciativa descabida foi suspensa.

O mesmo nome da operação foi o escolhido para batizar o álbum recém-lançado pelo grupo As Bahias e a Cozinha Mineira, que aposta na MPB com uma pegada mais moderna, com toques de balada e vozes bem equilibradas. Terceiro trabalho de estúdio do grupo, "Tarântula" reúne dez canções compostas pelo trio e organizadas primeiramente sem grandes pretensões além de um EP.

"Já tínhamos a ideia de fazer algo com canções mais políticas, como 'Mátria', 'Pipoco e Pipoca' e 'Fuça de Um Fuzil'. Mas aí a gravadora pediu que fosse um disco. Não colocaram o dedo na escolha das canções, aí quisemos diversificar o ponto de vista temático e pensamos no que seria a tarântula pelo ponto de vista político, aproveitando o gancho deste fato ocorrido na década de 1980", explica Assucena Assucena, uma das caras do trio.

Com as pesquisas e o trabalho aprofundado na produção do disco, Assucena Assucena, Raquel Virginia (ambas mulheres trans) e Rafael Acerbi perceberam que a simbologia que ronda o aracnídeo dava pano para manga. A partir daí, o grupo abandonou a retórica e criou um disco livre que trata sobre afeto e cotidiano.

"Acho que soubemos expressar da melhor forma o que quisemos, que era pintar esse quadro do Brasil do nosso cotidiano. Escolhemos as paisagens, as cores, o abstrato, as metáforas. Lançamos mão da canção como crônica e tivemos essa liberdade", explica Rafael, também por entrevista por telefone à equipe do Gazeta Online.

As faixas, aliás, abusam muito bem das figuras de linguagem. Em "Carne dos Meus Versos", o ouvinte é convidado a uma reflexão sobre solidão em abandono, apesar de também ser exposto a uma calma digna de um respiro. Já em "Volta", em que Rafael estreia como compositor, é possível perceber um discurso sobre o desgaste natural de um amor. 

"Shazam Shazam Boom" (que tem um pé na música pop) e "Pipoco e Pipoca" têm forte crítica social. A segunda, por exemplo, aborda o armamento e a supermidiatização da vida em geral. 

"O disco tem significado a partir de tudo, mas define bem cada área. A arte sempre foi vanguarda, tá cumprindo seu papel dela na história, contesta, vem de forma natural. Vivemos um período perigoso em que o artista é colocado como inimigo da nação e queremos mostrar o contrário: artista é lâmpada, luz, pirilampo. Acredito muito nisso", conclui Assucena.

 

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