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Séries

Crítica: série 'The Boys" é violenta, gore e divertida

Série da Amazon adapta HQ de Garth Ennis e traz um universo em que heróis são corruptos, imorais e tratados como deuses

Publicado em 22 de Julho de 2019 às 22:49

Rafael Braz

Publicado em 

22 jul 2019 às 22:49
Série 'The Boys' Crédito: Amazon Prime Video
O escritor Garth Ennis é uma figura estranha. Responsável pela melhor fase de títulos como “O Justiceiro” e “Juiz Dredd”, ele ganhou respeito por seu trabalho ao lado de Steve Dillon em “Preacher”, uma das séries mais legais dos quadrinhos dos últimos 30 anos. A tal “estranheza” do autor se dá por um fato incomum no mercado em que ele atua: ele odeia super-heróis e deixa isso bem claro.
The Boys”, série em quadrinhos que Ennis publicou entre 2006 e 2012, é a prova maior disso. Neste universo, os “supers” existem aos montes, com várias equipes de heróis formadas. Além disso, eles são celebridades, estrelam seus próprios filmes e ocupam boa parte das colunas de fofocas com suas vidas pessoais. Em meio a tudo isso, Billy Butcher (que no Brasil virou Açougueiro) monta um grupo de “normais” com um objetivo único de desmascarar os poderosos e descer a porrada neles.
Agora inusitadamente transformado em série pela Amazon, “The Boys” chega ao Prime Video na próxima sexta-feira (26) com oito episódios e uma segunda temporada já garantida.
No mundo de Ennis, Os Sete são a Liga da Justiça – e com seus respectivos pares. A equipe é liderada por Homelander (Antony Starr, de “Banshee”), uma espécie de Super-Homem, e também conta com a Rainha Maeve (Dominique McElligott), The Deep (Chace Crawford), A-Train (Jessie T. Usher), Black Noir (Nathan Mitchell), Translucent (Alex Hassell) e a novata Starlight (Erin Moriarty). É pelos olhos dela, de forma parecida como acontece nos quadrinhos, que conhecemos o universo da Vought, o que seria a Marvel ou a DC no mundo real (com direito a boa zoadas na primeira). Para a empresa, os heróis são produtos que eles capitalizam de todas as formas possíveis.
ESTRUTURA
Em tela, “The Boys” ganha uma estrutura narrativa mais convencional. Enquanto os quadrinhos são surtados desde o início, a série apresenta os personagens com certa calma. Hughie (Jack Quaid, filho de Dennis Quaid e Meg Ryan), por exemplo, é bem mais inocente do que sua contraparte desenhada. Após a trágica morte de sua namorada, ele é abordado por Butcher (Karl Urban) e as coisas vão se desenrolando meio que por acidente – mas logo ambos estão envolvidos com os “supers” até o talo.
A série altera alguns acontecimentos das HQs, mas, em sua essência, é bem parecida com o material original. Alguns novos personagens surgem em tela como uma síntese de outros dos quadrinhos, o que funciona para não confundir o espectador com informações em excesso. A série até menciona outras equipes, mas foca a principal delas e sua relação com os “normais” e dá mais atenção à relação de Hughie e Starlight.
O roteiro também acerta ao conferir uma pegada religiosa aos heróis – eles teriam poderes por serem escolhidos por Deus. Essa escolha possibilita uma subtrama interessante e ajuda a entender toda a corrupção que cerca os poderosos.
Série 'The Boys' Crédito: Amazon Prime Video
“The Boys” é sempre divertida e violenta, às vezes gore ao extremo e, em outros momentos, de embrulhar o estômago. Apesar de ter sido originalmente escrita na década passada (antes até dos heróis dominarem quase tudo na cultura pop), a história conversa bem com os dias de hoje. Há a zoeira com coachs, a ganância corporativa, a inclinação à extrema direita, fake news, desinformação...
A série do Prime Video (casa também da série de TV de “Preacher”, outra já citada criação de Ennis) é exemplo de que algumas alterações são necessárias para que uma mesma história funcione em outra mídia. Ennis escreve para um nicho e prega para os já convertidos; seus personagens são intencionalmente machistas, misóginos, homofóbicos etc. e seu público sabe disso. Para um público mas amplo, isso não funcionaria e, por isso, a série produzida por Seth Rogen e Evan Goldberg ameniza o discurso e prefere contar uma história que o público acompanhe com prazer ao invés de uma que o irrite. O que importa, ao fim, é descer a porrada nos heróis.

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