Semana passada, em mais um episódio fatídico do nosso cotidiano político-social, o presidente Jair Bolsonaro chamou Paulo Freire de energúmeno. O ataque ao pensador brasileiro que alterou o paradigma da forma de educar no mundo todo não é novidade. Paulo Freire e sua educação libertadora foram criados como um dos inimigos por parte da atua gestão federal e do atual modelo de fazer política. Ou de não fazer política, como é o caso da pasta da Educação que, desde o início do ano, está literalmente parada, sem a apresentação de nenhum projeto que não seja a tentativa de impedir que o pensamento crítico seja realizado nas escolas e nas universidades.
Uma das lições que Paulo Freire deixou é a de que “se a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor”. E nesses dois últimos anos, principalmente, a partir da bandeira de “escola sem partido” e a maquiagem usada para criar um “bicho papão” de que professores querem criar crianças maconheiras e gays, o que temos presenciado é que cada vez menos se pretende que essa educação seja libertadora.
Temos visto também a disseminação de discurso de violência e de que todas as demandas sociais são “mimimi”. Em torno desse movimento, fala-se que não existe machismo, racismo, homofobia. E nessa onda de disseminação de violência, há a adesão dos próprios oprimidos, que relativizam o discurso e vendam os olhos para as agressões diárias que eles mesmo sofrem e para os ataques aos quais outras pessoas próximas também são submetidas diariamente, tudo para fazer parte do jogo, do governo, do aparecimento.
Nesse jogo, há ainda o discurso de que são contra cotas, mas são as mesmas pessoas que se valem de figuras para cumprir suas próprias cotas. O governo federal cumpre suas cotas a partir do momento em que tem pessoas como o deputado negro Hélio Negão, a youtuber lésbica Karol Eller, o maquiador gay Agustin Fernandez enquanto aliados e que aparecem em fotos e vídeos abraçando o presidente. Eles são o que chamamos muitas vezes de “chaveirinho”. Essas cotas chancelam as falas infames que ouvimos repetidamente como “não sou homofóbico, até tendo amigos que são gays”.
Não julgo esses “chaveirinhos”, ainda que sirvam como forma de atrapalhar as demandas de vários movimentos sociais. Felizmente, já me percebi vítima de violências diversas e luto pelas minhas causas. Cada um tem seu tempo de se perceber vulnerabilizado. Tomara que o tempo dessas pessoas que aderem ao discurso de opressor chegue logo e elas percebam de são apenas manobra para os opressores continuarem oprimindo. Enquanto isso, seguimos reconhecendo Paulo Freire e lutando por uma educação cada vez mais libertadora.