Algum estabelecimento comercial – um restaurante ou um bar – teria condições de manter as portas abertas se baratas fossem encontradas na sua caixa-d’água? Se os seus banheiros não apresentassem as mínimas condições de uso, sem privacidade e com torneiras desconectadas à rede de esgoto? A resposta é não. O poder público (espera-se!) estaria lá para impedir seu funcionamento, diante de tanto desleixo. E mesmo se insistisse em atuar após esses absurdos serem divulgados, certamente sofreria algum tipo de boicote dos clientes.
O usuário do Sistema Transcol não tem esse poder, por depender de uma concessão pública que pouco faz para lhe dar alguma dignidade. Tanto que, como noticiou Leonel Ximenes em sua coluna, o índice de passageiros por quilômetro (IPK – que registra o total de pagantes transportados a cada quilômetro do ônibus em operação) do Transcol caiu de 1,5914, em 2017, para 0,6287, em 2018, sem que isso tenha diminuído a receita líquida, de um ano para o outro.
Afinal, os reajustes na passagem são religiosamente agendados, bem como o aumento do subsídio, que sai do bolso do contribuinte diretamente para o do empresário. Em janeiro mesmo, além de a passagem ter subido de R$ 3,40 para R$ 3,75, o valor que o governo estadual paga às empresas do Transcol passou de R$ 0,6191 para R$ 1,0694, um recorde de 72,73% de alta. É dinheiro demais para pouco retorno.
Como mostrou um laudo do Crea-ES obtido com exclusividade pela equipe do “Bom Dia ES”, da TV Gazeta, os
, que colocam a vida de quem depende de transporte público diariamente em risco. E os usuários ainda sofrem com a falta de higiene citada no início deste editorial, sem maiores consequências para quem administra o sistema. Um descaso que transforma o ato de se deslocar para atividades essenciais do cotidiano em um suplício, principalmente por se somar à superlotação, aos atrasos, ao desconforto e à insegurança.
Não é só a crise que afasta o passageiro, as condições indignas também são repulsivas. Há uma frase que eventualmente circula nas redes sociais, atribuída ao ex-prefeito de Bogotá Enrique Peñalosa, que merece ser sempre lembrada: “Cidade avançada não é aquela em que os pobres andam de carro, mas aquela em que até os ricos usam o transporte público”. A Grande Vitória, nessas condições, será ainda por muito tempo o reinado do atraso.