Os debates em torno da relação entre educação e mercado de trabalho costumam envolver algumas posturas atravessadas, que mais atrapalham do que ajudam o Brasil a enfrentar problemas históricos. De um lado, há quem tenha uma visão reducionista do ensino como mera formação de mão de obra. Do outro, há aqueles que abominam esse viés utilitarista, o que é saudável, mas chegam ao extremo de achincalhar a existência de cursos profissionalizantes. Erram ambos. E enquanto o país insistir em qualificações tecnicistas ou em uma educação formal completamente descolada da empregabilidade, os prejuízos se acumularão.
A simbiose entre esses dois direitos fundamentais, a educação e o trabalho, não se traduz apenas em desenvolvimento econômico, mas também social. Não à toa são garantias da Constituição Cidadã. As falhas no sistema de ensino brasileiro e a baixa escolaridade da população estão na raiz das desigualdades. Não enfrentar esse problema é colocar areia na engrenagem do país e perpetuar a exclusão histórica de uma grande parcela dos brasileiros, que vivem à margem da cidadania.
Alguns dados de um levantamento robusto sobre a renda bruta dos capixabas feito pela repórter Mikaella Campos para este jornal provam esse entrelaçamento. A partir de dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2017, a reportagem decifrou o perfil das pessoas que atuam no mercado formal e chegou ao cenário de que, das 565 mil pessoas do Espírito Santo que recebem salário menor do que R$ 2 mil, mais da metade, 306 mil, têm ensino médio completo. Proporcionalmente, provou-se o que já se imagina: quanto menor a escolarização, menor a renda.
Se acrescentarmos à equação a dificuldade de acesso a ensino de qualidade e de permanência na escola enfrentada pelos estratos mais pobres da sociedade, temos então o círculo vicioso que sustenta e alarga o abismo social brasileiro.
Esse quadro torna-se cada vez mais preocupante, uma vez que novas tecnologias do setor produtivo, da agricultura às empresas digitais, substituem cada vez mais funções por sistemas informatizados, empurrando os trabalhadores para o desemprego ou o mercado informal, onde a renda é ainda menor. O desemprego estrutural avança mais fortemente em países em que a educação não consegue acompanhar o ritmo do desenvolvimento econômico. E esse descompasso é fatal para a economia, mas principalmente para os cidadãos.
Como é um contrassenso frear as máquinas e os avanços da modernidade, a única saída é investir em qualificação – não apenas profissional, como pensam os utilitaristas. As políticas públicas devem focar em um modelo de educação comprometido com o desenvolvimento do ser humano e com sua instrumentalização para agir com sabedoria sobre o mundo que o cerca, seja no trabalho, seja em qualquer campo da cidadania.