A fraca atuação de Ricardo Vélez Rodríguez no Ministério da Educação (MEC) é algo fora de qualquer contestação, uma inabilidade que não condiz com a notabilidade do cargo. Sua participação na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados nesta semana confirmou o despreparo. É ultrajante que um setor tão crucial esteja sendo tratado com tamanho amadorismo. Em quase cem dias de governo, não há planejamento estratégico, só um evidente desperdício de energia contra as assombrações ideológicas, que se tornaram uma obsessão, quando a educação carece tanto de políticas públicas que assegurem acesso e qualidade. Um desdém pela vida real que faz parecer que somos uma potência do ensino, com índices altíssimos de rendimento.
Assim, a desmoralização de Vélez Rodríguez se concretizou no Planalto na sexta-feira, quando Jair Bolsonaro, ele próprio, nomeou um militar para o cargo de secretário-executivo, a segunda posição na hierarquia da pasta, balançando ainda mais a corda bamba do ministro. Em outras ocasiões, o ministro chegou a ter sua autoridade afrontada.
Há certa ironia na crise do MEC: houve tanta preocupação, por parte do presidente, de se distanciar de indicações partidárias que faltou malícia para antever que nem só políticos inflamam a fogueira das vaidades. O jogo de forças entre discípulos de Olavo de Carvalho, militares e evangélicos pelo controle da pasta é apenas um novo viés da disputa de poder e da ambição política. Nocivo de igual maneira.
O ministério à deriva – com 15 exonerações contabilizadas, cargos estratégicos ainda vagos, mudanças repentinas de ações e total falta de articulação – já afeta os Estados, o Espírito Santo entre eles. Para se ter uma ideia de como a crise no MEC é mais próxima do cidadão do que se imagina, reportagem publicada por este jornal mostrou que as redes municipais de ensino ainda aguardam a contratação de monitores. Faltam livros didáticos. O impasse também está travando a implementação da Nova Base Comum Curricular. Um ministério que nada propõe, mas com mérito se indispõe com o próprio planejamento. E com sua própria sombra.
Brincar com a educação do país, em função de interesses tão pulverizados e irrelevantes, é uma irresponsabilidade com o próprio futuro. A educação brasileira não carece de gurus. O que anda faltando é gerenciamento, a visão que enxergue o que é essencial e descarte o festival de besteiras que não leva o país a lugar nenhum.