O relógio está correndo enquanto a medida provisória da reforma administrativa não é votada pelo Congresso. A falta de trato político do governo Bolsonaro pode ter um custo alto: o retorno à estrutura ministerial da gestão Michel Temer, com 29 pastas, enquanto atualmente há 22. A reconfiguração da Esplanada foi uma das principais bandeiras do atual governo e está em jogo, caso a votação não ocorra até 3 de junho. É a mesma situação da MP que permite a estrangeiros o controle de empresas aéreas no Brasil, que vence amanhã, e de outros textos parados na Câmara e no Senado.
Percebe-se assim como a desorganização da base governista pode causar estragos à própria estrutura de governo. O Executivo tem a atribuição de se relacionar com os parlamentares, com portas abertas para um diálogo permanente que provoque a motivação em torno de medidas importantes para o país. A reforma da Previdência é o maior emblema dessa situação. Não se pede que Bolsonaro ceda à politicagem, mas comece a dar uma chance à política, como se espera de um presidente. Com capacidade para driblar, inclusive, os interesses escusos de certos parlamentares que, sim, existem.
Não é por pouco que o mercado acompanha com tanta apreensão não só o encaminhamento da reforma do sistema previdenciário, como a própria votação desta Medida Provisória 870 que trata da reestruturação ministerial. O governo já teve uma derrota quando a comissão especial do Congresso decidiu transferir o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) do Ministério da Justiça para o da Economia. É o estranhamento entre governo e Congresso que tem mantido uma tensão cada vez mais repulsiva aos olhos dos investidores.
Em menos de 24 horas, Jair Bolsonaro mordeu e assoprou. Ontem, em evento da Firjan, no Rio de Janeiro, afirmou que o grande problema do Brasil é a classe política. Mais tarde, durante o lançamento da segunda fase da campanha publicitária da reforma da Previdência, atenuou o discurso e fez um aceno a deputados e senadores: “Nós valorizamos, sim, o parlamento brasileiro, que vai ser quem vai dar a palavra final nesta questão da Previdência”.
Há também uma falha na própria apresentação das medidas pelo Executivo. Tanto que, em 135 dias de governo, um levantamento do jornal O Estado de S. Paulo aponta que já há 30 contestações no Supremo de medidas provisórias ou decretos elaborados pela equipe de Jair Bolsonaro, principalmente por falta de rigor técnico e jurídico, caso do decreto que ampliou o direito ao porte de armas. Uma equipe de governo que busque a eficácia de suas propostas precisa estar mais atenta a essas minúcias.
Só assim a agenda do presidente fluirá no Congresso: sem imposições, com aproximações estratégicas. Bolsonaro ainda precisa descer do palanque. Com uma boa articulação política, medidas provisórias deixam de dar dor de cabeça e são aprovadas com facilidade e em tempo hábil.