Publicado em 24 de setembro de 2022 às 18:31
As fornadas de panetone para o Natal de 2022 começam a sair este mês em direção aos supermercados de todo o país. O consumidor mais atento vai perceber que, no lugar das tradicionais versões com frutas ou gotas de chocolate de 500g, as prateleiras estão tomadas por panetones de 400g.>
Também há versões do produto em 300g e até panetone em pedaços. Por outro lado, segundo varejistas e fabricantes ouvidos pela reportagem, os preços estão, em média, 20% maiores em relação aos do ano passado.>
De acordo com os fabricantes, o aumento do custo das embalagens e dos insumos, especialmente farinha de trigo, manteiga, chocolate e uva passa, respondem pela alta do preço bem acima da inflação, que foi de 8,7% no acumulado dos últimos 12 meses até agosto, segundo o IPCA.>
O movimento de encolher a versão tradicional do panetone busca justamente fazer o produto caber no apertado orçamento do consumidor. É um formato que começou a ser oferecido há cerca de cinco anos, mas que agora se tornou dominante no varejo.>
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"Dados da consultoria Kantar mostram que, em 2021, tivemos um aumento expressivo de 21% nas vendas em volume, com mais fabricantes diminuindo o tamanho das versões, de 500g para 400g", diz Cláudio Zanão, presidente da Abimapi (Associação Brasileira da Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos Industrializados).>
A oferta de opções menores e mais em conta deve se repetir este ano, segundo Zanão. "O bolso do brasileiro não é elástico. Ele ama panetone, mas muitas vezes não consegue pagar e precisa encontrar versões mais baratas", diz o executivo. Por conta do contexto econômico, porém, a Abimapi prevê alta de apenas 3% em volume no Natal deste ano.>
A marca Casa Suíça, comprada há dois anos pela fabricante de biscoitos Marilan, lançou este ano uma embalagem de 100g com pedaços de panetone (R$ 12,99) e um kit de 135g de pão de mel (R$ 9,99).>
"São opções de presente mais econômicas para o Natal", diz Sérgio Tavares, presidente da Casa Suíça, que espera vender 25% mais neste fim de ano.>
Segundo o consultor da indústria alimentícia Reinaldo Bertagnon, marcas menores, regionais -como Romanato, do interior de São Paulo, Roma e Siena (do Paraná)- foram as primeiras a oferecer o panetone em versões menores, de 400g.>
"Os grandes fabricantes perceberam que estavam perdendo mercado para estas marcas que vendiam o panetone mais barato e procuraram se ajustar", diz ele, que soma 30 anos de experiência na indústria de panificação. "Foi o mesmo movimento observado na indústria de chocolates, que passaram a oferecer tamanhos menores.">
No Norte e Nordeste do país, por exemplo, onde o tíquete médio é menor, a marca Bauducco tem embalagens de 400g. Nas demais regiões do país, a fabricante trabalha suas outras marcas --Visconti e Tommy, de preços mais competitivos-- com produtos de 400g. Com Bauducco, Visconti e Tommy, a Pandurata Alimentos é dona de cerca de dois terços do mercado nacional de panetones.>
"Agora já vemos alguns fabricantes regionais partirem para o panetone de 300g, como a De Panes, que começa a chegar em São Paulo", diz Bertagnon, referindo-se à fabricante com sede em Santa Bárbara d' Oeste (SP). Na capital paulista, o produto é vendido, por exemplo, na rede Supermercados Chama, a R$ 6.>
"Procuramos montar um mix variado de panetone tradicional de frutas, que vai de R$ 6 a R$ 20, considerando os tamanhos de 300g a 500g", diz Fábio Iwamoto, diretor da Supermercados Chama. A rede, com 15 lojas na Grande São Paulo, espera vender 20% mais no Natal deste ano --apesar do aumento de preços de algumas marcas, que chegou a 30%, diz o executivo.>
Na Panco, a diminuição de 500g para 400g foi feita há cerca de cinco anos. "Nós fomos uma das primeiras fabricantes a fazer essa mudança", diz Paula Marques, gerente de marketing da Panco. "É uma maneira de reduzir custos e oferecermos preços mais competitivos", afirma a executiva. Os panetones com esta gramatura têm preço sugerido entre R$ 16 e R$ 19.>
A Wickbold desembarcou no mercado de panetones no ano passado, com uma produção terceirizada. Mas no final de 2021 comprou uma fabricante de bolos em Guarapuava (PR), a Delimyll, e fez os ajustes para começar a produção própria, com distribuição nacional.>
"Nós já começamos com os produtos de 400g, em sintonia com o que é praticado no mercado", disse Pedro Wickbold, diretor geral da companhia, que também é dona da marca Seven Boys. Os produtos da Wickbold devem chegar ao mercado com preço sugerido entre R$ 23 e R$ 29 (incluindo a linha zero açúcares) e, os da Seven Boys, a R$ 20. A empresa oferece ainda o mini panetone, licenciado da Turma da Mônica, a R$ 9.>
O aumento de preços em relação ao ano passado gira em torno de 20%, segundo Wickbold. "É um reajuste necessário, para manter a qualidade do produto tendo em vista o aumento no custo dos insumos", diz o empresário.>
"Tivemos uma alta de quase 40% no preço da farinha de trigo.">
João Diogo, diretor da Village, reitera a pressão no preço dos insumos e embalagens. "Só a uva passa aumentou mais de 50%, em dólar", afirma Diogo, que importa o produto da Argentina. "O preço do papel cartão cresceu 25%, o do papel ondulado, mais de 30%, o chocolate aumentou 25%, e a gordura e a manteiga 40%", diz o executivo.>
Mesmo assim, a Village decidiu manter o reajuste de preços em 12% este ano.>
"Vamos adotar uma política mais agressiva de preços, para evitar um alto índice de devolução dos produtos, como foi no ano passado", afirma. Segundo ele, 12% do que vendeu em consignação para os varejistas foi devolvido. Um índice aceitável seria 3%. "Ninguém estava comprando nada, foi um final de ano com todo mundo sem dinheiro.">
Em valor, o mercado de panetones deve crescer apenas 5% este ano, segundo a Abimapi, para R$ 846,3 milhões este ano. No ano passado, a venda em valor cresceu só 4%. Em valores nominais, o crescimento fica abaixo da inflação pelo IPCA.>
Oito grandes fabricantes ouvidos pela reportagem (Bauducco, Arcor, Wickbold, Village, Cacau Show, Panco, Nestlé e Casa Suíça) apostam, porém, em um crescimento bem maior, entre 10% e 30%, tanto em volume, quanto em valor.>
Para isso, além das versões mais enxutas, abaixo de 500 gramas, lançam apresentações um pouco mais caras (e pesadas) para dar de presente.>
De acordo com a Kantar, em 2021, um terço dos lares (32,9%) deram panetones de presente no Natal, contra 19,7% do ano anterior.>
"O nosso mix de produtos para o Natal vai de R$ 6,90 a R$ 149,90", diz Alexandre Tadeu da Costa, presidente da Cacau Show. A rede mantém a tradição de deixar produtos abaixo de R$ 10. No ano passado, o mais barato, o Cartão Papai Noel (14g) custava R$ 5,90, e este ano passou a R$ 6,90.>
O produto de maior valor é um panetone de 1,5kg, o Especial laCreme.>
A argentina Arcor, dona de quatro fábricas no Brasil e que também trabalha com a marca Triunfo, reforçou a aposta em versões mais caras, de 530g e 650g. "Degustar um panetone é um momento de indulgência, o consumidor gosta de um produto com mais recheio", diz o diretor de marketing da Arcor, Anderson Freire.>
A maior novidade deste ano é um panetone de 650g recheado de chocolate, da personagem Tortuguita, vendido a R$ 35. "É um produto para consumo familiar", diz.>
Já a Nestlé, que desde 2017 adotava o peso de 400g para os seus panetones, afirma que este ano decidiu mudar para 450g.>
"A mudança procura acompanhar as tendências de mercado, se ajustar às novas necessidades dos consumidores, garantir a adequação a inovações tecnológicas e manter a competitividade", informou a Nestlé, em nota. De acordo com a empresa, dona de marcas como Prestígio, Alpino e Talento, os preços são negociados diretamente com cada varejista, "que define a melhor estratégia para seu estabelecimento".>
Paula Marques, da Panco, diz que os próprios varejistas pediram que a fabricante lançasse produtos com embalagem presenteável. "Lançamos duas versões de panetone para presentear, em comemoração aos 70 anos da empresa", diz ela. São Strudel de Maçã e Tiramissu, para acompanhar a versão Banoffee, lançada há dois anos. Os preços giram em torno de R$ 30, na versão 550g.>
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