Se Rose de Freitas for para a Rede, resolve o problema dela mesma (legenda à sua espera), o de Audifax (não precisa deixar a prefeitura) e o de Marina Silva (palanque forte no Espírito Santo)
Dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo. Aplicável ao mundo físico, essa lei é ainda mais verdadeira no mundo político. Por isso, se a senadora Rose de Freitas quiser mesmo ser candidata a governadora por sua sigla, o PMDB, terá pela frente o desafio de remover do caminho o governador Paulo Hartung, do mesmo partido que ela e hoje (frise-se o hoje) propenso a concorrer à reeleição.
Ao mesmo tempo que passa a disputar com Hartung o mesmo espaço dentro do PMDB, Rose passa a dividir com Renato Casagrande (PSB) o espaço que o ex-governador preferiria ocupar sozinho no campo de oposição ao hartunguismo. Para Casagrande, é mais conveniente que todas as forças não alinhadas ao grupo político de Hartung se unifiquem em torno de um só nome, lá em agosto, no momento de registro das candidaturas: no caso, a candidatura dele próprio – não assumida abertamente por Casagrande, mas por aliados dele. A partir do momento que Rose passa a fazer movimentos incisivos de candidatura própria, pode dificultar a execução desse plano de “unificação” dos adversários do grupo atualmente no poder, fazendo prevalecer o “cada um por si e todos contra o Paulo”.
Em outras palavras, a entrada de Rose nesse jogo gera uma situação interessante: para viabilizar seu plano de ser a candidata do PMDB ao governo, a senadora terá que remover a possível candidatura de Hartung; por sua vez, para concretizar a estratégia de candidatura única no polo de oposição a Hartung, Casagrande terá que demover Rose de também se lançar candidata. Um tentando empurrar o outro para fora...
O problema para Rose é que, se ela quiser mesmo entrar nessa disputa e chegar viva à linha de largada, é praticamente certo que terá de sair do PMDB e se filiar a outra sigla até o dia 7 de abril. Ela diz que não, que fica no partido e que o nome do candidato do PMDB (o dela ou o de PH) tem que ser decidido em convenção partidária, no mês de julho. Só que a chance de isso realmente acontecer é remotíssima. Diga-se de passagem, nem colegas que têm boa relação com a senadora acreditam na viabilidade dessa via. Poucos além da própria senadora creem que a direção nacional do PMDB não dará aval automaticamente a Hartung caso ele queira ir para a reeleição.
O homem já está na cadeira. É simples assim. Desde que o instituto da reeleição passou a vigorar, a “regra não declarada” é sabida por todos: quem já está no cargo tem precedência sobre eventuais concorrentes internos e a preferência do partido para buscar um novo mandato. Exceções à regra são raríssimas e sempre traumáticas, como o episódio “Vidigal versus Audifax” no PDT da Serra em 2008.
Na verdade, somente em um cenário Rose conseguirá legenda do PMDB, sem percalços, para concorrer ao governo: na hipótese de Hartung sair do partido até 7 de abril. Nesse caso, o caminho fica livre para ela. Já se PH ficar na sigla e quiser ser candidato à reeleição, ele deverá ter a legenda assegurada pela direção nacional. E, para Rose, em vez de tentar forçar uma improvável decisão pelo voto dos correligionários em convenção, mais sensato seria migrar para um partido amigável que a receba de portas abertas – entre as opções estão a Rede e o Podemos, controlados no Estado, respectivamente, por dois prefeitos muito bem relacionados com a senadora: Audifax Barcelos (Serra) e Gilson Daniel (Viana).
Seja como for, ao declarar que quer mesmo ser candidata ao governo, Rose se interpõe entre Hartung e Casagrande. E, se conseguir chegar lá, pode reverter a tendência de reedição da eleição polarizada ao governo que tivemos em 2014.
Todos vão a Rose
Rose de Freitas definitivamente resolveu ligar as turbinas para fazer sua pré-candidatura ao governo decolar. Pouco antes do carnaval, recebeu em seu gabinete o deputado federal Marcus Vicente (PP), que tem ensaiado movimento para fora do arco de apoio a Paulo Hartung. Nos últimos dias, Rose também recebeu Casagrande, Luiz Paulo (PSDB), Evair de Melo (PV) e Ricardo Ferraço (PSDB).
Casagrande vai a Max
No fim da tarde da última quarta-feira, Casagrande foi ao encontro de Max Filho (PSDB), no gabinete do prefeito de Vila Velha. Disse a Max que o possível ingresso do prefeito no rol de pré-candidatos ao governo está na mesma direção do movimento feito por ele e seus aliados (Luciano Rezende, Luiz Paulo etc.). A candidatura de Max Filho é defendida por seu pai, o ex-governador Max Mauro, e não descartada pelo prefeito. Lá na frente, Casagrande espera estar junto com os Max, com Rose e com todos os atores políticos fora do atual governo.
Nadinha a perder
É muito bom lembrar: ao contrário de todos os demais potenciais concorrentes nesse páreo (todos: Casagrande, Hartung, Colnago, Audifax, Max Filho...), Rose de Freitas não tem absolutamente nada a perder sendo candidata ao Palácio Anchieta. Não precisa abandonar o mandato e, se perder, tem mais quatro anos no Senado. Por sua idade, pode ser sua última chance de tentar chegar ao governo.
“Se ele quiser, acabou”
Avaliação do deputado federal Carlos Manato (SDD): “Se o governador continuar no PMDB e for candidato à reeleição, é o candidato natural. O pleito de Rose é legítimo. Mas ela tem que procurar um plano B. O governador não vai abrir mão da candidatura para ela. E, se ele quiser ser candidato, o movimento dela acabou”.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.