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Vitor Vogas

Coronel Nylton, o Restaurador

O prefeito da Serra, Audifax Barcelos, desmente informação publicada ontem aqui, de que sua mulher, Mara Barcelos, pode concorrer a deputada. "Sua filiação à Rede nada tem a ver com isso"

Publicado em 06 de Abril de 2018 às 23:10

Públicado em 

06 abr 2018 às 23:10
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Crédito: Amarildo
Coronel Nylton Rodrigues como novo secretário estadual de Segurança Pública, no lugar do civil André Garcia. A escolha – anunciada publicamente na noite de sexta-feira (6) por Garcia, no Palácio Anchieta, diante de uma plateia de policiais – tem um enorme peso simbólico, a começar por um traço histórico: fazia cerca de 25 anos que a Sesp não era liderada por um quadro vindo da Polícia Militar do Espírito Santo (PMES). O último caso similar havia se dado durante o governo de Albuíno Azeredo, quando o coronel Luiz Sérgio Aurich acumulou as funções de secretário com a de comandante-geral da PMES, de 8 de janeiro de 1993 a 10 de agosto daquele ano.
Qual o significado específico de se optar por um quadro da PMES neste momento, isto é, na reta final do governo Paulo Hartung, a poucos meses do início da campanha e pouco mais de um ano desde a greve dos policiais? Em outras palavras, o que exatamente Hartung pretende com essa nomeação (endossada pelo antecessor de Nylton no cargo, André Garcia)? Na resposta dada pelo próprio Nylton, o novo secretário argumenta que a escolha significa reconhecimento ao trabalho das tropas da PMES, mas busca repartir essa valorização com os outros órgãos que compõem as forças de segurança estaduais e também estão sob o guarda-chuva da Sesp (Polícia Civil, Detran e Corpo de Bombeiros):
“Ótima pergunta. Não é nem a questão de ser um quadro da PM. Trata-se de um quadro das instituições estaduais de segurança: Polícia Militar, Polícia Civil e Corpo de Bombeiros. Então, é um momento em que temos uma oportunidade para mostrar que um quadro que integra as nossas instituições locais pode ocupar esta pasta e desenvolver um trabalho harmônico e de sucesso”.
Tudo bem, tudo bem. Diplomaticamente, o novo secretário compartilha os créditos e os méritos com todas as forças de segurança do Estado. É um gesto até inteligente já que, afinal de contas, ele passa a comandar não só a PMES e precisa começar com o “coturno direito” na relação com todos os subordinados.
Mas, para quem acompanhou o desenrolar da traumática greve dos policiais militares em fevereiro de 2017, parece muito claro que a escolha de Hartung por Nylton tem um significado muito mais especificamente voltado para a PMES: é um gesto inequívoco de esforço no sentido de “restauração” do relacionamento do alto escalão da Sesp e do próprio governador com as tropas. Relacionamento esse que ficou totalmente esgarçado (ou “esGarciado”) durante a greve. E que, diga-se de passagem, jamais voltou a ser o mesmo.
Um momento na cerimônia, aliás, tão sutil quanto eloquente, evidencia essa situação de distanciamento que persiste entre a alta cúpula da Sesp e as bases da PMES (policiais que atuam nas ruas). O pronunciamento de Garcia foi uma mistura de despedida emocionada com balanço dos feitos e ensaio do seu discurso de campanha a deputado federal pelo PSDB, muito afinado, por sinal, com o do governador Paulo Hartung. Mas houve um único trecho que pode ser interpretado sem erro como menção indireta ao movimento grevista (ou desabafo, até porque Garcia, naquele momento, já deixava de responder pela pasta).
Com a sutileza de uma patada de elefante, Garcia criticou “a manipulação barata das emoções humanas”. A divisão das reações não deixa dúvida: ele foi timidamente aplaudido pelas filas dianteiras, reservadas às autoridades. Nas de trás, onde se concentravam PMs de mais baixa patente, não se ouviu aplauso.
Após a cerimônia, Garcia explicou o porquê da opção por Nylton: “O mais importante em uma pasta estratégica como esta é ter o perfil adequado para liderar e uma capacidade de gestão sobre a pasta. O coronel Nylton tem um perfil de gestor adequado para o cumprimento dessa missão. Sob o ponto de vista de pensamento, temos muita sintonia”.
Pode ser. Mas o fato é que sai um civil (com aspirações políticas) e entra um militar. O que, por si, é uma mudança e tanto. Vamos ver se isso ajuda a cicatrizar de vez uma ferida ainda não fechada.
Chega de incêndios
O pronunciamento “de posse” de Nylton foi marcado por uma metáfora que permeou toda a fala, com o próprio palco do evento: ele lembrou que o Palácio Anchieta já sofreu três incêndios em sua história, ressaltou as muitas restaurações por que a sede do governo já passou e concluiu: “A exemplo do Palácio, esse processo de reconstrução (da PM) continuará ao longo dos anos vindouros”.
Sentido da metáfora
Questionado pela coluna, ele explicou que empregou a metáfora não no sentido de restaurar a relação abalada entre comando e base da PMES. “Não vejo isso como um movimento para estreitar esse relacionamento. Interpreto como valorização dos quadros das nossas instituições e de um bom trabalho realizado.”
“Modernizar e atualizar”
Segundo Nylton, ele falou em “reconstrução” com o significado de “modernização e atualização do trabalho”. Mas o que significa isso, na prática? Nylton divide a resposta em passado e futuro.
“Pratrasmente”
No “pra trás”, ele destaca as novas leis de promoção de praças e oficiais da PM. Os projetos do governo foram aprovados na Assembleia em 2017 (após a greve), definindo novos critérios para a evolução na carreira e valorizando a meritocracia.
“Prafrentemente”
No “pra frente” – portanto a partir da sua própria gestão –, ele destaca: “Investir em tecnologia para que as instituições maximizem eficiência. E investir mais na formação dos nossos quadros”.
“Por que Nylton, Garcia?
“O gesto do governo é evidente no sentido da valorização da PMES e das outras instituições também comandadas pelo secretário de Segurança. São todas relevantes, com servidores valorosos. Mas não deixa de ser, de fato, um gesto nesse caminho do reconhecimento do trabalho de uma polícia quase bicentenária.”

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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