Uma leitura panorâmica do noticiário local dos últimos dias não permite outra constatação: o Espírito Santo segue sendo um Estado de contrastes. Isso se manifesta em muitos dos serviços mais essenciais para a população. Querem ver? Comecemos pela educação pública.
Conforme publicou o colega Leonel Ximenes na última quarta-feira, o secretário estadual de Educação, Haroldo Corrêa Rocha (MDB), foi convidado para exercer um cargo de destaque no governo Temer (MDB): secretário-geral do Ministério da Educação. Prova inconteste de prestígio de Haroldo, o que certamente se estende para o governador Paulo Hartung (MDB) e seu governo.
Enquanto isso, porém, na zona rural de Linhares, crianças têm que ser transportadas na carroceria de um trator por oito quilômetros numa estrada barrenta e enlameada pior do que uma pista de rali, só para poderem chegar à escola, todo santo dia. Isso falando dos pequenos que ainda fazem questão de ir à escola e se sacrificam por isso. Mas e quanto àqueles mais velhos, em idade escolar, que abandonaram as salas de aula?
Dos 885 mil capixabas que têm entre 15 e 29 anos, 204 mil (23,1%) não estudam nem trabalham. Fazem parte, pois, daquela categoria chamada de “nem-nem”, faixa expressiva da população que, em plena idade produtiva, não tem ocupação na vida. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), do IBGE, e foram coletados no ano passado. A pior parte é que esse número representa um aumento de 4 mil jovens “nem-nem” em relação a 2016. Ou seja, de 2016 a 2017, cresceu o número de jovens capixabas sem perspectiva alguma.
Por falar em ocupação (ou desocupação), vale lembrar que o projeto que é uma das meninas dos olhos de Hartung e o carro-chefe do atual governo na área de segurança e promoção social é voltado, especificamente, para os jovens de baixa renda, moradores de comunidades com altos índices de vulnerabilidade social, e que, em sua maioria, não estão nem estudando nem trabalhando.
Há, ainda, os capixabas que nunca pisaram em uma unidade escolar. As taxas de analfabetismo (tema polêmico na campanha de 2014) continuam altas no Espírito Santo. Também de acordo com a Pnad, o Estado possuía, em 2017, 178 mil pessoas com mais de 15 anos que não sabem ler nem escrever. O índice, de 5,5%, é menor que o registrado em 2016, quando 6,2% da população capixaba nessa faixa etária era analfabeta.
“Mas é um percentual assustador”, ponderou a professora Cleonara Schwartz, do Centro de Educação da Ufes, à reportagem de A GAZETA. Com a ponderação, ela deixou um alerta: o quadro pode piorar em breve, pois os números, que apresentaram tendência de queda nos últimos dois anos, são, segundo a especialista, resultado de políticas públicas que haviam sido implementadas em 2013 e foram suspensas no final de 2016.
Enquanto isso, na área da saúde pública, o governo estadual tem feito entregas e anúncios importantes nos últimos dias. O mais recente deles foi a inauguração, na última terça, da nova sede da Farmácia Cidadã Estadual em Vila Velha, onde os usuários poderão ser atendidos com mais conforto e agilidade, em um local mais amplo que o anterior. Também poderão realizar atendimento com hora marcada. Ótima notícia, realmente.
Mas quem dera as páginas do jornal só tivessem boas notícias para dar. No mesmo dia, A GAZETA publicou denúncia do Sindicato dos Trabalhadores da Saúde no Estado do Espírito Santo (Sindsaúde) sobre o crescente número de mortes de bebês prematuros no Hospital Infantil de Vila Velha (Himaba) após a administração da unidade ser terceirizada para o Instituto de Gestão e Humanização (IGH). Segundo o sindicato, foram 26 mortes de 6 de outubro até 22 de dezembro de 2017.
Já segundo a direção do Himaba, a porcentagem de mortes de prematuros internados na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (Utin) diminuiu desde a terceirização: de outubro de 2017 a janeiro de 2018, foram 207 bebês vivos e 26 mortes (11,1%). Já de outubro de 2016 a janeiro de 2017 foram 83 bebês vivos e 14 mortes (14,4%). Ainda que estes números estejam corretos, uma taxa de mortalidade como essa, de um bebê morto em cada dez recém-nascidos, não pode ser nem remotamente aceitável.
Em março deste ano, a reportagem de A GAZETA já havia denunciado problemas no Himaba: mães e crianças foram flagradas deitadas no chão do pronto-socorro do hospital; por conta da superlotação da unidade e da falta de leitos, muitas tomavam soro deitadas ou sentadas em cadeiras de plástico. Em alguns casos, faltavam até cadeiras para os acompanhantes. A situação foi revelada por meio de fotos e vídeos feitos por familiares dentro do local.
São situações que não poderão deixar de ser discutidas a fundo durante o próximo processo eleitoral.
Cenas lamentáveis
Podiam ser “cenas políticas” – o espaço da coluna reservado às anedotas e situações cômicas –, pelo que elas contêm de bizarro. Mas o assunto, maus-tratos a crianças e adolescentes, é tão sério que só permite a classificação de “cenas lamentáveis”.
Em nome de Deus
Do início ao fim, a audiência conduzida por Magno foi um show de proselitismo religioso em um espaço que deveria ser laico. “Declaro, em nome de Deus, abertos os trabalhos”, disse no início. E o “nome de Deus” seria bem usado dali em diante. O pagodeiro gospel abusou das citações bíblicas. Tentou de todas as maneiras arrancar uma confissão pública do pastor George Alves Gonçalves. Como esse se declarasse inocente, Magno acusou-o de ter traído Jesus e esfregou em sua cara a história de Judas. “O que matou Judas foi a falta de arrependimento, foi a falta de penitência!”
Pai, perdoa-o...
Para o mesmo depoente, acusado de violar e matar os irmãos Kauã e Joaquim, em Linhares, Magno citou uma comédia infantil para encenar o drama das crianças na hora da morte. “Conhece o filme ‘Esqueceram de Mim’? Seus filhos disseram ‘esqueceram de nós’. ‘Papai não vai vir nos salvar’.”
Jesus, acende a luz
Magno ainda arriscou esta metáfora de gosto duvidoso: “O novo nome de Jesus deveria ser luminol, porque Jesus é igual a luminol. Onde você joga, ilumina tudo”, afirmou o senador, sobre a substância química utilizada por peritos da polícia quando necessitam descobrir se há vestígios de sangue em roupas, objetos ou ambientes.
Circo político
Ele ainda compartilhou com o depoente esta informação de relevância pública: “Se eu tivesse 36 anos, eu não era senador. Eu estaria lutando MMA. Estaria saindo na porrada por aí”.
MMA: Magno Malta em Ação
Magno está se revelando o rei do vale-tudo. Só que político-eleitoral.
Show de horrores
E esse vale-tudo está reverberando na equipe do senador. Na noite de quinta-feira, por exemplo, após ter recebido voz de prisão do próprio Magno durante audiência da CPI dos Maus-Tratos, o avô de uma vítima, acusado de tê-la violentado, foi escoltado por policiais até um corredor atrás do auditório. Um assessor de Magno transmitia tudo ao vivo para a página do senador no Facebook. Valendo-se de seu acesso privilegiado às dependências do edifício, o assessor seguiu os policiais com a câmera, postou-a na cara do acusado e perguntou-lhe ao vivo: “E aí, arrependido?”.
Avenger, só que não
O raciocínio aqui é simples: ninguém pode violar os direitos constitucionais de ninguém, seja ele acusado, réu ou condenado, nem mesmo a pretexto de promover a defesa de crianças e adolescentes. E menos ainda para posar de justiceiro e vingador das vítimas. Não cabe a um senador da República fazer isso. Sejam os depoentes culpados ou não. Sejam verdadeiros monstros ou não. Cabe à Justiça determinar isso e, se a culpa estiver formada e provada, fazê-los pagar como devem pelos crimes cometidos. O que não cabe é linchamento público, muito menos em uma Santa Inquisição conduzida por alguém que se crê numa cruzada pessoal.