Os últimos 15 dias, incluindo a viagem a Israel, são uma síntese do que foi, até agora, o governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL): confusão, recuos, disputas ideológicas e brigas, muitas brigas inúteis para dentro do governo e para fora do país. Brigas com tudo e com todos. Inclusive, com os fatos.
Na viagem a Israel, conduzida pela desastrada diplomacia inaugurada pelo chanceler Ernesto Araújo (classificada de “medieval” pelo colunista Elio Gaspari), Bolsonaro conseguiu a rara façanha de desagradar a todos: israelenses e árabes. Cortejou o premiê Netanyahu (ou Natanael, como o chamou), então em plena campanha pela reeleição, e estabeleceu o alinhamento incondicional do Brasil com Israel, deixando parceiros comerciais árabes com suas longas barbas de molho.
No caso da transferência da embaixada brasileira da capital, Tel Aviv, para Jerusalém, Bolsonaro ficou em cima do Muro das Lamentações. Recuando de sua promessa de campanha, limitou-se, por ora, a anunciar a criação de um escritório comercial na cidade sagrada para as três grandes religiões monoteístas. Totalmente desnecessária, a decisão de abrir o escritório foi o suficiente para despertar a ira do mundo árabe sobre nós, ao mesmo tempo em que frustrou as expectativas do governo israelense, alimentadas pelo próprio presidente brasileiro.
Antes de voltar para o Brasil, contudo, Bolsonaro voltou a declarar o compromisso de transferir a embaixada antes do fim do mandato, fornecendo mais um exemplo de outra das grandes marcas de seus primeiros cem dias de gestão: recuos em cima de recuos, um vaivém contínuo e indevido a respeito de questões estratégicas para o Brasil, domésticas e internacionais. Isso sem falar na insistência em entrar em um conflito histórico e geopolítico que não é nosso, no barril de pólvora que é o Oriente Médio, exercitando o que parece ser sua indelével vocação, mesmo agora na condição de presidente da República: arrumar briga.
Não satisfeito com tantos conflitos, Bolsonaro, ainda durante a viagem “diplomática”, encontrou tempo para brigar com fatos, tanto estatísticos como históricos. Os números do IBGE sobre o desemprego não vieram bons. No dia 29 de março, o órgão publicou os dados da Pnad Contínua Mensal e mostrou que, no último trimestre móvel (de novembro de 2018 a janeiro deste ano), foi registrado crescimento da taxa de desocupação no Brasil, em relação ao trimestre anterior. Bem, se os números não lhe agradam, pior para os números. E para aqueles que fornecem esses números.
Em vez de enfrentar o problema, o presidente preferiu confrontar e desacreditar o IBGE, órgão do seu próprio governo, existente desde 1934 e respeitado internacionalmente por sua excelência técnica e rigor metodológico na realização de pesquisas para aferição e produção de dados. Bolsonaro, porém, já deu reiteradas demonstrações de não ser lá grande fã de rigor científico. Para ele, os dados acerca do desemprego deveriam ser buscados não no IBGE, mas nos bancos – ideia inclassificável.
De igual maneira, se os fatos históricos não lhe agradam, pior para os fatos históricos. Em Israel, para estupefação da comunidade internacional, Bolsonaro voltou a ecoar a estapafúrdia tese, sustentada sinceramente por nosso chanceler, de que o nazismo na verdade teria sido uma corrente ideológica “de esquerda”. Fez a declaração no mesmo dia em que visitou o Memorial do Holocausto (Yad Vashem). Teria feito bem em ler o que está escrito no site do próprio museu, que classifica o nazismo como um “movimento de direita e antissemita”. É assim que é ensinado em Israel. É assim que é ensinado na Alemanha. É assim que se ensina no Brasil e no resto do mundo. Pior para o resto do mundo.
Na mesma toada, antes mesmo de o avião de Bolsonaro pousar de volta em solo brasileiro, o Planalto divulgou a jornalistas um vídeo em que comemorava o golpe militar de 1964.
Dias depois, o então ministro da Educação Vélez Rodríguez, já insustentável no cargo, deu uma forma mais literal à ideia de “reescrever a História”: talvez em uma última tentativa de recuperar pontos na avaliação do chefe, defendeu em entrevista “mudanças progressivas” no conteúdo dos livros didáticos distribuídos a alunos do país, no tocante ao golpe (para Rodríguez, “uma decisão soberana da sociedade brasileira”) e à ditadura que nos governou de 1964 a 1985 (para ele, “um regime democrático de força”).
Os livros, disse Rodríguez em seu derradeiro ato à frente do MEC, deveriam ser revisados de modo tal que “as crianças possam ter a ideia verídica, real, do que foi sua história”. Por isso, seriam alterados “na medida em que seja resgatada uma versão da história mais ampla”.
No dia 7, saiu a pesquisa Datafolha mostrando queda recorde de popularidade de Bolsonaro em três meses de governo, assim como já captara a do Ibope publicada no dia 20 de março. Nesse caso, o presidente não ralhou. Preferiu ignorar a pesquisa. O que é outra forma de brigar com os números.
Enquanto isso, cada vez mais isolado, o ministro Paulo Guedes foi malhado no dia 3 por opositores na CCJ da Câmara e segue praticamente sozinho na tarefa de defender com sincero entusiasmo a reforma da Previdência mandada por Bolsonaro ao Congresso.
Brigando com seu próprio projeto prioritário, o qual ele reluta em abraçar por inteiro, Bolsonaro voltou a se eximir da responsabilidade de liderar a articulação para aprová-lo, dizendo, em entrevista no dia 8, que “a reforma depende agora de outro Poder” – ao mesmo tempo em que cedeu e começou a receber caciques partidários para dialogar. Paradoxalmente, o presidente segue também brigando com o tal “outro Poder” do qual diz depender a aprovação da matéria, à medida que generaliza os congressistas como se todos fossem sinônimo de “velha política”.
Bolsonaro também tem brigado com o próprio discurso, que ajudou a elegê-lo, no tocante ao endurecimento da legislação para punir criminosos. Ora, e quanto aos crimes de trânsito, responsáveis por um número de mortes por ano equivalente a 2/3 dos assassinatos? (Em 2017, o Brasil registrou 41.115 mortes relacionadas ao trânsito, ante 63.880 homicídios dolosos.)
É no mínimo um contrassenso o presidente agora querer dobrar os pontos para suspensão da habilitação do condutor e suspender a instalação de cerca de 8 mil radares no país, beneficiando assim infratores, mas dizendo que a medida visa à “paz do motorista”.
Que paz é preferível? A de poder trafegar acima do limite de velocidade, em vias sem radares, na certeza de que ninguém será flagrado? Ou aquela de poder transitar com a segurança de que outros condutores, irresponsáveis, terão que dosar a velocidade e respeitar a lei sob pena de sofrerem no bolso (única coisa que funciona neste país)?
Na última sexta-feira, o presidente conseguiu se superar. Se as evidências não lhe agradam, pior para as evidências. Após seis dias de retumbante silêncio sobre o episódio do pai de família executado com 80 tiros por homens do Exército no Rio de Janeiro, Bolsonaro enfim decidiu falar. E, para espanto geral, foi para dizer que “o Exército não matou ninguém”. Como diria o colunista Elio Gaspari, ganha um curso de tiro ao alvo em Israel quem souber quem matou então o músico Evaldo dos Santos Rosa.
A sequência da declaração é a produção de um silogismo ímpar: “O Exército não matou ninguém, não. O Exército é do povo. E não pode acusar o povo de ser assassino, não”. Equivale a dizer: “O Exército é do povo; o povo não é assassino; logo, o Exército não pode matar ninguém”.
Pelo mesmo contorcionismo lógico, o presidente também não assassinou a verdade. O presidente, afinal, é do povo. E o povo não é assassino.
No lugar da obsessão em reescrever a História, o presidente Jair Bolsonaro poderia se preocupar um pouco mais em como pretende ser lembrado por ela.