O governo sem ideologia é o maior mito do governo do Mito – como o presidente Jair Bolsonaro é chamado por seus mais entusiasmados seguidores. Após a visita de Bolsonaro aos Estados Unidos, alguém ainda é sinceramente capaz de acreditar nesse mito? Recapitulemos, pois, alguns pontos:
Olavo de Carvalho, o ideólogo máximo da direita radical brasileira, tem mais poder que muitos ministros no governo Bolsonaro. Aliás, indica ministros no governo e derruba técnicos e militares que não rezem conforme a sua cartilha (digo, curso online). Indicado por Olavo, o ministro da Educação, Vélez Rodríguez, tem crivado de “olavismos” o debate sobre educação no país. Agora, de modo rocambolesco, tem sido alvo da verve do próprio guru. Para Olavo, o ministro cedeu e não levará adiante a “revolução cultural conservadora” que ele julga necessária no país. Mas a ideologia, é claro, passou longe...
O deputado Eduardo Bolsonaro, 03 da prole do presidente, diz ao Estadão, durante a transição, que a influência de Olavo em seu pensamento é “grandíssima”. Vai aos EUA ainda na transição, se reúne com Steve Bannon, o ideólogo de Donald Trump, põe na cabeça um boné com o dizer “Trump 2020” e diz que o nosso país “não será mais socialista” (algo que, a rigor, nunca foi). Na posse, Jair Bolsonaro diz a mesmíssima coisa do alto da rampa do Planalto: naquele momento, segundo ele, o povo brasileiro “começou a se libertar do socialismo”. Ele recebeu a faixa das mãos de Temer. Este acaso fez um governo “socialista”???
Em janeiro, Bolsonaro vai a Davos e, respondendo a uma pergunta do fundador do fórum, diz que o Brasil não fará parcerias com viés ideológico, repetindo um dos bordões da sua campanha. Na mesma resposta, diz que “a esquerda não prevalecerá nesta região [América Latina]”. Mas a ideologia, claro, mandou lembranças...
Logo após o carnaval, em um forte da Marinha no Rio, o presidente anuncia que vai governar ao lado daqueles que “querem aproximação com países que têm ideologia semelhante à nossa”.
Na semana passada, pai e filho vão aos Estados Unidos. Os dois se reúnem com Bannon e com Olavo de Carvalho. Ao lado de Trump, repetem a cantilena sobre salvar o Brasil do comunismo.
Assim como o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo – também discípulo de Olavo, mas ofuscado por Eduardo –, pai e filho veem “comunismo” em tudo. Expressam um deslumbramento sem igual com o trumpismo. Na visita aos EUA, deram fortes sinais de alinhamento (ou atrelamento) ideológico automático com o governo de Trump – o que não necessariamente se coaduna com os melhores interesses comerciais e econômicos do Brasil.
A ver no que vai dar essa ideologia toda no governo sem viés ideológico. Desculpem: essa não ideologia.
PS: Logo após vencer oficialmente a eleição, em 28 de outubro, Bolsonaro fez transmissão pelo Facebook. Como de praxe, ergueu a lança contra os moinhos da ameaça comunista no Brasil. Sobre a mesa, o candidato que passara a campanha a prometer um governo sem viés ideológico fez questão de colocar, displicentemente (como que esquecido ali), um livro de Olavo de Carvalho. Não era objeto decorativo. Nem Olavo o é no seu governo.
O trumpismo em 7 steps
Para quem não está familiarizado com o trumpismo, vai aqui um resumo. Trata-se de um coquetel de 1) antiglobalismo (a globalização é a causa de todos os males do Ocidente); 2) nacionalismo extremado e exaltação da pátria (“America first”); 3) protecionismo comercial (o que obviamente não é bom para nós; bom lembrar que esse “America first” não inclui o resto da América); 4) guerra à imprensa, tratada como “inimiga do povo”; 5) sucesso eleitoral sustentado em uma máquina de produção de desinformação (“fake news”); 6) isolacionismo (desprezo pela ONU e por outros organismos multilaterais); 7) xenofobia, a aversão ao estrangeiro e a necessidade de assepsia social, cuja representação concreta é o projeto do muro na fronteira com o México, apoiado por Eduardo Bolsonaro, para quem imigrantes brasileiros ilegais são “uma vergonha para o Brasil”.
Tem que decidir isso daí
Jair Bolsonaro precisa decidir se é o presidente cujo projeto prioritário é a reforma da Previdência ou o presidente que sabota o próprio projeto prioritário; se deu mesmo carta branca ao ministro Sérgio Moro ou se essa carta branca veio com poder de veto (o que, a rigor, contraria o próprio significado da expressão); se a ministra Damares Alves vale mesmo por dez ministros, conforme ele mesmo enalteceu em discurso no Dia Internacional da Mulher, ou se a referida ministra não tem muita importância para ele, como afirmou no Chile na última quinta. A declaração, aliás, prova duas coisas: a “pouca importância” que Bolsonaro dá aos direitos humanos, pasta de Damares; e que seu discurso no dia 8 não passou de média com as mulheres.