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Nióbio de tolo

Desde quando Bolsonaro pertence mesmo ao PSL?

A maneira como ele trata o próprio partido revela o casuísmo eleitoral de sua filiação em 2018. Mas esse sempre foi seu padrão de conduta. Bolsonaro descarta partidos como quem troca de pele. Perdido em brigas internas, PSL pode implodir de vez com saída do presidente

Publicado em 14 de Outubro de 2019 às 06:00

Públicado em 

14 out 2019 às 06:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Bolsonaro e PSL nunca tiveram ligação orgânica, mas ditada tão somente pela conveniência eleitoral Crédito: Amarildo
A maneira como o presidente Jair Bolsonaro trata o próprio partido revela o casuísmo eleitoral de sua filiação em 2018. Mas esse sempre foi seu padrão de conduta política: apenas usar os partidos para em seguida descartá-los, ao sabor da conveniência do momento, como se partidos não passassem de cartórios eleitorais, abrigos passageiros, uma peça ou instrumento imprescindível em determinado instante, para atingir determinado objetivo, mas absolutamente dejetável após o uso.
Se desertar mesmo do PSL, conforme tem sinalizado, Bolsonaro marchará rumo à sua nona sigla em seus 29 anos de vida pública, iniciada após se aposentar do Exército (tecnicamente, ir para a reserva remunerada) em 1989, com menos de 35 anos de idade: média de uma legenda a cada três anos. Nada mau para quem despreza tanto os partidos em geral, declara que “meu partido é o Brasil” etc.
Para dizer bem a verdade, o capitão nunca foi, como gostam de dizer muitos políticos, um verdadeiro “soldado do partido”. Nunca pertenceu de verdade ao PSL. Este é que, na prática, passou a pertencer a Bolsonaro. O ex-deputado nunca teve a menor vida orgânica no PSL, até porque, convenhamos, o PSL não tem a menor organicidade, identidade política e programática, nem a mínima organização interna em nível nacional. E, mesmo em nível regional, tem sido dominado pelo caos em alguns Estados - no Espírito Santo, ainda consegue se organizar melhor, em torno da figura de Carlos Manato.
Na prática, o Partido Social Liberal serviu e, por enquanto, ainda serve aos interesses do presidente da República. Virou o Partido Jair Bolsonaro (PJB) e é exatamente isso que é hoje. Não o era antes. Aliás, não era nada do ponto de vista político até abril de 2018. Passou a ser o PJB a partir do momento em que filiou o então deputado federal, em um grande “negócio eleitoral”: o partido deu ao capitão reformado a tão almejada legenda para ele poder concorrer à Presidência, plenamente livre de preocupações, amarras ou compromissos partidários. Nada de ter que respeitar programa de partido, até porque… que programa tinha (e tem) o PSL?
Em troca, aceitando servir a Bolsonaro como barriga de aluguel eleitoral, dirigentes do PSL, até então só mais uma sigla nanica e inexpressiva em nossa sopa de letras partidárias, vislumbraram a oportunidade de fazer o partido crescer politicamente, elegendo dezenas de congressistas e deputados estaduais país afora na esteira da fama do candidato à Presidência.
A aposta, como se sabe, deu mais do que certo. O resultado foi melhor que a encomenda e, graças à “onda Bolsonaro” que tomou as urnas de assalto em outubro do ano passado, o PSL, até então um anão político, conseguiu eleger a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados, com mais de 50 parlamentares. Foi uma excrescência, no sentido literal: uma saliência, ou protuberância, que se formou na superfície do tecido político brasileiro.
O partido, no entanto, agora paga o preço de suas escolhas, da sua desorganização e da soma de tantos casuísmos. Num certro sentido, a filiação de Bolsonaro foi ouro (ou nióbio) de tolo.
Agora, seguindo o próprio padrão histórico e mostrando mais uma vez a facilidade com que troca de partido como quem troca de pele ou de casca política, Bolsonaro volta a ameaçar abandonar o PSL, para se filiar a uma “nova UDN” da vida, ou fundar o tal Partido Conservador – iniciativas movidas pelo mesmo tipo de casuísmo.
Se confirmada, a nova ameaça de desfiliação provocará uma debandada e esvaziará o PSL, fazendo-o, possivelmente, voltar a ser o que sempre foi até 2018: um grande nada não só do ponto de vista da identidade programática e ideológica, mas também em termos de representação no Congresso. Ou, na melhor das hipóteses, um partido de pequeno porte em Brasília.

BATEÇÃO DE CABEÇA

Antes da bateção de continência para Bolsonaro, o que chama a atenção no PSL é a bateção de cabeça de seus membros.
A eventual deserção do capitão pode ser o tiro de misericórdia, mas o fato é que, desde o início do ano, o partido já vem se esforçando muito para se destruir sozinho, num processo acelerado de autossabotagem coletiva; perdido em vaidades pessoais e disputas fratricidas protagonizadas pelos próprios integrantes, o PSL aos poucos vai implodindo por dentro, perdendo a cada semana uma consistência política que já era frágil, como um prédio mal cimentado, erguido com areia da praia de Angra dos Reis.
Em dezembro de 2018, após intensa troca de ofensas e ataques em grupo da bancada do PSL no WhatsApp, Eduardo Bolsonaro e Joice Hasselmann selaram trégua com direito a esta foto. Intrigas e brigas internas têm dominado o partido desde então Crédito: GZ
A falta de unidade é flagrante nos mais diversos níveis: dentro da própria bancada no Congresso Nacional; entre parte da bancada e Bolsonaro; entre este e dirigentes nacionais, entre deputados e dirigentes nos respectivos Estados (vide o racha da Joice Hasselmann com a direção do PSL em São Paulo).
O ministro não se entende com um dos filhos de Bolsonaro, que não se entende com a líder do governo no Congresso (Joice Hasselmann), que não se entende com o líder do partido no Senado (Major Olímpio), que não se entende com o próprio presidente ou com outro filho deste, que por sua vez não se entende com o ministro – quando não manda o pai o demitir. É uma quadrilha de Drummond, com muito desentendimento e intrigas no lugar do amor.
Apesar da numerosa bancada, eleita pela “onda Bolsonaro”, o PSL na verdade é um aglomerado de interesess pessoais, avulsos e difusos. A ideologia é confusa, se é que existe alguma. As partes não dialogam entre si. Com tantos ingredientes que não combinam, o caldo político resultante da mistura não dá liga.
E o próprio Bolsonaro é o primeiro a agravar esse problema, pois foi o primeiro a embarcar no partido de maneira casuísta (só a fim de usar a sigla para disputar a eleição). Tanto que agora ameaça livrar-se do mesmo PSL que lhe deu guarida eleitoral, mas que passou a ser um incômodo para si, com a mesma facilidade com que nele ingressou. Mostra, assim, o quanto o partido na verdade sempre foi algo irrelevante, indesejável e descartável para ele.

OLHA A LARAAAAAAAANJA!

Em bem menos tempo do que se esperava, o PSL passou a ser um grande inconveniente para Jair Bolsonaro, principalmente em razão do inquérito da Polícia Federal sobre candidaturas laranjas de mulheres operado em 2018 pelo PSL de Minas Gerais, esquema que atinge em cheio o seu ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, já indiciado pela PF e estranhamente mantido no cargo pelo senhor tolerância zero com corrupção.
Marcelo Álvaro Antônio, Ministro de Estado do Turismo, com o presidente Jair Bolsonaro Crédito: Marcos Corrêa /PR
É só ligar os pontinhos laranjas. Mesmo que indiretamente, Bolsonaro pode ter se beneficiado do esquema nas eleições de 2018. Ficando no PSL, como suposto beneficiário, a água, que já batia em seu pescoço campeão em distribuir pescoçadas, começará a bater-lhe na boca – a qual, inclusive, não ficaria tão mal submersa, para parar de quebrar os recordes nacionais de despautérios/dia.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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