“Sapeca o dedo nervoso aí!”
“Ou pega o simpático ou manda pro inferno!”
“Mais um absurdo que merece ripa!”
“O bandidão vai sentar na guemba do seu delega!”
Quem diz essas frases, repletas de gírias e bordões no estilo “mundo cão”, é o apresentador de TV Amaro Neto, quando à frente de seu programa policialesco. A atitude assumida no ar e o discurso encorajador da violência policial poderiam indicar que, uma vez na Câmara Federal, Amaro se comportaria como mais um parlamentar de extrema direita, integrado à bancada da bala no Congresso, daqueles que defendem, por exemplo, execução sumária de criminosos.
Nada disso.
Desde sua chegada a Brasília, o discurso do Amaro (PRB) deputado federal não tem lembrado nem remotamente o do Amaro apresentador. Na verdade, com base em declarações recentes, marcadas por surpreendente ponderação, o deputado visivelmente tem buscado dar uma guinada na direção do centro político.
No lugar de um Amaro radical e histriônico, surge um Amaro contido e moderado. Essa autocontenção é notada, por exemplo, em alguns posicionamentos do deputado em resposta a recentes questionamentos de A GAZETA sobre temas polêmicos em debate no Congresso.
O Amaro congressista se declara contra a liberação do porte de armas à população civil e afirma que votará contra qualquer projeto nesse sentido. Sim, aquele mesmo que, na tela, conclama “os hômi a darem bala de halls preta nos caboclo” (PMs a atirarem nos bandidos).
Instado a se manifestar sobre o pacote anticrime do ministro da Justiça, Sergio Moro, Amaro revela-se favorável, mas com uma importante ressalva.
O pacote consiste em três projetos de lei que alteram 14 pontos de leis como o Código Penal e o Código de Processo Penal, com o intuito de atacar a corrupção, o crime organizado e crimes violentos. Amaro se posiciona a favor de pontos-chave do pacote, como a prisão de condenados em segunda instância e a criminalização clara do caixa dois.
Mas o pacote também alarga bastante os parâmetros do chamado “excludente de ilicitude” (promessa de campanha de Bolsonaro), flexibilizando as regras para que policiais possam agir “em legítima defesa”. Pela redação do projeto, o juiz poderá reduzir a pena até a metade ou até deixar de aplicá-la se “o excesso [por parte de quem matou] decorrer de escusável medo, surpresa ou violenta emoção”.
O temor é que isso represente uma “licença para matar” criminosos ou, pior, supostos criminosos. Amaro faz um destaque contrário a esse ponto: “Quanto à legítima defesa, deve-se impedir que a reforma permita o uso menos controlado de força em comunidades carentes”.
No caso do projeto de lei de Bolsonaro que abranda vários pontos do Código de Trânsito Brasileiro, Amaro também expressa restrições:
“Foi encaminhado sem qualquer tipo de estudo técnico que o embase. (...) Aumentar a quantidade de pontos na CNH, diminuir a punição para motociclistas sem capacete e retirar a obrigatoriedade da cadeirinha são medidas que vão na contramão de tudo de mais avançado que tem se feito no mundo para reduzir o número de acidentes e mortes no trânsito. Da mesma forma, o exame toxicológico, que deverá ser aprimorado [e não extinto] para evitar fraudes”.
Amaro pelo jeito percebeu que ficar no centro político pode ser ainda mais interessante para ele do que no centro do palco e das luzes. Inclusive pensando nas próximas eleições municipais.
Largou a ripa
Desde que ele chegou a Brasília, o discurso do Amaro apresentador não ganha eco no do Amaro deputado federal. Exemplo:
Amaro agora, no Congresso, defende que não se permita “o uso menos controlado de força [policial] em comunidades carentes”. O mesmo Amaro, no ar, de certo modo enaltecia, com viés cômico, o uso dessa força. O Amaro da TV diria algo como “os botina virado no Jiraya desceram o pipoco no rato e mandaram o vagabundo da quebrada para a camada pré-sal.” Tradução: “Os policiais atiraram no bandido e o mataram”. Ou, referindo-se (ao som de música da Gretchen) a algum homem detido por crime sexual: “Se não for pro seguro, vai namorar e beijar na boca, vai vestir o baby-doll e dançar ‘sissilopô’”. Tradução: “Se não for para cela individual, será estuprado”.
A melhor arma: a palavra
O senador Marcos do Val precisa se armar de melhores argumentos ao subir à tribuna do Senado. Na quarta, ao defender o decreto das armas, ele foi vaiado por colegas após uma escolha muito ruim de palavras.
Obviamente não quis dizer isso, mas deu a entender que, se estivesse armado ali, abriria fogo no plenário: “Tenho porte. Eu não poderia estar num local público e fechado porque eu seria preso e perderia meu porte. Por isso é que eu não poderia dar um tiro em você”.
Além disso, Do Val protestou porque o voto seria secreto. Foi informado de que era aberto e pediu desculpas pelo engano.
Em muitas arenas da vida, a melhor arma é a palavra. Naquela ali, o Parlamento, mais ainda.