Quando a gente olha, logo de início, as duas palavrinhas urnas e ruas, soam com similaridade uma vez que ambas carregam consigo quase a mesma quantidade de letras, aliás, a palavra urnas é formada, com todas as letras da palavra ruas. Isso não só é interessante, como estratégico e ao mesmo tempo, pertinente: as ruas estão (ou deveriam estar) nas urnas. Isso é muito característico de um olhar publicitário, que se amarra em trocadilhos para entender e para fazer o outro entender uma mensagem ou um conceito de forma curta e objetiva.
Quem não se lembra daquela campanha publicitária, lançada pela Fiat em 2013, com a seguinte frase de jingle: “Vem pra rua, porque a rua é a maior arquibancada do Brasil”. Mais do que viver uma Copa do Mundo, o Brasil estava sendo convidado, e estava entrando no campo das ruas pedindo um país diferente. Mais tarde, terminada a copa, o eco continuou, mas quem pegou o tom foi à Justiça Eleitoral que chamava as pessoas para a votação com a hashtag #vempraurna. Só nesse tempo, estamos há quase dez anos cantando um desejo que ainda não virou realidade: ver as ruas nas urnas e ver as urnas no governo.
Estamos em 2022, passaram-se quase dez anos de um movimento, o que vemos é uma “rua” mais esvaziada de oposição. A primeira impressão é que as lideranças, que vendiam esperança e se conectavam com a pauta de pessoas que iam para as “ruas”, fracassaram. Ninguém deu conta de reformar, nem tampouco de transformar o país para e com os brasileiros. Estamos chegando ao tempo de eleger, de ir para as urnas escolher. Junto ao silêncio, está somado o vazio das lideranças, e no vazio, a impotência lotada de perguntas: e agora? O que fazer?
Já ficou claro, que o Brasil precisa se redescobrir. A extrema direita (des) governou com gritos e afrontas, colocou em risco à democracia. Agora, os brasileiros tendem a ir para o outro lado (será extrema esquerda?). A cada ano, os brasileiros fazem um movimento de um lado para o outro, talvez, fosse mais prudente parar no centro do campo para escolher quem olha para os dois lados, mas o centro está vazio.
Numa entrevista recente da deputada Tabata do Amaral para a Gabriela Prioli, quando perguntada sobre o cenário eleitoral e o projeto político a advir, ela disse que, em meio à polarização e para garantir a democracia, talvez seja preciso que a gente pense numa “frente ampla” com ou sem o PT (talvez mesmo quando um centro bem constituído poderia ser mais interessante) e assim garantir a democracia, e depois quem sabe um projeto mais central. Grifo: o importante é garantir a democracia. A visão e o sentimento da Tabata podem representar com expressão o que pensam muitos brasileiros neste momento em que se vê a arruinação do Bolsonaro nas pesquisas e a ascensão de Lula.
O cenário parece que está posto. As eleições se achegam. As ruas estarão nas urnas? E as urnas estarão no próximo governo? Diante disso uma coisa é surreal: ter que pensar que chegamos ao tempo em que em vez de escolher o melhor programa de governo com estruturas, projetos e futuro, teremos que dar um passo atrás e escolher o programa de governo que “garanta a democracia”!