Essa pergunta precisa povoar nossos pensamentos de agora em diante.
Há décadas parte do mundo insiste em dialogar e conscientizar sobre a necessidade de preservação do meio ambiente, redução de emissão de gases de efeito estufa, estancamento de desmatamento, entre outros, com o objetivo de evitar desastres climáticos, enquanto a outra metade, especialmente os mais abastados, insistiam na narrativa impulsionada pelo lucro, de que não haveria necessidade e seria exagero o alerta propagado.
A fatura chegou, e o grande problema é que chega para todas as pessoas, não importando o país ou classe social.
Em razão de um sistema econômico predatório, que destrói o meio ambiente consumindo recursos naturais de forma desenfreada, e da atuação de dirigentes irresponsáveis, o mundo inteiro, enfrenta uma crise climática sem precedentes.
Em 2023, eventos climáticos extremos produziram recorde de ocorrências desastrosas em mais de mil municípios brasileiros. Tempestades cada vez mais fortes, deslizamentos que arrastam o que está pela frente, sempre produziram medo e insegurança para quem vive em áreas de risco. De acordo com o Cemadem, foram 1.161 eventos climáticos nos 1.038 municípios monitorados, sendo 716 foram ocorrências hidrológicas, como transbordamento de rios e 445 ocorrências geológicas, como deslizamentos de terra.
Desde de 2019, quando o monitoramento teve início, o ano passado foi o maior número, sendo consequência das mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global e também a influência de fenômenos naturais, como La Niña e El Niño, que mudam a temperatura dos oceanos e aumentam as incidências de chuva em diferentes partes do país.
As intempéries do tempo, de forma violenta, têm deixado um rastro de destruição avassalador que chega ao extremo do desaparecimento de milhares de vidas no mundo inteiro.
A Terra em um grito estridente ao tentar sobreviver vai acabando com a espécie humana, esta que, do alto da sua arrogância, achava que tudo era para sempre, sem saber que se não cuidasse o “pra sempre” acabaria, parafraseando Renato Russo.
Intuo que o tempo do “preservar” já tenha passado, e agora o que resta é aprender a lidar com a reação, natural, do sistema ambiental global, que cobra seu preço, com devidos juros e correção monetária.
Aprender a lidar com as consequências de décadas de irresponsabilidade prescindirá de um elemento raro na espécie humana: a humildade, para reconstruir formas possíveis do viver.
Preparar-se para os desastres climáticos que virão é ponto de partida para pensarmos políticas públicas de natureza reconstitutiva, sem devaneios esperançosos dos que ainda não experimentaram tamanha dor, de que se livrarão, escudando-se na classe socioeconômica alta.
A pergunta que precisa estar em todas as pautas, quando assistimos à tragédia que atravessa o Rio Grande do Sul, não é “se”, mas “quando” vai acontecer no local em que habito e qual é o plano de sobrevivência que terei disponível. A saída não é individual, mas coletiva.