Escutar o que o outro diz, acolher o que o outro traz e respeitar o que o outro pensa. Sem dúvida nenhuma esses são os desafios primeiros da humanidade, principalmente, se o outro é diferente de mim. Entretanto, esses são os verbos de base de uma sociedade que se intitula democrática. Fora dessas conjugações temos a intolerância e a intransigência, que estão na antessala da polarização.
Uma pesquisa publicada agora em março pelo jornal Valor Econômico revelou dados preocupantes no que concerne à polarização política no Brasil, principalmente em um ano eleitoral. De acordo com a pesquisa, o eleitorado extremista brasileiro passa de 30%, indicando de pronto que os próximos meses podem ser de enfrentamentos cotidianos, em níveis mais altos do que já experimentamos.
Os dados desvelam uma situação que ainda está longe de ser arrefecida e compreendida. Quando temos 89% da sociedade, de acordo com os números apresentados, muito dividida politicamente, e pela mesma pesquisa, 36% não se identificando com nenhum campo político, rejeitando qualquer enquadramento, e no mesmo compasso 41% se dizendo tolerante, podemos fazer uma leitura que agudiza nossa preocupação, ou seja, que ainda podemos ter, por grande parte da população, a compreensão inapropriada das questões políticas, econômicas e sociais.
A alta intolerância em um nível de 25% que aparece na pesquisa é o sinal de proa de que os valores da comunidade humana terão de ser, mais do que nunca, resgatados, para que as relações que em 2018 foram gravemente esgarçadas não sejam totalmente destruídas em 2022.
Muitos preferiram romper e se afastar, mesmo que essas decisões tenham produzido sofrimentos e deixado marcas permanentes, que, mesmo cicatrizadas com o tempo, ainda sejam passíveis de latejamentos. Outros, com altos custos, decidiram permanecer em relações, investindo, em muitos casos acertadamente, no acolhimento e respeito ao outro, e mantendo suas posições e ideais. Premissas e exercícios próprios da democracia.
Prescindir das dicotomias rasas é sempre o caminho mais difícil a trilhar. Contudo, a complexidade da vida nos convoca a apostar e insistir. O que é a vida, senão um permanente perseverar? Não abandonar as construções relacionais e vivenciais é afastar os perigos de pensar de maneira dicotômica e não cair em um maniqueísmo, como bem sustentou Caio Prado Júnior, considerando os diversos matizes entre o branco e o preto.
O raciocínio polarizado é sustentado pelo dualismo perigoso excludente do “ou é isso ou é aquilo”, desconsiderando a riqueza e beleza que existem entre um e outro.
Abandonar rótulos e perceber a essência é a chave de compreensão que alicerça uma sociedade democrática. A percepção de que a vida não cabe em caixinhas e que o outro, mesmo tão diferente, pode trazer em suas mãos algo novo e inusitado. E, o melhor, nos traga um frescor de bem-estar.
Alguns verbos deverão ser deixados de ser conjugados para que tenhamos mais leveza nessa travessia. Outros deverão ser transformados em mantras democráticos de sobrevivência. Escutar, respeitar e acolher, eis alguns deles, que nos desafiam, mas nos reconciliam com nossa essência humana.
Vivamos!