Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Sociedade

Bebês abandonados são a representação da ausência do Estado

Mecanismos de "abandono", seja no passado, seja na atualidade, colocam na centralidade do debate temas como planejamento familiar, adoção, condições socioeconômicas das famílias e relações humanas

Públicado em 

17 jan 2022 às 02:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

Bebê com coronavírus
As rodas dos enjeitados ou caixas de abandono existem em cada canto de formas diferenciadas Crédito: Pixabay
Em 2019, foram criados na Bélgica espaços onde bebês podem ser abandonados e ficar sob os cuidados do Estado. A iniciativa assegura que os infantes possam ter condições de crescerem e ter um “futuro melhor”, na avaliação do governo belga, e garantido ainda, aos pais, o anonimato. Somente após dois anos de criado é que o local, similar a uma caixa de correio, recebeu a primeira criança.
O sistema de “abandono” é um projeto criado pela Fundação “Moeders voor Moeders”, desde 2000, tendo conseguido acolher 19 bebês. Contudo, esse procedimento não é novidade na história da humanidade. Uma prática medieval, conhecida como a “roda dos enjeitados”, foi um mecanismo utilizado em casas de misericórdia para acolher crianças que não tinham condições de serem criadas pelos pais biológicos. No Brasil, as primeiras experiências ocorreram na Bahia e Rio de Janeiro, nos idos de 1730, evitava que crianças fossem abandonadas à própria sorte.
O mecanismo, seja no passado, seja na atualidade, coloca na centralidade do debate temas como planejamento familiar, adoção, condições socioeconômicas das famílias e relações humanas. A iniciativa, inobstante tente evitar que crianças sejam relegadas ao abandono, incide numa dimensão posterior ao fato geratriz da questão. Até tomar-se a decisão de abandonar uma pessoa frágil sem nenhuma condição de defesa e sobrevivência, outros tipos de abandonos aconteceram na vida dos pais.
As rodas dos enjeitados ou caixas de abandono existem em cada canto de formas diferenciadas, e provocadas por fatores diversificados, que em sua maioria residem na omissão do Estado como garantidor de políticas públicas de cuidado e orientação. O que é curioso que cabe ao Estado, ao fim e ao cabo, providenciar o cuidado àquele ser em desenvolvimento que foi abandonado por adultos, estes que foram abandonados anteriormente pelo Estado. É a representação consequente de um Estado que se apresenta como inconsequente.
A história me fez lembrar o relato de uma combatente magistrada, hoje aposentada, titular de uma Vara da Infância e Juventude, que vez ou outra era surpresada por mães que lhe chegavam aleatoriamente e queriam “devolver” seus filhos, pois não “davam conta” de criá-los. Quando indagadas acerca de devolver para quem, as mesmas respondiam: “Para a senhora”.
Essas mães e pais, mas principalmente mães, não eram anônimas. Do fundo de suas misérias e falta de condições socioeconômicas e afetivas, encontram nesse gesto a forma de pedir ajuda e denunciar a falha de um Estado que ainda não conseguiu efetivar políticas públicas estruturantes e transformativas, e somente plaina na superfície de uma questão que é muito mais profunda.
Elementar que se registre que o cuidado institucionalizado do Estado, permeado por regras e leis, é deslegitimado de sentimento genuíno que somente floresce no seio de um ambiente livre, acolhedor e natural criado a partir da efetivação de direitos fundamentais e condições de vida adequadas. O que vem depois do abandono é reparação, que pode até ajudar a fechar a ferida, mas é incapaz de esconder a cicatriz.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Arteterapia: 11 benefícios para a saúde mental no Dia Mundial da Arte
Imagem BBC Brasil
Wagner Moura é eleito pela Time uma das 100 pessoas mais influentes de 2026: 'Abriu um buraco no teto do mundo'
Imagem de destaque
Longevidade: por que proteínas e cálcio se tornam ainda mais importantes após os 40 anos

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados