Enquanto na Holanda, a prefeitura de Utrecht acabou de construir um estacionamento subterrâneo para 12.500 bicicletas, aqui no Espírito Santo a prefeitura de Vila Velha recolheu as bicicletas do sistema de compartilhamento recentemente lançado por uma empresa que já atua em diversas cidades brasileiras.
Para quem, como eu, está acompanhando pela imprensa essa situação no território canela-verde, já viu falas antagônicas tanto de representante da PMVV quando da empresa Yellow. A prefeitura diz que a empresa para atuar no município precisa estar legalizada e que atenda ao Código de Posturas. A Yellow, por outro lado, diz “que tinha recebido aval das autoridades municipais” para iniciar suas atividades na cidade. Bom, se é assim, bastaria apresentar documentação comprovando a licença para atuação. Entre o disse-me-disse, quem saiu perdendo foram os moradores da cidade que não poderão contar com mais um sistema de transporte que só traz vantagens.
De qualquer modo, fica a impressão que a Prefeitura de Vila Velha não tinha muito interesse em facilitar a implantação desse novo sistema, talvez pela existência de outro operador de compartilhamento de bicicletas, cujo modelo demanda a existência de estações fixas, portanto, com menos agilidade que o da Yellow, que é extremamente flexível.
Mas sem querer defender um ou outro sistema, o ideal é que tenhamos várias opções de mobilidade, principalmente quando se trata de um modal sustentável, como é a bicicleta, ou seja, que não polui, com baixo risco de acidentes, que ocupa pouco espaço nas vias urbanas e, talvez o mais importante, com benefícios para a saúde dos usuários. Portanto, todo apoio deve ser dado ao incentivo da bicicleta como alternativa para o nosso complicado trânsito diário.
Não sei se em algum dia chegaremos ao nível da Holanda, que conta com o maior número de bicicletas por população, afinal o país possui 17 milhões de habitantes e 23 milhões de bicicletas. Muitas são as causas do baixo uso relativo da bicicleta no Brasil, entre elas temos a infraestrutura insuficiente e inadequada (que inclui ciclovias, ciclofaixas e sinalização), mas também um clima tropical, que muitas vezes faz da pedalada algo desconfortável dada a intensidade do calor.
Voltando ao caso da Yellow em Vila Velha, aparentemente a questão ficou no licenciamento e tributação pelo município. E aí, de fato, é necessário que as cidades arrecadem recursos, até mesmo para melhoria, ampliação e manutenção do sistema viário, que inclui as ciclovias, ciclofaixas e sinalização, e, quem sabe, até mesmo bicicletários completos (como se vê na Europa), que contam com local para guarda, vestiários e oficinas.
Enquanto isso, em Vitória, não houve tal polêmica, pois antes mesmo que as bicicletas amarelas começassem a operar na cidade, a prefeitura já vinha anunciando o início das atividades dessa nova modalidade de compartilhamento, que chegou junto com os patinetes.
Não obstante, a Prefeitura de Vitória vem mostrando certa lentidão é quando se trata da questão da infraestrutura para a circulação das bicicletas. Senão, vejamos: como está o projeto de implantação da ciclovia da Praia do Canto e Santa Lúcia? Sabemos que na Praia do Canto houve resistência por parte da comunidade local, pois muitos não querem perder vagas de estacionamento na Avenida Rio Branco. Por que então não desviá-la para Rua Aleixo Netto, como já foi sugerido nesse mesmo espaço tempos atrás?
Além disso, sem grandes obras e recursos, ciclofaixas poderiam ser implantadas facilmente no miolo de bairros com vias largas como Jardim da Penha e Bento Ferreira, por exemplo. Trata-se de um tipo de ação que só melhoraria a segurança não só de ciclistas, mas também para pedestres e motoristas.
Enquanto isso, o que temos visto é a volta dos engarrafamentos e dos acidentes de trânsito acima do tolerado. Realmente, não estamos na Holanda...