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Arquiteto professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades inovacao e mobilidade urbana tem destaque neste espaco.

Da Ufes às redes sociais, o paradoxo do monitoramento em tempo real

Há em nossa sociedade um fascínio pela tecnologia e um desejo eminente por avanços em direção a um maior desenvolvimento econômico

Publicado em 03/05/2019 às 15h13
As pessoas são monitoradas em todos os lugares. Crédito: Pixabay
As pessoas são monitoradas em todos os lugares. Crédito: Pixabay

Na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), onde sou professor há anos, existe uma nova determinação para que o resultado das provas ou trabalhos de avaliação dos alunos não sejam expostos contendo o nome deles, mas apenas o número de matrícula. Durante todos os anos que tenho dado aula na universidade, eu e meus colegas professores publicávamos os resultados sempre colocando-os numa lista na secretaria do departamento, na qual estamos vinculados, contendo o nome e nota dos alunos.

A justificativa para a mudança de orientação, tanto por parte da administração da Ufes, como defendido pelos próprios alunos, é para não expô-los entre si.

Num mundo onde praticamente todo ser humano possui um celular e encontra-se conectado; participa de redes sociais, compartilhando fotos em viagens, jantares, passeios, festas em qualquer evento social; onde o governo e as concessionárias de serviços sabem onde vivemos; o que fazemos; onde realizamos compras online por meio de cartão de crédito, que já estão cadastrados em aplicativos de automóveis, bicicletas e patinetes compartilhados; onde vemos constantemente notícias sobre vazamento de dados de usuários de plataformas de redes sociais; onde polícia e Ministério Público monitoram troca de mensagens entre cidadãos via palavras-chaves suspeitas em busca de possíveis atos criminosos; onde bancos sabem quanto temos na conta e; onde a Receita Federal sabe qual é o nosso patrimônio (ou pelo menos sabe o dos pais dos alunos), me parece algo dramático que jovens que ainda não se formaram, que ainda pretendem entrar no mercado de trabalho não queiram que seu colega de turma saiba qual é a sua nota.

Câmeras de segurança e privacidade. Crédito: Amarildo
Câmeras de segurança e privacidade. Crédito: Amarildo

Trata-se de um paradoxo, afinal há em nossa sociedade um fascínio pela tecnologia e um desejo eminente por avanços em direção a um maior desenvolvimento econômico (que hoje está diretamente atrelado às inovações tecnológicas).

E isso fica mais patente quando nos damos conta que dois dos lugares mais ricos, desenvolvidos e tecnológicos do mundo, como Londres e Singapura, são também super monitorados em tempo real e de modo quase onipresente por todo tipo de tecnologia.

Projeções indicam que o monitoramento total é uma tendência mundial e um preço a ser pago por morar em locais economicamente desenvolvidos e pacificados (ou com baixo índice de violência urbana). Ou seja, tudo indica que é uma tendência sem volta. Por outro lado, é claro que há todo um debate sobre quais são os limites do direito à individualidade e privacidade (tema, aliás, muito abordado pela literatura e cinema).

O monitoramento total é uma tendência mundial. Crédito: Pixabay
O monitoramento total é uma tendência mundial. Crédito: Pixabay

Enquanto isso, temos visto um enorme embate (onde?, nas redes sociais, claro) sobre alunos querendo ou sendo incentivados a filmarem os professores durante suas aulas, mas não visando guardar o conteúdo da matéria para posterior estudo, mas para possíveis denúncias sobre posicionamento ideológico, político e por aí vai. Ou seja, o que está em curso é um esforço em tornar a sala de aula um lugar no qual não há o confronto de ideias. “Quem não deve, não teme”, dirão alguns. O problema, porém, é que sabemos que hoje é muito fácil pegar uma mídia e editá-la, tirando-a do contexto ou mesmo transformando parte do que foi registrado no que chamamos atualmente de fake news.

Trata-se de um caminho perigoso, que pode não ter volta, criando um nível de animosidade onde deveria reinar a curiosidade de quem quer aprender, estudar, compartilhar conhecimento, buscando fazer desse mundo algo melhor.

O que temos visto, contudo, é uma sociedade cada vez mais dividida e refratária, entre quem se considera que está do lado certo e quem está, por exclusão, do lado errado. E aí, o que prevalece é simplesmente a arbitrariedade.

Thanos, por exemplo, segundo ele próprio, só queria com seus atos fazer algo pelo bem do universo...

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