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Orlando Caliman

Temos aqui no Brasil uma versão de Trump na presidência do país

Enquanto lá nos Estados Unidos, Trump, com a sua incontinência verbal e belicosa, tem provocado ruídos que ganham escala global, Bolsonaro tensiona o ambiente interno

Publicado em 08 de Agosto de 2019 às 11:02

Públicado em 

08 ago 2019 às 11:02

Colunista

Trump diz que apoia Brasil na OCDE e vai discutir com Bolsonaro ação militar na Venezuela Crédito: Evan Vucci/AP
Sem bem observarmos e avaliarmos as respectivas trajetórias de narrativas, temos aqui no Brasil uma versão de Donald Trump na presidência do país. Recorrendo à linguagem utilizada para representar relações matemáticas, Trump estaria para os Estados Unidos como Bolsonaro para o Brasil. Evidentemente, observadas as diferenças em estágio de desenvolvimento, complexidade e especificidades estruturais dos dois países. Em outras palavras, temos uma versão nacional de Trump. Uma versão tupiniquim.
Enquanto lá nos Estados Unidos, Trump, com a sua incontinência verbal e belicosa, tem provocado ruídos cujas consequências ganham escala global, Bolsonaro, com suas atitudes e muitas vezes até destemperos, tensiona o ambiente interno, sobretudo o econômico, injetando fluidos negativos num contexto já extremamente fragilizado pela longa e profunda crise. Para o investidor, seja ele interno ou externo, que já anda ressabiado, funciona como elemento perturbador adicional.
Para uma economia como a americana, solidamente estruturada e em crescimento, além da condição de liderança mundial, o “modus operandi” de seu mandatário máximo, mesmo que visto e admitido como fora da normalidade histórica, pouco ou nada tem interferido na dinâmica da economia. Aliás, o desempenho da economia americana tem até melhorado nos últimos anos.
O mesmo no entanto não podemos afirmar em relação ao Brasil, que além de apresentar uma economia em estado de letargia e fragilidade estruturais, refletida principalmente no alto desemprego e baixo nível de investimentos, vê crescer a sua dependência externa. Em síntese, essa obsessão de Bolsonaro em gerar conflitos de forma permanente não faz bem para a economia, pois tensiona o mercado e faz aumentar o “estado” de incertezas e inseguranças especialmente para investidores.
Nas várias frentes de conflitos abertas por Bolsonaro, e foram muitas, como certamente muitas outras virão, algumas já provocam preocupações e receios em setores produtivos de peso. Entre estes podemos destacar dois: o agronegócio e a mineração. E ambos em relação ao tema ambiental, no qual o Brasil vem se posicionando até então na contramão da tendência predominante no mundo. O receio é de que o mercado comprador externo, sobretudo o europeu, cada vez mais seletivo quando a questão diz respeito à sustentabilidade, possa retrair em investimentos e na demanda por produtos brasileiros.
A expectativa que nos resta agora é que essa estratégia de Bolsonaro, que para ele é não ter nenhuma (o que não deixa de ser uma estratégia), pelo menos não interfira negativamente nas iniciativas que estão em curso, especialmente na área econômica, com as reformas, e na infraestrutura. O país precisa urgentemente avançar na criação de condições internas para destravar a economia.

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