A prefeita de Vitória, Cris Samorini (PP), vetou o Projeto de Lei nº 49/2025, aprovado pela Câmara Municipal, que queria proibir a participação de crianças e adolescentes "em desfiles e eventos relacionados á orientação sexual, a promoção do aborto e a drogas ilícitas" na cidade.
A Casa possui 21 vereadores. Desses, 13 participaram da votação do projeto, no dia 20 de maio, e apenas um voto contrário foi registrado no painel, o de Ana Paula Rocha (PSOL).
O líder da prefeita na Casa, Leonardo Monjardim (Novo), por exemplo, votou a favor.
Mas Cris Samorini seguiu o parecer da Procuradoria do município, que apontou inconstitucionalidade formal na proposta, por invasão de competência.
O projeto tentou criar regras de responsabilidade civil solidária automática (entre pais, organizadores e patrocinadores) e proibir mediações judiciais. A Procuradoria destacou que legislar sobre Direito Civil e Processual é de competência privativa da União.
Além disso, "a Constituição é expressa ao reservar à União a competência para exercer a classificação, para efeito indicativo de diversões públicas", diz parecer assinado pelo procurador-geral do município, Tarek Moyses Moussalem.
Ou seja, isso não é assunto a ser tratado por legislação municipal. Apenas federal.
Via de regra, projetos que fustigam eventos LGBTQIAP+ e afins têm o objetivo de agradar a uma base específica, os eleitores de direita.
A proposta em questão foi apresentada pelo vereador Dárcio Bracarense (PL).
Cris poderia, como o antecessor dela no cargo, Lorenzo Pazolini (Republicanos), fez algumas vezes, "lavar as mãos". Não vetar nem sancionar diretamente o projeto.
Se deixasse o prazo transcorrer sem se manifestar, haveria sanção tácita, o texto seria promulgado pela Câmara e viraria lei.
A prefeita, porém, decidiu vetar, nos termos do parecer da Procuradoria.
Uma análise feita pelo Núcleo Especializado da Infância e Juventude da Defensoria Pública do Estado do Espírito Santo também foi anexada à mensagem de veto enviada à Câmara.
A Defensoria ressaltou que o projeto de lei promovia uma discriminação arbitrária, criando uma exclusão simbólica e estigmatizante voltada especificamente contra os eventos dessa comunidade.
E também pontuou que as Paradas do Orgulho LGBTQIAPN+ são, essencialmente, manifestações de caráter político e cultural legítimas. Tratá-las de forma genérica e abstrata como ambientes nocivos a menores de idade viola o princípio constitucional da igualdade e o direito à livre expressão.
BASTIDORES
O que chama a atenção nesta história não é nem o tema do projeto em si, visto que flertes com o eleitorado de extrema direita, com a homofobia e temas "polêmicos" tornaram-se uma constante no parlamento brasileiro.
É uma forma de chamar a atenção, viralizar nas redes sociais e ganhar holofotes.
A questão é que a prefeita decidiu se posicionar.
Nos bastidores, a leitura também não é de que isso se deu apenas por contrariedade com o projeto ou a inconstitucionalidade do texto.
Dárcio Bracarense, o autor, é um vereador independente. Em alguns momentos soa até como opositor a Pazolini e a Cris.
É especulado como possível candidato a prefeito em 2028.
Isso pode ter impulsionado o veto.