Uma pesquisa divulgada no último dia 20 pelo Ipec (Inteligência em Pesquisa e Comunicação Estratégica) demonstra que há uma luz no fim do túnel da política brasileira fora dos extremos Lula-Bolsonaro que dominaram as últimas eleições nacionais. Segundo a pesquisa, 57% dos brasileiros desejam uma nova liderança política que surja distante dessa polarização.
Esse percentual refere-se à soma dos entrevistados que concordaram totalmente (39%) e parcialmente (18%) com essa afirmativa. Os que discordaram totalmente ou parcialmente somaram 27%. Cinco por cento responderam que não concordam nem discordam dessa alternativa.
O resultado chama a atenção porque, no primeiro turno das últimas eleições, os candidatos que tentaram empunhar a bandeira da terceira via não chegaram a ter, juntos, 10% dos votos válidos. Simone Tebet, do MDB, a mais votada depois de Lula e Bolsonaro, foi preferida por apenas 4,2% do eleitorado. É sinal que nenhum dos candidatos, fora Lula e Bolsonaro, conseguiram empolgar os eleitores.
Para os especialistas, os candidatos da terceira via naufragaram diante da radicalização dos candidatos e do eleitorado que se dividiu entre direita e esquerda, o que sinalizou, em toda a campanha, que nenhum outro nome conseguiria fazer frente aos dois favoritos. É dogma conhecido nas eleições polarizadas que os eleitores não gostam de votar em quem não tem chances de ganhar.
O fato é que todas as forças políticas que tentaram, de alguma forma, construir uma alternativa aos dois favoritos fracassaram, seja por causa de brigas internas – como o PSDB – seja por não conseguir construir um discurso que se diferenciasse segundo a percepção do eleitorado como foi o de Ciro Gomes. Ou, ainda, pela busca da sobrevivência política que uniu esquerda, direita e Centrão contra aquele que representava o combate à corrupção, no caso o ex-juiz Sérgio Moro.
É correto afirmar que a recente pesquisa do Ipec demonstra, sem dúvida, que há um sentimento majoritário no eleitorado que não aprova os métodos e a ação de Lula – e dos seus seguidores petistas – e também os de Bolsonaro – e dos bolsonaristas radicais. Em outras palavras, não aprova as invasões de terra do MST e as pautas de costumes da esquerda e tampouco o negacionismo em torno das vacinas e as depredações de prédios dos Três Poderes como as ocorridas em 8 de janeiro promovidas pela direita.
O sentimento antiextremos, então, está aí, presente na sociedade, mas é evidente que falta, sobretudo, competência dos partidos e das forças políticas em construir essa alternativa equidistante da esquerda e da direita radicais. Olhando para todos os lados possíveis – à direita, à esquerda, para cima, para baixo, para os lados – não é possível, ainda, vislumbrar qualquer possibilidade de, no curto prazo, serem gestadas lideranças de dimensão nacional que possam se contrapor ao populismo da esquerda e da direita brasileiras.
Tanto que no campo da esquerda – leia-se PT – nenhum nome surge como substituto de Lula para a próxima disputa presidencial. Até antes da posse, e mesmo Lula tendo dito que não seria candidato à reeleição, seu nome já foi lançado pelos petistas para 2026. O mesmo acontece no campo oposto, o da direita, que não ostenta nome algum como eventual substituto de Bolsonaro, apesar do sério risco que ele corre de se tornar inelegível em um dos vários processos que tramitam no Judiciário.
Por mais que a pesquisa do Ipec sinalize a possibilidade de alguma novidade que mude o atual quadro político-eleitoral, tudo indica que iremos ter que conviver por muitos anos com essa polarização radical que bloqueia os ventos de renovação e desfaz a esperança de boa parte dos brasileiros de ter algo para escolher além desses dois pratos repetidos e requentados que estão disponíveis no nosso pobre cardápio eleitoral.