O país, ao que parece, se surpreende a cada atitude – digamos, bizarra – do presidente Bolsonaro. Se escandaliza quando ele desmente, para em seguida ser desmentido, um dos seus aliados de primeira hora, nomeado e pouco tempo depois demitido de um cargo de primeiro escalão.
Se sente indignado quando ele posta no Twitter “imagens obscenas” gravadas em um bloco de carnaval. Se revolta por ele dizer, em uma cerimônia militar, que democracia e liberdade só existem quando a Força Armada “assim o quer”.
Entretanto, convenhamos, tais episódios deveriam ser encarados como absolutamente previsíveis já que este é o jeito Bolsonaro de ser desde quando ele se tornou uma figura pública conhecida. Sua ligação com os filhos – ao estilo militar chamados de “Zero Um”, “Zero Dois” e “Zero Três” – já prenunciava uma interferência familiar direta nas decisões da Presidência, por mais prejudicial que ela possa ser. O episódio da demissão do ministro Bebianno evidenciou isto.
o bate-boca que antecedeu a demissão do ministro, a divulgação de gravação em que Bolsonaro revela considerar a Rede Globo uma “inimiga” também não deveria causar qualquer surpresa. Há muito Bolsonaro revela ojeriza à imprensa de uma maneira geral – na campanha declarou guerra à “Folha de S. Paulo” e, recentemente, divulgou fake news sobre uma jornalista do “Estadão” – daí a sua dedicação obsessiva às redes sociais.
É a sua convicção de que as redes sociais substituem com vantagens – para ele e para o seu governo, naturalmente – os veículos de comunicação de massa que o faz twittar diariamente sobre os mais variados assuntos, entre os quais a pornografia explícita postada durante o carnaval.
Bolsonaro, quem diria, repete o mesmo comportamento de ditadores, como Maduro, a quem tanto critica, que não suportam conviver com a imprensa livre e as notícias nem sempre positivas com relação ao governo.
O Brasil deve, assim, se acostumar com Bolsonaro do jeito que ele é, com suas convicções enviezadas, com o seu linguajar inconveniente, com a sua falta de modos. Que ninguém espere de Bolsonaro seguir a chamada “liturgia do cargo” como muitos têm cobrado. E nem que o jeito Bolsonaro de ser seja algum tipo de crime que justifique um impeachment por “falta de decoro” como alguns da oposição – que há tão pouco tempo tanto falavam em “golpe” – já começam a propor.
É bom que nos acostumemos com as batatadas bolsonarianas, pois muitas outras ainda estão por vir. Resta torcer para que elas não atrapalhem demais a tão sonhada retomada do desenvolvimento, esta sim uma pauta relevante que importa aos brasileiros.