Se o Big Bang aconteceu depois do colapso de uma megaestrela que deu origem a um buraco negro e dali chegamos ao alvorecer do cosmos, onde hoje estamos, eu não saberia explicar, nobre leitor. Físicos e astrônomos respeitados podem fornecer material mais consistente e comprovado que este cronista sem pretensões de ser o Einstein das letras com minhas linhas tortas.
Prefiro a inspiração que o buraco negro pode oferecer em pratos poéticos, como a primeira foto de um desses publicada mês passado. Vagueio pela ideia de buracos como aquele que, há bilhões de anos, deixou marca indelével em homens e mulheres na travessia dos tempos. Físicos já comprovaram que o interior dos átomos é repleto de espaços vazios. Somos, portanto, feitos de buracos.
Na imensidão de vazios que existe em nós, vivemos na tentativa de preencher espaços, de sair do vácuo. A necessidade de entulhar os vazios desmorona em ilusões e naquilo que anda matando, sangrando de muitos modos: a busca de relações que preencham nossas fendas emocionais. Imaginamos haver um outro que consiga nos completar, metade da laranja, carne e unha, alma gêmea. Nem Fabio Jr. deu conta dessa doce ilusão.
O desejo de se embolar e se perder no outro cria o monstro das relações tóxicas, aquelas assemelhadas a um buraco negro, onde nada e ninguém conseguem sair. Conheci um casal que deu a esse tipo de relação o nome de amor e a doença é tão devastadora que ambos ainda vivem juntos e sobrevivem à custa de tarjas pretas para se distrair da realidade e da separação. O que era tóxico no comportamento, agora o é nas drogas da compensação afetiva, que nunca se concretizará. O afeto se embolou e adoeceu junto.
Faço essa ponte entre Física e Psicanálise, mas sou um reles bocudo, nada entendo. É que acredito nas tramas que interligam todas as coisas, e essas duas áreas do conhecimento têm pontos de extraordinária liga. E tenho sonhos. De que não alimentemos com tanto ardor o monstro tóxico da lagoa. E sejamos substantivo próprio, acompanhados ou não, porque, quando nos diluímos no outro, a cegueira da máscara nos impede de ver a própria face.