ASSINE
É jornalista e cronista

Na imensidão de vazios, vivemos na tentativa de sair do vácuo

O desejo de se embolar e se perder no outro cria o monstro das relações tóxicas, aquelas assemelhadas a um buraco negro, onde nada e ninguém conseguem sair

Publicado em 23/05/2019 às 17h04
Amor despedaçado. Crédito: Amarildo
Amor despedaçado. Crédito: Amarildo

Se o Big Bang aconteceu depois do colapso de uma megaestrela que deu origem a um buraco negro e dali chegamos ao alvorecer do cosmos, onde hoje estamos, eu não saberia explicar, nobre leitor. Físicos e astrônomos respeitados podem fornecer material mais consistente e comprovado que este cronista sem pretensões de ser o Einstein das letras com minhas linhas tortas.

Prefiro a inspiração que o buraco negro pode oferecer em pratos poéticos, como a primeira foto de um desses publicada mês passado. Vagueio pela ideia de buracos como aquele que, há bilhões de anos, deixou marca indelével em homens e mulheres na travessia dos tempos. Físicos já comprovaram que o interior dos átomos é repleto de espaços vazios. Somos, portanto, feitos de buracos.

Na imensidão de vazios que existe em nós, vivemos na tentativa de preencher espaços, de sair do vácuo. A necessidade de entulhar os vazios desmorona em ilusões e naquilo que anda matando, sangrando de muitos modos: a busca de relações que preencham nossas fendas emocionais. Imaginamos haver um outro que consiga nos completar, metade da laranja, carne e unha, alma gêmea. Nem Fabio Jr. deu conta dessa doce ilusão.

O desejo de se embolar e se perder no outro cria o monstro das relações tóxicas, aquelas assemelhadas a um buraco negro, onde nada e ninguém conseguem sair. Conheci um casal que deu a esse tipo de relação o nome de amor e a doença é tão devastadora que ambos ainda vivem juntos e sobrevivem à custa de tarjas pretas para se distrair da realidade e da separação. O que era tóxico no comportamento, agora o é nas drogas da compensação afetiva, que nunca se concretizará. O afeto se embolou e adoeceu junto.

Faço essa ponte entre Física e Psicanálise, mas sou um reles bocudo, nada entendo. É que acredito nas tramas que interligam todas as coisas, e essas duas áreas do conhecimento têm pontos de extraordinária liga. E tenho sonhos. De que não alimentemos com tanto ardor o monstro tóxico da lagoa. E sejamos substantivo próprio, acompanhados ou não, porque, quando nos diluímos no outro, a cegueira da máscara nos impede de ver a própria face.

 

A Gazeta integra o

Saiba mais

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.