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Segurança pública

Um morto muito louco: a vida superando a ficção

Por geralmente não não trazerem elementos trágicos e tão insólitos, nossas vigarices cotidianas raramente ganham as manchetes e isso tende a ocultar da população a verdadeira dimensão desse problema de segurança pública

Publicado em 21 de Abril de 2024 às 02:00

Públicado em 

21 abr 2024 às 02:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

Laudo da polícia não conclui se idoso foi levado morto ao banco
Laudo da polícia não conclui se idoso foi levado morto ao banco Crédito: Reprodução
A última vez que vi alguém perambulando com um defunto pela rua foi há mais de 30 anos e, claro, não passava de uma comédia cinematográfica. E o caso real que explodiu em nossos olhos esta semana, por trágico e repugnante que seja, inevitavelmente inspirou muitos memes e gracejos fora da mídia tradicional. O que isso tem a ver com segurança pública? Tudo. Basta saber que a responsável está presa e provavelmente responderá por uma série de crimes.
Se excluirmos os detalhes inusitados, o caso não é raro: todos os dias, dezenas de milhares de meliantes tentam aplicar golpes em algum desavisado. Desta vez foi com um banco, mas os estelionatários têm especial predileção por pessoas de baixa instrução, idosos etc., o que revela uma crueldade especial. É como assaltar pobre para poder ostentar.
Ainda que não utilizem violência física, esses criminosos podem deixar muitas sequelas psicológicas em suas vítimas, além de prejuízos financeiros elevados. Portanto, a sociedade não pode dar importância secundária a essa modalidade criminosa que está se alastrando com a universalização das redes sociais e aplicativos de mensagem.
Acontece que esse tipo de crime não pode ser prevenido por meio do nosso tradicional policiamento ostensivo, então, à primeira vista, só tem como fazer campanhas de aviso público quanto aos golpes mais comuns e, de resto, investigar os que já ocorreram – mas essa última alternativa tende a receber pouca atenção quando existem tantos homicídios para elucidar.
Isso é verdade só até determinado ponto. Como boa parte dos criminosos utiliza meios informáticos, os provedores desses serviços podem e devem assumir uma postura mais ativa na prevenção. A inteligência artificial é perfeitamente capaz de identificar boa parte das postagens e das publicidades maliciosas.
Outra coisa é que muitos usuários percebem e denunciam, mas parece que não recebem atenção nem mesmo de algum algoritmo. Quem desempenha atividade econômica é responsável pelos atos de terceiros se não adotar as cautelas necessárias para os combater e corrigir, e os golpes pela internet são uma faceta pouco explorada nos debates sobre regulamentação das redes sociais e assemelhados.
Em resumo, por geralmente não não trazerem elementos trágicos e tão insólitos quanto a nossa versão local de “Walking Dead”, nossas vigarices cotidianas raramente ganham as manchetes e isso tende a ocultar da população a verdadeira dimensão desse problema de segurança pública, que merece muito mais atenção do que tem recebido.
As autoridades podem fazer mais para combater esse tipo de crime – e vamos tratar disso em uma coluna especial – mas também podem e devem exigir das empresas que tenham maior cuidado e responsabilidade para com seus clientes, em vez lavarem as mãos e dizerem que não têm culpa nenhuma pelas malfeitorias dos outros.
Por último, claro, não basta exigir mais do Estado ou das empresas. Todo dia um otário sai de casa: é preciso tomar cuidado para que não seja eu. Da próxima vez, prestarei mais atenção àquelas propagandas de bancos alertando para fraudes.

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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