Esse assunto da violência no Rio de Janeiro parece infinito e, de qualquer forma, não dá para discuti-lo, mesmo de forma muito superficial, em apenas um artigo. E, ultimamente, nosso outro vizinho ao norte também tem dado o que falar. Hoje é dia de fazer uma afirmativa aparentemente absurda: não, nem o Rio de Janeiro nem a Bahia estão passando por uma crise de segurança pública. Devemos escolher bem as palavras, porque elas podem enganar nosso raciocínio.
Se alguém sofre uma infecção, mesmo que não muito grave, trata-se de uma crise: até ontem a saúde estava perfeita. Por outro lado, a doença tende a evoluir rapidamente para um desfecho – não necessariamente bom, mas sempre um ponto final. E o tratamento adequado precisa ter efeito no curto prazo.
Já aqueles que sofrem de hipertensão ou diabetes têm uma doença crônica. O mal vem evoluindo às vezes sem ninguém perceber. É quase certo que o paciente precisará fazer dieta e se medicar por muito tempo, provavelmente para o resto da vida. Não se toma um comprimido e volta para o chope.
O assassinato de três médicos paulistas pode ter rendido manchetes e chocado a população, que aumentou a pressão sobre as autoridades, mas a verdade é que essa tragédia estava inserida em um cotidiano de extrema violência, de todas as espécies e contra todas as pessoas, já virou rotina, já está naturalizado; é o “normal” do Rio. Não houve um salto nas estatísticas de homicídios daquele dia; apenas um evento que chamou muito mais a atenção que o normal.
Então, pode ser muito grave a situação dos dois estados, mas é melhor não chamar de “crise”, porque isso gera a ênfase em medidas de curtíssimo prazo. Por exemplo, operações de Garantia da Lei e da Ordem fazem todo sentido em uma greve de policiais, mas não tem qualquer finalidade estratégica diante de uma criminalidade crônica e fortemente enraizada, não muda nada na sociedade desses estados, não tem o menor potencial de realmente afetar facções ou milícias, mesmo que apresentem bons resultados operacionais.
Claro: não há soluções garantidas, baratas, fáceis ou rápidas para esses estados, mas isso não justifica providências meramente cosméticas e de curta duração, nem pirotécnicas de outro lado. A tragédia que se abateu sobre aqueles médicos gerou uma crise de imagem para o governador do Rio e, por tabela, para o governo federal, mas vamos aos fatos: a selvageria criminosa já estava confortavelmente instalada havia muito tempo e todo mundo sabia; e lá continuará, se as autoridades públicas insistirem nessa receita velha de mudanças legislativas de afogadilho e “mutirões” de curta duração com as forças armadas ou a Força Nacional de Segurança Pública.
E o fato: nenhum governante quer realmente resolver o problema, está todo mundo tentando varrer o lixo para o quintal do vizinho, isto é, transferir as responsabilidades. Há uma expressão velha e desusada para isso: e agora, quem vai pôr o guizo no gato?