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Religião

Queima do Alcorão na Suécia e a intolerância religiosa que cresce no mundo

O episódio ocorrido em Estocolmo é um alerta para todos nós. É preciso dar um basta à tolerância com os intolerantes. Os Estados que se afirmam democráticos têm de agir para interromper qualquer processo de validação desse tipo de ocorrência

Públicado em 

25 jul 2023 às 00:30
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

A queima do Alcorão, livro sagrado dos mulçumanos, em frente a uma mesquita na Suécia, ocorrida recentemente, tolerada socialmente e validada pelo Estado, não é um caso isolado de intolerância religiosa.
Ela é representativa de um fenômeno bastante complexo que se expande e capilariza produzindo ações das mais diversas naturezas que chocam pelo retrocesso civilizatório e pela radicalidade do fanatismo, do extremismo e da falta de respeito humano que encerra.
O argumento utilizado de que a liberdade de expressão deve ser garantida a todos, independentemente do ato ou enunciado, contém uma falácia sofista que desrespeita a inteligência, agride a dignidade e revela o empobrecimento moral de uma sociedade que pretensamente alcançou altos patamares sociais e econômicos, mas que parece mergulhar em uma ladeira descendente no quesito moralidade pública e da ética.
Suécia
Extremista sueco-dinamarquês coloca fogo em Alcorão em público na cidade de Estocolmo, em frente à embaixada da Turquia Crédito: Reprodução
O Direito e a Justiça não podem tolerar o intolerável. Estados laicos precisam construir doutrinas jurídicas sólidas capazes de sustentar intervenções consistentes por parte do Estado quando diante dessas transgressões ético-jurídicas.
Não há legalidade possível quando a dignidade religiosa é violada. As divergências políticas e religiosas fazem parte da democracia e precisam ser compreendidas como exercício cotidiano de respeito às diferenças e de busca pela paz.
Ao autorizar a realização de atos dessa natureza, sob a frágil argumentação de que os impedir seria violar o direito à liberdade de expressão, a justiça sueca abre um flanco perigoso que pode nos levar a desdobramentos inimagináveis com repercussões internacionais.
Estão registradas e são de conhecimento público as histórias das sangrentas guerras religiosas que perduram por décadas, comprometendo a paz e colocando em risco a vida de tantos que sucumbiram ao ódio produzido e alimentado na intolerância religiosa.
O avanço da extrema direita com algumas tentativas, visíveis ou declaradas, de implantação de Estados religiosos no mundo, não pode ser ignorado ou menosprezado acreditando-se ser algo passível de controle pelo processo democrático que se afirma avançado e consolidado em países desenvolvidos como os países nórdicos e outros que assim são classificados.
O risco vai para além da eventual vitória de um candidato de extrema direita que poderá ser destituído do poder, como aconteceu no Brasil, no último mandato, diante dos ataques ao Estado Democrático de Direito e avanço das pautas moralizantes conduzidas pelas igrejas evangélicas que comandam importante bancada no Congresso Nacional.
As consequências se desdobram e se alastram de forma a capilarizar uma cultura de ódio que vai se tornando aceitável e transformando um projeto civilizatório em um projeto que alimenta a animosidade, o rancor e o horror nos relacionamentos e na política.
O mais grave é a acomodação e naturalização de uma cultura que tolera, consente e admite a ruptura dos limites éticos, distanciando-se de projetos de futuro e de paz.
O episódio ocorrido na Suécia não está distante de nós. Ele faz parte da história passada e recente em nosso país. No início do século XX, em 9 de março de 1909, na cidade de São José do Calçado no Estado do Espírito Santo, um templo da Igreja Presbiteriana do Brasil foi queimado em nome do ódio e da intolerância religiosa.
De acordo com os registros históricos, esse ato de intolerância teria sido incentivado pelo vigário da igreja católica romana na cidade, o padre Elias Tommassi, que fora enviado com a incumbência de erradicar o presbiterianismo na região.
Passado cerca de um século, quando imaginávamos já superado esse tipo de extremismo em nome de Deus, assistimos diversos episódios de agressões religiosas típicas de intolerância no campo da fé, destruindo e expulsando sob enunciados discursivos baseados em interpretações dissimuladas da Bíblia àqueles que discordavam politicamente ou que não se submetiam aos ditames autoritários de líderes religiosas radicais, inflexíveis e ávidos de poder e de recursos originados dos fiéis.
O episódio ocorrido em Estocolmo, na Suécia, é um alerta para todos nós. É preciso dar um basta à tolerância com os intolerantes. Os Estados que se afirmam democráticos têm que agir de forma a interromper qualquer processo de validação desse tipo de ocorrência.
Desrespeitar um livro ou objeto sagrado é desrespeitar aqueles que professam a sua fé e que são sujeitos do direito à liberdade religiosa.
Ódio produz ódio. Ódio produz guerra. Guerra produz morte. O episódio da queima do Alcorão já produziu aumento das tensões entre os países mulçumanos e os países com predominância de cristãos. As promessas são de que a queima de Bíblias e os ataques a cristãos começarão a ocorrer.
A paz precisa ser um projeto de todos nós. O único ódio que precisamos alimentar é o ódio ao ódio e que ele se transforme em busca e luta intransigente pela paz.

Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e coordenadora do doutorado em Direito da FDV

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