Nos dicionários, e no imaginário social, a palavra “comemorar” está ligada a ideia de celebrar. Festejamos o Natal, o Dia das Mães, o Dia dos Namorados, o Dia das Crianças e centenas de outras datas que nos permitem agradáveis momentos de compartilhamento e alegria.
No entanto, ainda que na maior parte das vezes utilizemos datas comemorativas apenas como oportunidade para realizar encontros festivos, a palavra comemorar, originada do latim comemorare, está ligada a ideia de trazer a memória, rememorar algo que seja significativo e relevante para ser relembrado.
Em 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, instituído em 2011, por meio da Lei nº 12.519, em lembrança à memoria de Zumbi, líder do Quilombo Palmares, assassinado por sua luta e defesa dos Direitos dos afrodescendentes, temos muito a lembrar e pouco a comemorar.
Aqueles que resistiam em busca de liberdade e justiça, contrapondo-se à escravidão, viram a Lei Áurea ser assinada, sem que, de fato, libertos tivessem sido do jugo dos homens brancos.
Essa falsa liberdade que os jogou em uma clandestinidade perversa, excludente, periférica e ainda mais dependente, fomentada pela falta de políticas públicas que lhes garantissem um real processo emancipatório, determinou os desdobramentos e a continuidade de uma escravidão talvez ainda mais cruel e mísera, na medida em que, agora, abandonados, tanto por seus antigos “senhores” quanto pelo próprio Estado que deveria lhes garantir a proteção, considerando sua extrema vulnerabilidade existencial.
Em uma libertação, portanto, meramente política e realizada com o objetivo de atender às pressões internacionais, no Brasil, milhares de pessoas foram deixadas à sua própria sorte em uma necropolítica, que foi ocultada por mais de um século e que só muito recentemente começa a ser desvelada, estudada e analisada de forma crítica e com políticas de enfrentamento.
O Dia Nacional da Consciência Negra, que deveria ser comemorado como uma vitória, fruto de um avanço civilizatório e de reconhecimento da importância dessas pessoas para a formação da identidade nacional, com sua rica cultura, seu espírito de luta, resistência e enormes contribuições à história do país, é vivenciado hoje com sentimento de vergonha e dor, a expor nosso fracasso, nossa incapacidade de constituir uma sociedade estruturalmente equânime do ponto de vista racial, seja em condições, seja em possibilidades asseguradas.
São múltiplas as investigações científicas que comprovam que a violação de direitos e as práticas de racismo continuam a constituir uma cultura que se mantém cristalizada e naturalizada no Brasil.
POLÍTICAS PÚBLICAS
Ainda que algumas políticas públicas tenham sido implementadas no sentido de proporcionar igualdade de oportunidades para negros e brancos, com mudanças estruturais que aparentemente poderiam reverter essa condição de abissal assimetria, muito pouco avançamos, já que ainda persistem profundas desigualdades no que diz respeito a desemprego, violência, racismo direto e indireto, entre outras.
Em um país no qual a Fundação Zumbi dos Palmares, que tem como missão “promover a preservação dos valores da influência negra na formação da sociedade brasileira”, é presidida por Sergio Camargo, não há mesmo o que comemorar.
Um homem negro que deveria ser o porta voz da denúncia contra o racismo estrutural historicamente fomentador das desigualdades raciais que nos definem parece não se reconhecer, ele próprio, como destinatário de políticas e de ações afirmativas que buscam promover condições de existência mais equânimes.
Um homem negro que apesar de atingir um lugar de destaque social e político dos mais importantes da nação evidencia, com seu discurso e com suas práticas, a eficácia do projeto que fomenta a inconsciência de classe e do lugar de fala.
As resistências iniciais à sua nomeação, manifestadas nos pronunciamentos de protestos originados de todos os lados, foram sendo paulatinamente reduzidas até que hoje, de forma natural e tranquila, em uma política de desmonte histórico e de apagamento de personalidades negras, a fundação que deveria fomentar a conscientização nacional para uma história de lutas e de resistências, vai se esvaziando em uma caminhada de negação da negritude, que nos fez retroceder décadas em poucos meses.
Ele ignora a dor de tantos que sofreram a injusta condição de serem escravizados e terem seus corpos violados fosse por apropriação para aplacar o desejo sexual de seus “senhores”, fosse para amamentar os filhos de suas “senhoras”, fosse para transformar seus corpos em objetos a produzirem a riqueza de poucos e a miséria de muitos.
No dia 20 de novembro, é preciso trazer à memória uma história de resistência, lutas, dor e orgulho, que deveria servir de exemplo a toda a nação, convidando-nos a celebrar a capacidade de enfrentar as adversidades com brio e espírito de luta por direitos, por dignidade e por manutenção de uma identidade negra, bela, colorida e feliz, ainda que na dor, cultivando e preservando uma cultura toda própria, de riqueza musical, de danças, de comidas , de vestimentas, de habilidades artísticas, de religiosidade, de valores éticos, de criticidade e capacidade de ressignificar a realidade construindo uma história que não nega as violações e as denuncia, mas que continua aberta a oferecer oportunidade para o reencontro.