O que aconteceu em Paraisópolis? Até agora, creio, o que se viu foram muitas aspas e pouca reportagem.
Recebi de um bom amigo, leitor qualificado e crítico, uma mensagem sugestiva. “A imprensa poderia fazer este trabalho investigativo: onde está o prefeito (até agora não foi questionado sobre o uso do espaço público)? O que estava acontecendo naquela festa (drogas, bebidas, etc)? Onde estavam os responsáveis pelos menores ali presentes?” Tem toda razão. Reconheço. Impõe-se uma autocrítica.
O sabadão, sem controle e sem lei, é o mercado preferencial para o tráfico de drogas. Fica a impressão de que os policiais invadiram uma festa carregada de normalidade. Os pancadões são locais estratégicos para o tráfico e aliciamento de mão de obra. É uma desgraça. Uma chaga social que precisa ser enfrentada. É preciso fazer perguntas essencialmente jornalísticas: Quem domina o pedaço? Quem está por trás do evento? E a autoridade municipal, responsável pelo espaço público? Está na moita? Não há nenhum projeto para permitir que a juventude se divirta de modo seguro e sadio? Isso é, de fato, reportagem, jornalismo investigativo. Se a imprensa não for um pouco mais a fundo, vai ser liberou geral.
Escasseia reportagem. Falta profundidade. Jornalismo não é divulgação de versões. É a busca da verdade possível. E isso exige ouvir e investigar. Sem preconceito e sem viés. “O importante”, diz o mítico jornalista norte-americano Carl Bernstein, “é saber escutar. As respostas são sempre mais importantes que as perguntas que você faz. A grande surpresa no jornalismo é descobrir que quase nunca uma história corresponde àquilo que imaginávamos.”
É importante que os repórteres e os responsáveis pelas redações tomem consciência desta verdade redonda: a imparcialidade (que não é neutralidade) é o melhor investimento. Algo que se constrói não com declarações entre aspas, mas com olhar desengajado de quem foi ver a realidade.
O que aconteceu em Paraisópolis? Será que o leitor, cada vez mais crítico e com acesso a fontes alternativas, ficou satisfeito com as nossas reportagens? Apresentamos fatos ou versões?
Nosso ofício, humilde e insuperável, é o de iluminar a história. Gostemos ou não dela.