O ponto mais grave do rompimento da barragem em Brumadinho, Minas Gerais, ocorrido na última sexta-feira (25) é, sem dúvida, a tragédia humanitária, seguida da ambiental. Mas os impactos existem ainda em outras esferas. Na avaliação de fontes ouvidas pela coluna, diante da tragédia, a construção da ferrovia EF-118, ligando Vitória ao Rio de Janeiro, fica ainda mais difícil de se concretizar, pelo menos no curto prazo.
Isso porque uma das alternativas que já vinha sendo desenhada pelo governo federal era de que pelo menos um trecho, até Anchieta, fosse construído pela Vale usando de créditos de ICMS que a empresa tem junto ao governo do Estado.
Mas, agora, outras questões afastam o avanço do investimento nessa infraestrutura. O primeiro ponto é que o foco da Vale neste momento e certamente ao longo de todo 2019 estará em prestar atendimento às vítimas e suas respectivas famílias e dar explicações e respostas à sociedade, aos órgãos ambientais e aos acionistas da companhia.
O segundo é o fato de que mesmo que a Vale tente tocar paralelamente o assunto da renovação antecipada da Estrada de Ferro Vitória-Minas e a construção de um ramal até o Sul capixaba, dificilmente ela terá recursos disponíveis para o investimento bilionário que a ferrovia exige. “Esse assunto subiu no telhado”, é o que avalia o senador Ricardo Ferraço. À coluna, ele ponderou que a situação da Vale neste momento é muita delicada e que dificilmente ela vai se debruçar sobre outros projetos que não sejam os ligados à tragédia.
Uma outra fonte considera que, sem a Vale, a União não vai ter capacidade de arcar com os custos do negócio. “Por mais bem intencionados que possam estar os governos federal e do Espírito Santo para destravar a logística capixaba, sem um grande investidor, será mais um projeto a ser cozinhado em banho-maria. Já conhecemos bem essa história”, lamenta.
Por fim, o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, anunciou que o governo vai segurar o processo de prorrogação antecipada das concessões das ferrovias da Vale, como o da Vitória-Minas, o que deve travar o investimento nesse setor como um todo.
Empresas capixabas vão atuar em Brumadinho
Diante da tragédia em Brumadinho, empresas capixabas estão sendo demandadas para prestar serviços em Minas Gerais. Companhias de diferentes segmentos já começam a se organizar para tentar ajudar nas variadas atividades que serão necessárias nesse processo, tanto agora, enquanto as buscas pelas vítimas acontece, quanto posteriormente, na reconstrução da região e no atendimento aos envolvidos e suas respectivas famílias.
A busca das empresas do Espírito Santo é fruto da experiência que muitas delas acumulam após terem prestado serviços no caso do rompimento da barragem da Samarco, em Mariana, que aconteceu em novembro de 2015, e deixou um rastro de lama e prejuízos em Minas Gerais e também no Estado.
Uma fonte conta que entre as prestadoras de serviços que deverão atuar neste novo desastre está uma empresa de produtos químicos, que mexe com reagentes. “Essa já até já foi chamada e a expectativa é que muitas outras sejam requisitadas. Ter o trabalho das nossas empresas reconhecido fora do Estado é muito bom, mas não gostaríamos que fosse para esse tipo de situação. Infelizmente, as nossas empresas, com a experiência de Mariana, poderão prestar serviços lá”, lamenta o especialista.
Além dessa companhia do setor químico, deverão ser acionadas empresas que atuam na área social, com cadastramento de vítimas e pessoas ligadas aos atingidos, e ainda aquelas que fazem o controle de alimentação e distribuição de água, de produtos higiênicos e de limpeza.
Entre as capixabas também existem aquelas mais ligadas à área da mineração e à construção pesada, que deverão contribuir com serviços para a remoção da lama e para a construção de proteções emergenciais na região. Deverão ser chamadas ainda empresas que fornecem máquinas.
Trabalhadores da Vale temem ficar sem PLR
Profissionais que trabalham na Vale estão apreensivos se eles irão receber em março, como era previsto, a Participação nos Lucros e Resultados (PRL) referente ao ano de 2018. O receio é que os empregados fiquem sem a bonificação, assim como aconteceu com os executivos da companhia, que tiveram o pagamento de remuneração variável suspenso, e também com os acionistas, que não vão ganhar dividendos e juros sobre o capital próprio (JCP).
A suspensão de alguns pagamentos foi definida no último domingo (27), pelo Conselho de Administração, em função do rompimento da barragem. Desde a tragédia, a mineradora já teve bloqueado pela Justiça R$ 11,8 bilhões.
Justamente em função desses bloqueios - que representam cerca de metade de todo o caixa da Vale, conforme dados publicados no balanço do terceiro trimestre de 2018 - que empregados da mineradora temem ficar sem receber a PRL.
Embora exista a preocupação, o assunto é tratado de forma muito delicada pelos profissionais, afinal, ninguém quer parecer ser mesquinho em meio a essa tragédia sem precedentes. Pelo contrário, conforme a coluna apurou, empregados da unidade capixaba, em Tubarão, estão muito abalados com o que aconteceu em Minas e incrédulos de que um acidente com essa proporção tenha ocorrido.
“Mas é inevitável pensar nisso (na suspensão do pagamento), afinal teve muita gente que assumiu compromissos financeiros pensando que receberia a PRL em março. Não é o meu caso, mas muita gente fez dívida e está desesperada”, relata um empregado da companhia.
Em 2018, os empregados receberam o valor médio de 6,7 salários, PRL recorde. O valor deste ano não foi informado. Procurada, a Vale não respondeu aos questionamentos da coluna.