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Atualidade

Ditos populares para refletir sobre esses tempos de pandemia

O pandemônio social e econômico já estava instalado antes do surgimento da Covid-19. "Enfiar a cabeça no buraco para esperar o vendaval passar" é se render à distopia que leva todos a perderem a esperança

Publicado em 02 de Dezembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

02 dez 2021 às 02:00
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

Se "a voz do povo é a voz de Deus", vale ouvi-la quando tudo o mais demonstra perda de poder explicativo para o que nos cerca. Capacidade de explicação – da ciência, dos dogmas religiosos ou políticos – que se acentuou com todos os desdobramentos do reconhecimento de uma pandemia que nos liga a todos.
A voz aqui utilizada será a expressa através de ditos populares. A se manter a lógica do "farinha pouca meu pirão primeiro" – que se aplica como uma luva à máxima do neoliberalismo segundo a qual o que existe são indivíduos e a sociedade que se lixe – todos continuarão à mercê no surgimento de novas variantes da Covid 19. Isso fica mais do que claro diante da mais recente onda da pandemia que volta a assustar países europeus.
A utilização de forma egoísta das vacinas – que se concentram majoritariamente em países ricos – enseja o surgimento de novas ondas a partir de países pobres. Neles a baixa cobertura vacinal enseja a mutação do vírus que se coloca cada vez mais forte e assustador para o chamado mundo desenvolvido.
Enquanto continuarem a florecer fundamentalismos ligados às diversas versões da teologia da prosperidade, é crescente a insegurança que assola a todos. De forma resumida, o que guia fundamentalistas e apologistas da prosperidade modelo Eu S.A. é a crença sectária no "cada um por si e Deus por mim".
O resultado está aí nas ruas e caminhos e constatáveis para quem tiver olhos para ver e ouvidos para escutar. Para além de contundentes estatísticas sobre insegurança alimentar – número de pessoas que não sabem quando poderão se alimentar, é crescente a desnutrição grave, aquela que debilita sistemas imunológicos e amplia imensamente o risco de morte.
Como alguém pode se sentir seguro diante de um quadro tão cruel para crescente parcela da população? De que vale tentar se proteger em condomínios e em veículos individuais que cada vez mais fragmentam a sociedade? Como pode alguém acreditar que diante do esgarçamento social que resulta do neoliberalismo dogmático, aparatos de segurança – governamentais, organizados em milícias, ou através de armamentos nas mãos de "cidadãos de bem" – efetivamente protegem a vida ainda que de uma minoria abastada financeiramente
O desnudar de dívidas sociais que foram agravadas com a pandemia, mas que já estavam há muito presentes entre nós, precisa mover quem delas tem consciência para o colocar a mão na massa. É ingenuidade pensar que tudo passará com a pandemia.
O pandemônio social e econômico já estava instalado antes do surgimento da Covid 19. O que a pandemia fez foi agravar o que já era urgente. "Enfiar a cabeça no buraco para esperar o vendaval passar" é se render à distopia que leva todos a perderem a esperança.
O "nada melhor do que um dia após o outro com uma noite no meio" precisa ser vivenciado a partir de propostas utópicas que partem do que todos – independentemente, de gênero, etnia, poder econômico/político e situação social – temos em comum: a nossa humanidade.

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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