*José Antonio Martinuzzo
“O passado não reconhece seu lugar: está sempre presente.” A confirmar a atualidade de Mario Quintana estão recorrentes polêmicas sobre passados digitais que não cansam de atormentar cibercelebridades da hora. Das mais recentes, listam-se acusações de homofobia com base em arquivos desenterrados envolvendo o ator Bruno Gagliasso, a partir de embate on-line com o vlogueiro Julio Cocielo sobre racismo, e o youtuber Whindersson Nunes.
Em 2014, na União Europeia, constituiu-se uma arena jurídica acerca do “direito ao esquecimento”. Em fevereiro, o Google apresentou relatório indicado que, desde então, recebeu aproximadamente 2,4 milhões de pedidos de remoção de conteúdos, tendo atendido apenas 43%. Por aqui, nada ainda de concreto.
Como os ciberterritórios estão para todos, impõe-se nova ocupação: a gestão do que se posta hoje e amanhã já será passado, um ontem potencialmente mais intrusivo do que nunca, dada a sua natureza digital. Mas não é só isso. As polêmicas em torno do “seu passado [on-line] te condena” pautam outras reflexões. Uma delas é que a internet se constitui como um inaudito “lugar de memória”, conceito de Pierre Nora para falar de museus, monumentos etc. Os gigantescos datacenters concretizam um assombroso “lugar de memória” do século 21.
Esses lugares se servem às operações mnemônicas, tendo em vista que memória é o que resta da equação entre lembrar e esquecer. E o que faz girar esse fenômeno não é a natureza. Conforme Arjun Appadurai, o passado oferece um mundo de referências, cujas significações presentes são disputadas e quase nunca harmoniosas. Essas disputas são configuradas pelo que Michael Pollak denomina de “enquadramento da memória”, estabelecendo-se as lembranças e os esquecimentos.
Ocorre que a volatilidade ética atual, turbinada pelas intolerâncias, acaba por tornar os “lugares de memória” digitais verdadeiros paióis de conteúdo explosivo diante de enquadramentos escandalosos. Coerência faz parte do universo da dignidade e da honestidade, mas é de se ressaltar que assim como as pessoas têm direito ao esquecimento também possuem o direito de mudar de ideia – e isso pode ser bom!
Vale lembrar Guimarães Rosa, que, considerando a “astúcia que têm certas coisas passadas – de fazer balancê, de se remexerem dos lugares”, aponta magistralmente: “O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior”.
*O autor é doutor em Comunicação, pós-doutor em Mídia e Cotidiano, professor na Ufes e membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória