Agora é silêncio aqui onde escrevo estas linhas crônicas. Sons da natureza, grilos estrilando, zumbidos de besouros, um galo cantando fora de hora, a coruja de olho e pio na noite. Onomatopeias soando como uma confusa orquestra nesse meu toque de recolher na roça, onde me hospedo no sítio da amiga Betty Erthal, atriz de primeira linha que escreveu lindamente sua história nos palcos mais nobres deste país. A estrela de primeira grandeza que sempre foi é agora substituída pela anfitriã cheia de mimos com seus convidados.
Depois de emprestar voz, ouvidos e gingado na folia de Vitória, cumpro o ritual de me despedir da zoeira urbana pra brincar de folia no matagal com amigos. A esbórnia nunca é deixada de lado, mas os poemas da Hilda Hilst me caíram bem naquele paraíso onde recupero energias e renovo o paladar pro que virá. E somos sempre felizes nesta reunião de bacanas dividindo comidas, bebidas e afeto, o item de melhor liga dos nossos encontros.
Um salto neste ponto da crônica: já desci a serra do descanso. Estou eu no Rio, cidade que me acolheu por 16 anos entre a adolescência e fase adulta, e que agora me soa descompensada, o ar exala misérias e desalento. Foi exatamente esse o motivo de ter deixado a cidade que tanto amo. Já naquela época, eu dizia pros amigos cariocas: “A panela de pressão desta cidade vai estourar algum dia e eu não quero que estoure na minha porta”. E parti.
A explosão se deu, a cidade transborda em violência, o poder público é a degradação total. Crivella é prefeito que se colore de arrogância – à beira do cinismo - pra conversar com os cariocas. O horror está feito, a vergonha dos meus amigos por ver sua terra no fim da linha é desconcertante. Não encontro mais a poesia do Rio que me ensinou a dançar, a escrever, a amar nas camas mais animadas da Tijuca à zona Sul. O tesão perdeu o fogo ao desastre me esbofeteando nas ruas em desalinho.
Volto pras terras capixabas com a mala desfeita de ilusões. O Rio perdeu o jogo e não se sabe se haverá a próxima partida. Eu permaneço na arquibancada torcendo pela hora da virada no placar.
*O autor é jornalista e cronista