Sepultando de uma vez por todas a dúvida sobre a via eleitoral que vai seguir, Renato Casagrande (PSB) lançou, publicamente, pré-candidatura ao governo estadual na última segunda-feira. O anúncio foi feito em uma coletiva de imprensa. De modo geral, foi claro e convincente em relação à sua determinação de voltar ao Palácio Anchieta. O plano parece irreversível. Porém, ao finalmente sair da bolha da incerteza, Casagrande já deixou expostas algumas vulnerabilidades.
A maior delas: o agora pré-candidato fala o tempo todo em um “novo movimento”, um “novo projeto”, com “novas propostas”. Repetiu inúmeras vezes o adjetivo durante sua exposição. Mas ele próprio já foi governador (2011-2014), vice-governador (de Vitor Buaiz, entre 1995 e 1998) e está na vida pública desde o fim dos anos 1980, com uma série de outros mandatos. Seus principais aliados também são velhos conhecidos dos eleitores capixabas: a senadora Rose de Freitas (PMDB) acumula sete mandatos no Congresso (seis como deputada federal e o atual, no Senado). Max Filho (saindo do PSDB) e Luciano Rezende (PPS) emendam, desde os anos 1990, mandatos de vereador, deputado e prefeito.
O primeiro grande desafio de Casagrande será provar ao eleitor o que essa candidatura realmente traz de “novo”, com tantos veteranos políticos fazendo parte dela. Aliás, será que eles têm mesmo algo de “novo” a apresentar, ou será que apenas vão apresentar o mesmo de novo? O que, afinal, Casagrande vai oferecer de inovador, especificamente, para os capixabas desta vez? E, principalmente, o que vai oferecer de diferente em relação ao seu próprio governo? A resposta do ex-governador a esta nossa pergunta, formulada em termos parecidos, foi justamente o momento mais fraco da sua entrevista (nossa opinião, é claro):
“O meu governo, que será a base naturalmente para o debate, é um governo que se concluiu com muita aprovação popular. Ele é um governo que teve muito resultado, tanto na área social como na área de infraestrutura. Muito resultado mesmo, parceria com os municípios... Mas o que é que nós vamos ofertar? Pessoas experientes podem apresentar propostas novas, tá certo? Especialmente quando esse novo é comparado com o projeto que está vigente, né? É novo na direção de que a gente assume, de novo e novamente, uma prática do diálogo permanente com a sociedade e da eficiência nas ações do governo. Responsabilidade, diálogo, parceria e eficiência. Acho que isso é novo”. E assim seguiu.
Casagrande tem se esmerado em demarcar suas diferenças em relação a Paulo Hartung. Sempre que pode, reitera que ambos são muito distintos no que concerne ao modelo de gestão, aos métodos de fazer política, ao padrão de comportamento etc. Isso é uma coisa, e cabe aos eleitores comparar um com o outro. Mas o primeiro grande desafio de Casagrande, por enquanto ainda não bem respondido, talvez seja a comparação consigo mesmo.
Vale lembrar que, mesmo bem avaliado, o socialista saiu da eleição de 2014 derrotado por Hartung. E o “governo de muito resultado” que ele diz ter feito não foi suficiente para levá-lo nem sequer ao 2º turno. A campanha certamente falhou, pecou em alguns aspectos. E, em muitos pontos, o discurso embrionário de Casagrande para 2018 retumba ecos de quatro anos atrás.
Na comparação consigo mesmo, o ex-governador precisará provar o que esse Casagrande de agora tem de diferente (e de melhor) do que aquele que perdeu para Hartung em 2014. E no que exatamente evoluiu em relação ao seu próprio governo e à sua campanha anterior.
Troca de posições
O deputado estadual Theodorico Ferraço admite: há boas chances de ele e sua esposa, Norma Ayub (ambos do DEM), “trocarem de posições”. Ou seja, Theodorico disputaria a eleição a deputado federal, enquanto Norma, hoje na Câmara Federal, “desceria” para concorrer à vaga de Theodorico na Assembleia. “É possível”, confirma o deputado. “Se Norma quiser ser federal, eu serei estadual. Se ela for estadual, eu serei federal.”
Marido com apetite
Em primeiro lugar, Theodorico, de saída, teria mais votos que Norma. Em 2014, ele conseguiu fazê-la 1ª suplente da coligação, com quase 65 mil votos. “Imagine então quantos votos não consegue para si mesmo!”, projeta dirigente estadual de outro partido. Mas, aos 80 anos, terá ele ainda fôlego para encarar a ponte aérea semanal e a rotina de Brasília? “Ele é um animal político. Não subestime seu apetite”, responde o mesmo dirigente.
Itapemirim nunca mais
Em segundo lugar, Theodorico não nutre mais aspirações políticas municipais, enquanto Norma tende a preferir “ficar mais perto de casa”, ou seja, da política regional do Sul do Estado, e uma vaga na Assembleia vai lhe proporcionar essa proximidade. Isso porque a deputada sonha em voltar a ser prefeita... de Itapemirim, não é? “De Itapemirim, não”, corrige Theodorico, para nossa surpresa. “Mas pode ser Marataízes ou até Cachoeiro. Itapemirim consideramos excluída.”
Mas por quê?
“É uma decisão pessoal já tomada”, explica Theodorico. “Ela já foi prefeita lá e não deseja mais. A crise em Itapemirim é muito grande. Não queremos nos meter mais com a política de Itapemirim. Vamos deixar que o povo da cidade escolha o melhor caminho. Prefeitura, se tivermos que pensar, é a de Marataízes ou a de Cachoeiro. Agora, Itapemirim está fora dos nossos projetos. Não queremos mais participar da crise instalada na cidade.”
PSD bolado com Hartung
Os caciques do PSD no Estado estão realmente transtornados com o súbito fortalecimento que o PRB vem recebendo no Espírito Santo, atraindo e filiando políticos da base como Rodney Miranda (pré-candidato a deputado federal) e Amaro Neto (pré-candidato a senador). José Carlos da Fonseca Júnior, Enivaldo dos Anjos e Neucimar Fraga reuniram-se na sexta à tarde para discutir a questão. “É necessário que haja um equilíbrio entre os partidos da base”, destaca o último.
Mas nem tanto
Na mesma reunião, decidiram reforçar o convite a Hartung para filiar-se ao PSD.
Falando em PRB...
Da série “não custa perguntar”. Desde o início de março, o Partido Republicano Brasileiro (PRB) passou a ser presidido no Espírito Santo por Roberto Carneiro. Respeitado no meio político como hábil e “jeitoso” articulador, Carneiro é secretário estadual de Esportes. E não dá o menor indício de querer se desligar do cargo. É a prova definitiva de que o governo Paulo Hartung resolveu ignorar de vez aquela famosa resolução do Conselho Estadual de Ética ou simplesmente fazer de conta que ela deixou de existir.
Acúmulo proibido
Referimo-nos à resolução de 2008 que proíbe secretários e subsecretários de Estado de acumularem funções de dirigentes nos respectivos partidos, por entender que o acúmulo fere a ética na administração pública. Pelo mesmo motivo, José Carlos da Fonseca Júnior deixou a presidência do PSD quando assumiu a chefia da Casa Civil e Rodney Miranda a do DEM quando se tornou secretário estadual de Desenvolvimento Urbano.
Respeita quem quer
Mas alguns respeitam a vedação, outros não, e fica tudo por isso mesmo. Subsecretário de Desenvolvimento, Neucimar Fraga preside atualmente o PSD, cargo que não faz menção de abandonar. Agora, Carneiro. Ou seja, respeita quem quer.
Texto intocado
Em outubro do ano passado, a então formação do Conselho de Ética voltou a se debruçar sobre o texto da resolução, mas exclusivamente para uniformizar a interpretação no que diz respeito a um caso dúbio: o do vice-governador, cargo não mencionado explicitamente na resolução. Em uma decisão polêmica, os conselheiros decidiram que a restrição não vale para o vice. Entretanto, a resolução diz textualmente que a proibição se aplica a secretários e subsecretários. E isso jamais foi alterado, tampouco rediscutido pelos conselheiros.
Mas que é, é
Ocorre que, mais que polêmica, a decisão sobre o caso do vice-governador (concretamente, de César Colnago) foi traumática. O Conselho se diluiu e, no momento, está inativo. Resumindo: Carneiro, Neucimar e outros mais não serão incomodados. Mas que é proibido, é.